Ameaça de cancelamento da delação da J&F provoca tensão e expectativa

Ameaça de cancelamento da delação da J&F provoca tensão e expectativa

GERAL -   


O clima é de expectativa e muita tensão em Brasília por causa da possibilidade de cancelamento do acordo de delação da J&F. A ameaça é resultado de gravações entregues pelos dirigentes da empresa à Procuradoria-Geral da República.

O áudio entregue por Joesley Batista tem quatro horas de gravação e já está no Supremo Tribunal Federal. O ministro Edson Fachin, relator do caso JBS, vai analisar o conteúdo e quer tomar uma decisão o mais rápido possível. Na petição apresentada, a Procuradoria-Geral da República informou que abriu um processo de investigação sobre o acordo de colaboração da JBS e pediu que o ministro decida se o áudio deve ou não permanecer em sigilo, já que alguns trechos ferem a privacidade de terceiros que não cometeram crimes. Não há prazo para isso, mas essas revelações já repercutiram no Congresso.

DEPOIMENTO
Joesley Batista tinha um depoimento marcado para esta terça-feira sobre outros processos mas não compareceu, pediu que fosse adiado por causa desse episódio. Agora, os colaboradores e o ex-procurador Marcelo Miller devem ser ouvidos ainda esta semana na Procuradoria-Geral da República. O Ministério Público avalia que as suspeitas têm que ser apuradas o mais rápido possível.

O procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, diz que o conteúdo do áudio é gravíssimo, por isso decidiu abrir a investigação que pode levar ao cancelamento dos benefícios concedidos aos delatores da JBS.

“Determinei hoje a abertura de investigação para apurar indícios de omissão de informações sobre práticas de crime no processo de negociação para assinatura do acordo de colaboração premiada no caso JBS. A análise de tal gravação revelou diálogo entre dois colaboradores com referências indevidas à Procuradoria-Geral da República e ao Supremo Tribunal Federal”, disse Janot.

A gravação foi descoberta pelos procuradores quando eles analisavam o material entregue pela própria JBS. É que quando terminava o prazo para apresentação de documentos e provas que confirmassem os depoimentos que os executivos da JBS deram em sua delação premiada, a defesa pediu mais prazo e Fachin acabou concedendo mais 60 dias. Porém, antes de saber dessa decisão de Fachin, a empresa decidiu entregar tudo o que tinha.

Os procuradores então analisaram todo esse material e uma procuradora encontrou uma gravação que indica que os colaboradores esconderam um fato que o procurador Geral da República considerou gravíssimo. Em acordos de delação, omissões propositais de crimes podem levar ao cancelamento de benefícios. A gravação é de uma conversa entre Joesley e Ricard Saud. Eles se referem ao ex-procurador Marcelo Miller.

“Tais áudios também contém indícios, segundo esses dois colaboradores, de conduta em tese criminosa atribuída ao ex-procurador Marcelo Muller. Ao longo de três anos Marcelo Muller foi o auxiliar do gabinete do Procurador-Geral convocado por suas qualidades técnicas. Se descumpriu a lei no exercício de suas funções deverá pagar por isso. Não só ele, e repito, qualquer pessoa que tenha descumprido a lei deverá pagar sobre isso. Não há ninguém, ninguém que republicanamente esteja a salvo da aplicação da lei. O Ministério Público tem uma mãe, que é a Constituição e a lei. Sob esse manto atuamos independentemente de quem tenha agido. O MPF atuou na mais absoluta boa fé para a celebração desse acordo. Se ficar provada qualquer ilicitude, o acordo de colaboração premiada poderá ser rescindido”.