Presidente eleito de Angola diz ser reformista e se compara a Deng Xiaoping

Presidente eleito de Angola diz ser reformista e se compara a Deng Xiaoping

GERAL -   

Esther Rebollo.

Madri, 29 ago (EFE).- O presidente eleito de Angola, João Lourenço, que substituirá José Eduardo dos Santos após 38 anos no poder, afirmou em uma entrevista exclusiva à Agência Efe que abrirá o país ao investimento externo, privatizará empresas e consolidará a rota para o livre mercado.

"Reformista? Vamos trabalhar para isso, mas claro que Gorbachev não e Deng Xiaoping sim", respondeu Lourenço quando foi questionado se procura ser o Mikhail Gorbachev de Angola, durante a visita que realiza a Madri após vencer em 23 de agosto as eleições em seu país.

O até agora ministro de Defesa espera finalizar a transição ao capitalismo nesta nação africana que obteve sua independência em 1975 como um estado marxista leninista e que viveu uma guerra civil de 27 anos, até 2002.

"Assumo o desafio com muita confiança, apesar das dificuldades", disse, ao reconhecer que "a situação financeira é não é tão boa por causa da queda dos preços do petróleo".

A força de Angola é a paz de 2002, que permitiu realizar três eleições pacíficas desde essa data e obter um crescimento sem precedentes, ainda que com as marcas da pobreza e da corrupção.

O objetivo de Lourenço é "o desenvolvimento econômico e social", e para isso convida os investidores estrangeiros a participar das oportunidades. "Vamos trabalhar para criar um bom ambiente para os negócios e vamos modificar nossa política de vistos porque até agora foi um impedimento", adiantou.

As questão fundamentais serão a diversificação e as privatizações.

"Nosso país pode sobreviver, tem recursos além do petróleo", disse, ao enumerar os quatro setores que precisam de investimentos: agroindústria, mineração, pesca e turismo.

"Angola tem uma grande extensão, muitas terras cultiváveis, muita água, um clima muito propício porque não tem inverno, e pode ser uma grande potência agrícola, tipo o Brasil", destacou.

"Possuímos uma grande quantidade de minerais, como diamantes, ouro, ferro; e em outros tempos fomos um grande produtor de peixe e mariscos", revelou. Esse grande litoral - continuou - permitirá também o desenvolvimento do setor turístico.

Para tudo isso, é preciso construir infraestruturas, e é aí onde Lourenço faz uma chamada aos investidores.

"A privatização é uma possibilidade que está aberta. Quais empresas? Não posso dizer, isso vamos estudar caso por caso, e será feito pelo novo Executivo", respondeu ao ser perguntado por essa possibilidade.

"Vamos estudar a possível privatização daquelas empresas estatais que são pesos mortos para o país, que não são rentáveis, que estão custando muito dinheiro aos cofres do Estado", disse.

Neste contexto, reconheceu que a pobreza segue sendo um problema grave. "Durante os últimos 15 anos, fomos reduzindo o índice de pobreza, ainda que reconhecemos que siga existindo".

Lourenço prometeu tomar medidas a favor da inclusão econômica e social. "O Estado não pode se ocupar de todos os cidadãos. Por isso apostamos no setor privado, é a solução ao problema do desemprego", argumentou.

"Somos conscientes de que ele existe, no MPLA (Movimento para a Liberdade de Angola - partido de Lourenço) reconhecemos, sabemos que é das maiores doenças que da nossa sociedade", declarou, em referência à corrupção.

"O que buscamos, sabemos que vai ser difícil, é chegar a níveis não vamos dizer aceitáveis, mas que existem em nível internacional. E estamos decididos a lutar nessa batalha", indicou.

Lourenço recebe um governo construído durante 38 anos por Santos, que sai do poder, mas não da presidência do MPLA.

"A independência tem se mantido; a soberania, também; foram evitadas duas invasões, uma pelo norte e outra pelo sul", disse o presidente eleito ao destacar as conquistas de seu antecessor.

Lourenço reconheceu que é inevitável que Santos se envolva no governo.

"Está claro que o MPLA vai influenciar nas políticas do governo porque é o partido mais votado, tem 61% dos votos. Não é justo pensar que o MPLA não vai conduzir as políticas do novo governo, então quem seria? O partido menos votado? Sem dúvida o novo governo vai seguir o ideal do MPLA", ressaltou.

No entanto, tem claro que sua missão é diferente da de seu antecessor. "Consolidar as bases da economia de mercado".

"A passagem do marxismo leninismo para uma democracia multipartidária ou economia de mercado começou em 1991", lembrou Lourenço, ao reafirmar que "é um processo que não é feito da noite para o dia".