JN ouve sobreviventes de ação da polícia que deixou dez mortos no Pará

JN ouve sobreviventes de ação da polícia que deixou dez mortos no Pará

GERAL -   


O Jornal Nacional ouviu com exclusividade dois sobreviventes da ação policial em que morreram dez posseiros no Pará . Eles dizem que ocorreu uma chacina.

Os dois sobreviventes estavam entre as 25 pessoas que ocupavam a Fazenda Santa Lúcia no dia da operação da polícia. Um dos sobreviventes contou que o grupo tentou se esconder quando os policiais chegaram à sede.

Sobrevivente 1: A gente começou a correr pro mato. Foi quando começou muita chuva forte. Nós sentamos, puxamos aquela lona pra cobrir a gente. A gente não ouviu eles chegando. Chegaram a pé e já gritaram: “Não corre não que vai todo mundo morrer”.

Sobrevivente 2: E foi atirando pra cima da gente. Teve um deles que levou um tiro perto de mim que até me sujei de sangue.

Sobrevivente 1: Aí tornava a gritar de novo: “Bota a mão na cabeça pra morrer”. E tiro. Parece que tava pegando de um a um.

Repórter: Os policiais estavam muito próximos de vocês ou estariam mais distantes?

Sobrevivente 2: Quando eles atiraram? Muito próximos. Chegaram pra matar.

Repórter: A polícia não chegou informando o que ela foi fazer na fazenda?

Sobrevivente 1: Não. Nada.

Repórter: Havia armas com vocês no acampamento?

Sobrevivente 1: Eu vi algumas espingardas.

Repórter: E elas foram usadas no dia da operação da polícia?

Sobrevivente 1: Não foi usada.

As testemunhas também disseram que as vítimas foram agredidas antes de serem mortas.

Sobrevivente 2: Eles pegaram meus colegas vivos e tavam batendo muito de pancada, e diziam: “Por que vocês não correram também”? E atiravam neles.

Repórter: Os seus colegas já estavam dominados antes de serem alvejados?

Sobrevivente 2: Tavam sim, eles poderiam ter pego eles se tivessem algum mandado ali, e ter levado preso.

Dos 15 sobreviventes da ação policial em Pau d’Arco, oito já foram localizados e ouvidos pelo Ministério Público. Ainda esta semana, eles devem entrar no programa de proteção a testemunhas. Geralmente, essas pessoas têm que se mudar para outro estado e recebem assistência por até quatro anos.

Segundo a Pastoral da Terra, as duas testemunhas ouvidas pelo Jornal Nacional não respondem a processos criminais. Eram posseiros e ocupavam a fazenda desde o início de 2017.

A operação na Fazenda Santa Lúcia foi na quarta-feira (24), quando 29 policiais tentavam cumprir 16 mandados de prisão por homicídio e ameaças contra fazendeiros e vigilantes.

Segundo a Secretaria de Segurança do Pará, os policiais alegaram terem reagido à ação dos posseiros e que seis dos dez mortos na ação eram suspeitos de participação nos crimes.

Um relatório apresentado nesta terça-feira (30) pela Assembleia Legislativa do Pará concluiu que não houve confronto na fazenda e que há indícios de que policiais atrapalharam as investigações ao retirar os corpos da cena do crime e porque teriam manipulado as armas apreendidas dos posseiros.

Os advogados que representam os 29 policiais que participaram da operação não quiseram se manifestar.

A Secretaria de Segurança Pública do Pará também não quis se manifestar sobre os dois depoimentos. Segundo a secretaria, o resultado da perícia das armas e o laudo dos corpos só devem ser divulgados quando o inquérito for concluído.