'Vou para a escola sem saber o que será de mim', diz professora agredida

'Vou para a escola sem saber o que será de mim', diz professora agredida

GERAL -   

  • Getty Images/iStockphoto

    A sala de aula virou um espaço de agressões

    A sala de aula virou um espaço de agressões

No último dia 21, uma postagem no Facebook da professora Marcia Friggi , 51, reacendeu o debate de violência nas escolas no país. Ela mostrava seu rosto ensanguentado e com hematomas depois de ter levado dois socos de um aluno de 15 anos dentro da sala de aula em Indaial (SC).

O caso catarinense chama a atenção, mas está longe de ser isolado. De acordo com a mais recente pesquisa da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), publicada em 2013, o Brasil é o país com maior número de agressões a professores no mundo: 12,5% dos profissionais disseram já ter sofrido com o problema.

Os educadores têm medo. Uma pesquisa feita em 2013 pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), com 1.400 professores de escolas públicas, aponta que 57% dos docentes não se sentem seguros em suas unidades.

A violência tem alterado a vida destes profissionais, que não querem parar de dar aula, mas também não sabem como lidar com a situação. Entre os relatos colhidos pelo UOL , os educadores contam como tiveram de mudar a rotina depois de terem passado por episódios de agressão na sala de aula.

Reprodução/Facebook/Marcia Friggi
A professora Márcia Friggi denunciou agressão de aluno no Facebook e foi criticada

Carro riscado com "palavrões e desenhos de genitálias"

A. L.*, 25, também teve de tirar uma licença depois de passar por um problema de violência na escola em que dá aulas, em Campinas (SP). "Os alunos do 8º e do 9º ano, que são mais velhos, começaram a mexer comigo no começo do ano", conta a professora. "Sempre que eu passava, eles falavam alguma coisa, assediavam."

O estopim veio no final do primeiro semestre, quando a docente foi assediada por alunos enquanto dava aula. "Tive que parar no meio, sair da sala e dar uma bronca neles. Depois, desci direto para a direção e relatei o que havia acontecido", diz a professora. "Mas, naquele momento, eu achava que ia melhorar, então falei que não era necessário tomar uma medida imediata."

Poucos dias depois, ela teve uma surpresa quando saía da unidade: seu carro estava todo riscado. "Tinha diversos palavrões e desenhos horrorosos de genitálias", relata.

Bruno Santos/UOL
Escola na zona sul de SP tem grades na entrada por conta da violência
Ela voltou ao colégio e tentou cobrar uma posição da direção. "Mas eles só me ofereceram um pano. Depois, falaram que iam tentar descobrir quem havia feito isso", afirma a docente. A. L. tirou uma licença de 15 dias, emendadas com as férias de julho.

De acordo com a profissional, o caso "ficou por isso mesmo". Ela conta que ainda sofre assédio por parte dos alunos e que, no começo de agosto, outros seis carros de professores foram riscados no estacionamento da unidade, que não tem portão.

Tenho medo. Vou para a escola sem saber o que será de mim, do meu carro

A. L.*, professora que teve o carro riscado e foi assediada dentro da sala de aula

O caso desta escola em Campinas não é único. Segundo a pesquisa da Apeoesp, 40% dos professores afirmam ser comum sofrer ameaças ou ter algum bem pessoal danificado por alunos em suas escolas.

"Infelizmente, é meu ganha-pão", afirma a professora. "Eu não posso nem quero ficar sem dar aula. Mas tenho medo. Vou para a escola sem saber o que será de mim, do meu carro."

"Ele pegou a primeira cadeira que viu e jogou em mim"

J.*, 49, foi remanejado para completar sua carga horária em um colégio que não o seu habitual na zona norte de São Paulo.

Ao chegar à unidade, no começo de 2015, ouviu dos colegas que a escola apresentava problemas com tráfico de drogas e que ele não deveria "esquentar".

"Eu senti que eles tinham medo da comunidade", conta o professor ao  UOL

Desenvolvi síndrome do pânico e depressão, estou fazendo tratamento psiquiátrico

J.*, professor agredido na rede pública

Não demorou para que ele experimentasse isso em suas aulas. "Na turma noturna, havia um jovem de 17 anos que fazia parte do tráfico. Eu não podia fechar a porta da sala porque ele tinha de ficar de frente para ela para, caso alguém passasse, pudesse oferecer a droga." 

