Vídeos mostram como funcionava a máquina de propina em Mato Grosso

Vídeos mostram como funcionava a máquina de propina em Mato Grosso

GERAL -   


O Jornal Nacional mostrou na quinta-feira (24), em primeira mão, trechos inéditos da delação de Silval Barbosa. O ex-governador de Mato Grosso entregou vídeos para comprovar o pagamento de propina a políticos, em maços de dinheiro vivo, dentro da sede do governo. Nesta sexta-feira (25), você vai conhecer detalhes da máquina de corrupção no estado, segundo o delator.

Uma câmera escondida em um gabinete e o registro de políticos em série recebendo maços e maços de dinheiro. Assim, o ex-governador de Mato Grosso Silval Barbosa e seu chefe de gabinete Silvio Cezar planejaram e conseguiram flagrar o esquema de corrupção que revelariam à Procuradoria-Geral da República.

Nos vídeos, Silvio Cezar faz a entrega de dinheiro. Neles, é possível ver com clareza as cenas de corrupção e todos os seus contornos: as reações, a ironia e até reclamação de quem acha que deveria receber mais.

Os delatores dizem que os pagamentos ilegais eram mesadas para que aliados votassem com o governo em projetos na assembleia legislativa, além de propina em contratos de obras públicas no estado. Quando receberam o dinheiro, todos os políticos que aparecem nas imagens eram deputados estaduais em Mato Grosso.

O atual prefeito de Cuiabá Emanuel Pinheiro, do PMDB, chega ao gabinete já querendo saber do dinheiro: “E aí? Como é que ficou? ”, pergunta. “Quatrocentos e cinquenta agora. Mas tem que trazer uma mochila”, responde Silvio

Emanuel orienta como prefere receber: “O de 100 pra mim”, diz. “Só tem pacote de 100. Você quer levar um de 100?”, pergunta Silvio. “Não. Me dá os cinquenta”, responde Emanuel. “Não dá. Tem vinte aqui já”, fala Silvio. O diálogo continua:

“E não tem mais nenhum?”, pergunta Emanuel Pinheiro . “Não. Só de vinte”, afirma Silvio Cezar. “Eu levo vinte e você dá trinta pra ele. Feito?”, diz Emanuel.

E aí o prefeito enche os bolsos do paletó de dinheiro. “Ê, Silvio! ”, exclama Emanuel Pinheiro, do PMDB . Deixa até cair. Ele se agacha para juntar os maços de dinheiro e confere. “Aqui tem quanto? Vinte? Contado?”, pergunta Emanuel.

O deputado federal Ezequiel Fonseca, do Partido Progressista, chega na sala e espera esvaziarem uma caixa de papelão. Duas pessoas aparecem no vídeo tirando CDs e outros materiais. Uma delas é o deputado estadual José Domingos Fraga, do PSD . Caixa limpa. Hora de organizar, um a um, os maços de dinheiro entregues ao deputado.

O então deputado estadual Hermínio Barreto, do PR, leva uma bolsa e ali guarda os maços.

A atual prefeita de Juara, Luciane Bezerra , do PSB , conversou com o chefe de gabinete de Silval. Reclamou que era pouco dinheiro. “Esse mês vai ser só... Não, ele não falou comigo pra nada não. Ele só falou pra mim que você ia resolver aqui. Ele me falou que ia me dar um...”, diz Luciane.

Ficou batendo com os dedos na mesa como um sinal de impaciência. Cobrou. Queria receber até o que não estava destinado a ela e ri. “Não dá pra pôr na minha bolsa? Aqui, ó”, diz Luciane Bezerra. “Faz o seguinte: tira o que é do Riva, que ele não precisa do dinheiro, e me dá”, completa. “Ele nunca recebeu”, afirma Silvio. “Então tira do Romoaldo, que também não precisa”, diz Luciane.

Em seguida, Silvio mostra o dinheiro para ela. “Levanta a cabeça. Olha como é que eu tô aqui, ó. Mas você eu não quero enganar não”, diz Silvio. “Gente do céu. Me dá uma tremedeira”, fala a atual prefeita de Juara.

Luciane pede um cheque para completar a parte que falta. “Ô, Silvio! Me dá um cheque aí do governador e pronto. Eu troco. Troco num... Num negócio. Tem fundo? Dá um seu. (...) Sua assinatura mais 100 mil, eu compro um carro”, diz.

Em seguida recebe dois maços de dinheiro. Guarda tudo na bolsa. “Cinquenta. Mais cem”, diz Silvio. Como era muito dinheiro, ela arruma tudo para caber e conseguir fechar a bolsa.

O ex-deputado estadual Alexandre César, do Partido dos Trabalhadores, recebe as notas e coloca em uma mochila. São muitos maços. Ele organiza um a um e leva um tempo para concluir a arrumação.

Na delação, Silval Barbosa diz que o “mensalinho” incluía até mesmo pagamento de uma parcela extra a título de décimo terceiro.

O que dizem os citados
O prefeito de Cuiabá Emanuel Pinheiro disse que vai provar que não fez nada ilícito.

Oscar Bezerra declarou que a mulher dele Luciane Bezerra, prefeita de Juara, recebeu dinheiro para pagar dívidas de campanha.

Hermínio Barreto não quis se manifestar.

O JN não conseguiu contato com Alexandre César, Ezequiel Fonseca e José Domingos Fraga.