Ataques de rebeldes rohingyas deixam pelo menos 72 mortos no oeste de Mianmar

Ataques de rebeldes rohingyas deixam pelo menos 72 mortos no oeste de Mianmar

GERAL -   

Bangcoc, 25 ago (EFE).- Pelo menos 72 pessoas morreram nesta sexta-feira no oeste de Mianmar em ataques reivindicados por rebeldes rohingyas contra postos de controle militares, delegacias e quartéis no conflituoso estado de Rakhine.

Os mortos são 59 rebeldes, 11 policiais, um soldado e um funcionário, segundo os últimos dados das Forças Armadas, que incluem 11 feridos, três deles em estado grave, e um detido.

Pelo menos mil insurgentes armados com facões, machados e outras armas caseiras participaram dos ataques perpetrados contra diferentes alvos no município de Maungdaw, perto da fronteira com Bangladesh.

A ação foi reivindicada pelo Exército da Salvação Rohingya de Arakan (Arsa), um grupo ao qual é atribuído o ataque a três postos policiais em 9 de outubro de 2016, que deixou nove agentes mortos e desencadeou uma repressão das forças de segurança condenada reiteradamente pelas Nações Unidas desde então.

O incidente de hoje ocorreu um dia após a comissão liderada pelo ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan apresentar ao público um relatório a pedido do governo birmanês com recomendações para dar fim à violência sectária em Rakhine e promover o desenvolvimento da região.

"Nenhuma causa pode justificar tal brutalidade e mortes sem sentido", disse Annan em um comunicado que condena os ataques e no qual pede a atuação das forças de segurança e que todas as partes rejeitem a violência.

"Após anos de insegurança e instabilidade, deveria estar claro que a violência não é a solução aos desafios que o estado de Rakhine enfrenta", acrescentou o diplomata.

O Arsa justificou o ataque de hoje com a necessidade de se defender dos abusos sofridos pela minoria muçulmana rohingya por parte do exército, que aumentou a repressão desde os ataques de outubro.

"Este é um passo legítimo que demos para defender o povo mais perseguido do mundo e liberar os oprimidos das mãos dos opressores", escreveu o Arsa em sua conta no Twitter.

O grupo acusou o exército em um comunicado de cometer pelo menos 12 assassinatos, saques e estuprar mulheres em Rathedaung e Maungdaw nas últimas semanas com o objetivo de provocar instabilidade e fazer fracassar o trabalho da comissão de Annan.

"Quando as atrocidades contra pessoas inocentes vão além do que podemos tolerar, e estando a ponto de lançar um ataque contra nós, nos vimos obrigados a nos levantar e defender as pessoas desesperadas e a nós mesmos", indicou o Arsa.

Mais de um milhão de rohingyas vivem em Rakhine, onde sofrem uma crescente discriminação desde o surto de violência sectária de 2012 que deixou pelo menos 160 mortos e cerca de 120 mil confinados em 67 campos de deslocados.

A situação piorou após o ataque de 9 de outubro de 2016 perpetrado por supostos insurgentes rohingyas contra postos policiais, que causou a morte a nove agentes e a represália das forças de segurança.

Pelo menos 74 mil rohingyas fugiram para Bangladesh, enquanto foram denunciadas incontáveis violações dos direitos humanos e a ONU chegou a falar em "possíveis crimes contra a humanidade".

As autoridades birmanesas não reconhecem a cidadania dos rohingyas, pois os consideram imigrantes bengalis e impõem múltiplas restrições, inclusive a privação de deslocamentos.

A comissão presidida por Annan e criada pelo governo há um ano apresentou nesta semana às autoridades um relatório final com 88 recomendações para, entre outros objetivos, resolver a crise dos rohingya e favorecer o diálogo entre comunidades.

O estudo descarta o uso da força como solução para a violência sectária em Rakhine.

Após 49 anos de ditadura militar, Mianmar instaurou em 30 de março de 2016 seu primeiro governo democrático, o liderado pela Nobel da paz Aung San Suu Kyi, embora os generais ainda mantenham o controle sobre as questões de segurança, como os ministérios de Interior, Defesa e Fronteiras, e o poder de veto no Parlamento.