A relação tensa durou alguns meses. "Mas chegou um momento que eu não aguentei mais e fechei a porta. Ele ficou possesso e começamos a bater boca", lembra o educador. "Eu sentei e comecei a corrigir as apostilas. Ele veio com um caderno universitário e golpeou a mesa. Quando eu pedi respeito, ele pegou a primeira cadeira que viu e jogou em mim."

J. ficou com lesões no cotovelo e no antebraço. "Percebi que ele estava fora de si", conta.

O professor foi à direção e decidiu levar o caso à delegacia, onde foi registrado o boletim de ocorrência como acidente de trabalho com lesão corporal.

iStock
Mais de dois anos depois, a agressão ainda influencia na rotina do educador. "Desenvolvi síndrome do pânico e depressão, estou fazendo tratamento psiquiátrico", relata. "Para mim, é difícil até pegar ônibus e metrô em horário de saída de aula. Daquela escola, eu não passo nem perto."

J. tirou uma longa licença e hoje trabalha como professor readaptado na secretaria de outra escola. Ele espera retornar à sala de aula no começo de 2019.

Violência na escola é comum no Brasil

"Existe um problema nas escolas em geral", afirma a socióloga Miriam Abramovay, coordenadora de Juventude e Políticas Públicas da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso). "Geralmente, elas não passam mensagens de direitos humanos, de convivência saudável."

Em entrevista ao UOL , Abramovay argumenta que só chamar os alunos de "bárbaros" não resolve o problema. "Temos de pensar no que acontece no cotidiano destas escolas. Existe um clima nas unidades que faça com que estas situações aconteçam."

Rebeca Otero, coordenadora de Educação da Unesco no Brasil, concorda. "A violência entra nas escolas porque os jovens sofrem violência em outros ambientes, seja doméstica, com uma família desestruturada, seja a exposição às drogas", argumenta a educadora.

Como resolver?

As especialistas indicam que um dos caminhos possíveis para melhorar a convivência é aprimorar a comunicação com os alunos. "Os jovens não se sentem pertencentes do espaço, é como se não fosse para eles. A escola tem de fazer com que eles entendam que eles são os agentes da mudança, para isso tem de saber o que eles pensam", afirma Abramovay.

"O jovem tem de ser ouvido. Um passo é começar a trabalhar as habilidades socioemocionais dos alunos, para que eles melhorem a autoestima, o autocontrole e saibam lidar com as frustrações", afirma Otero. "A escola tem de ser acolhedora."

A coordenadora da Unesco explica, no entanto, que "participar não significa poder tudo". "Esse jovem já vem sem limites, geralmente com problemas sociais e domésticos. A escola tem de estar unida --direção, professores, comunidade e alunos-- para melhorar."

Para enfrentar o problema, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo criou, em 2010, o projeto Mediação de Conflitos, que busca desenvolver ações que previnam ou resolvam conflitos internos. De acordo com o órgão, o resultado tem sido positivo: nos últimos três anos, o uso de álcool e drogas caiu 77% e as agressões físicas, 47% nas escolas participantes.

A secretaria estadual diz que o professor mediador escolar e comunitário "é um educador capacitado para identificar eventuais fatores de vulnerabilidade presentes no cotidiano escolar e, por meio de técnicas de resolução de conflitos, desenvolver projetos pedagógicos que promovam uma melhor integração entre todos os segmentos escolares". 

"Resolver este quadro social não é um trabalho do dia para a noite", afirma Otero. "É um problema complexo que deve ser trabalhado de forma complexa. Temos que pensar na sociedade."

Os professores, no entanto, não se mostram esperançosos. "Pelo menos na região em que trabalho, as escolas públicas não têm estrutura nenhuma. Não há respaldo do governo, os diretores não estão nem aí para você [como profissional] e os alunos podem tudo", desabafa a educadora de Campinas. "Está muito difícil dar aula em escolas públicas."

"Você passa cinco anos na faculdade para tentar mudar o país, mas não adianta", afirma o docente de São Paulo. "O respeito ao professor não existe mais."

O Ministério da Educação afirmou ao UOL que os Estados e municípios têm autonomia constitucional em suas gestões. Na noite da última terça-feira (23), dia seguinte à publicação de Friggi, o ministro Mendonça Filho, em sua página do Facebook, disse que o caso era "inaceitável". "O respeito ao professor é uma das primeiras lições que devemos ensinar aos nossos jovens e crianças. Tanto em casa quanto nas escolas", publicou o ministro.  "Precisamos trabalhar juntos --toda a sociedade-- pelo resgate desse que é um dos nossos valores mais básicos. Só assim evitaremos novos episódios como esse."

* Os nomes dos personagens foram suprimidos para eles não serem identificados.