O que Kim Jong-un quer com seus testes nucleares e de mísseis balísticos?

O que Kim Jong-un quer com seus testes nucleares e de mísseis balísticos?

GERAL -   

  • KCNA via Reuters

A cada teste militar realizado pela Coreia do Norte, a comunidade internacional condena o regime de Pyongyang e critica o seu ditador, Kim Jong-un. Em seu lançamento mais recente, os norte-coreanos lançaram um míssil que sobrevoou as ilhas do território japonês, e Tóquio chegou a emitir um alerta para que a população do norte do país buscasse abrigo. A Coreia do Sul ainda está em alerta por um provável novo teste nuclear.

Mas o que Kim Jong-un pretende com seus testes balísticos e nucleares? "Garantir a sobrevivência do regime e conseguir bons termos de negociação", explica Raquel Gontijo, especialista do curso de Temas Contemporâneos de Segurança Internacional do Gedes (Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional).

Provar que não estão vulneráveis

Raquel explica que, quando os EUA elevam o nível das tensões e a Coreia do Norte não rebate, o regime passa a impressão de fragilidade. Isso poderia mostrar que Kim Jong-un não está tão disposto a arcar com os custos de uma guerra. "Isso mostraria que o governo norte-coreano está mais vulnerável a uma invasão, a uma intervenção", explica a especialista.

Além disso, Pyongyang quer impedir e dissuadir qualquer intervenção externa que tenha como objetivo uma mudança de regime, como ocorreu no Iraque e na Líbia. Ter um arsenal nuclear seria uma garantia maior nesse sentido. E mesmo que a Coreia do Norte hoje não tenha meios para alcançar o território americano, ela pode bombardear Seul, aliado importante dos EUA na região.

"Vale lembrar ainda que Kim Jong-un tem consciência de que morrerá se o seu regime cair. A racionalidade por trás das ações norte-coreanas é inclusive pessoal. Ele sabe que não sobreviveria a uma mudança de governo, então seu objetivo é também resguardar a sua vida", diz Raquel Gontijo.

Vantagem na mesa de negociação

As negociações com a Coreia do Norte lideradas pelas "seis partes" --Coreia do Norte, Coreia do Sul, China, EUA, Japão e Rússia-- conseguiram, em 2005, convencer o pai de Kim Jong-un, Kim Jong-il, a aceitar desmantelar o seu programa nuclear em troca de assistência econômica e garantias de segurança. Mas o acordo foi rompido em 2009, quando Pyongyang diz ter lançado um satélite, enquanto a comunidade internacional afirmou que o lançamento foi parte do programa de mísseis balísticos intercontinentais. Em 2012, Coreia do Norte e EUA até tentaram um novo acordo em que Pyongyang se comprometia a não fazer mais testes em troca de assistência humanitária. O acordo durou 16 dias.

O programa nuclear e bélico norte-coreano já estaria atualmente em um ponto em que seria impossível de ter desmantelado. Uma possibilidade levantada pela comunidade internacional atualmente é a de que os norte-coreanos podem estar avançando rapidamente em seus programas para retornar fortalecidos à mesa de negociações quando o diálogo se tornar inevitável. 

"Quanto mais avançado estiver o programa da Coreia do Norte, mais a comunidade internacional deverá dar em troca para que o regime suspenda as atividades dos projetos", diz Raquel Gontijo.

E o que a Coreia do Norte poderia exigir nas negociações? Não seria somente o envio de alimentos, mas também cobrar garantias de segurança, a retirada dos sistemas de escudo antimísseis do território sul-coreano, o levantamento das sanções, concessões econômicas mais substanciais, a recuperação de suas atividades financeiras e de transações comerciais, por exemplo.

Outro ponto que pode ser levantado pela Coreia do Norte nas negociações seria uma cooperação maior dos vizinhos em termos de fugitivos, assegurando a extradição de seus cidadãos para que eles sejam punidos dentro do solo norte-coreano.

Jogo para a audiência doméstica

Como um dos países mais fechados do mundo, a Coreia do Norte bloqueia a internet e mantém controle absoluto das informações veiculadas pela imprensa --estatal. Apesar de ter uma população doutrinada durante a vida toda, Kim ainda precisa levar em conta não só o que a massa pensa sobre ele, mas principalmente a elite do país, que tem possibilidade de entrar e sair do país e tem muitos contatos, principalmente com chineses e diplomáticos.

"Kim joga para uma audiência doméstica, se preocupa com o que as pessoas pensam sobre ele dentro do país. Se existe uma repercussão internacional de que o Trump está criticando a Coreia do Norte, Kim responde que é um absurdo e que vai atacar Guam. Assim, mostra que é forte não só para os EUA, mas para os seus cidadãos e até mesmo para essa elite, formada por pessoas com mais acesso a informação e que apoiam esse regime.", opina a especialista.

Entenda o programa de mísseis norte-coreano

E a China?

Na maioria de suas declarações, os EUA fazem um apelo para que a China controle o seu vizinho. Questionada sobre qual papel a China poderia exercer na contenção de Pyongyang, Raquel cita a adesão mais forte às sanções econômicas. "Hoje a China faz vista grossa para muita coisa envolvendo a Coreia do Norte, mas a eficácia das sanções dependeria do grau de comprometimento da China com o cumprimento destas medidas", diz.

A especialista explica que hoje não é interessante para o governo chinês que Kim Jong-un caia. Um motivo seria uma provável reunificação com o governo sul-coreano, forte aliado dos EUA na região --Washington teria um governo aliado na fronteira com os chineses no caso de uma reunificação.

"O que a china poderia fazer? Negociar, dar garantias de segurança para a Coreia do Norte. Dizer: 'Vou garantir a sua sobrevivência porque é do meu interesse, mas é preciso parar com os testes'", diz Raquel. "E muito provavelmente estas negociações seriam secretas, tudo nos bastidores.", ressalta.