Moro não vê riscos para a continuidade do combate à corrupção

Moro não vê riscos para a continuidade do combate à corrupção

GERAL -   


O juiz que se tornou símbolo da operação Lava Jato não vê riscos para a continuidade do combate à corrupção no Brasil. Em uma entrevista exclusiva ao repórter Gerson Camarotti, na GloboNews, Sérgio Moro destacou o apoio da opinião pública, da imprensa e da sociedade civil organizada ao enfrentamento dos corruptos.

Camarotti : Há um movimento, também, no Congresso para rever pelo menos parte do que é a legislação atual sobre delação premiada. Isso cresce muito com as críticas à delação da JBS . Qual o risco disso para futuras investigações?

Moro : Algumas propostas legislativas que eventualmente aparecem por aí, que tenham a finalidade não especificamente de aprimorar o instituto, mas eliminar o instituto. Uma proposta que me parece um tanto quanto absurda, por exemplo, é aquela no sentido de proibir que alguém que se encontra preso possa realizar uma colaboração premiada. Principalmente porque, para começo de conversa, isso viola o direito de defesa da pessoa que está presa. Porque a colaboração premiada é um meio de a Justiça encontrar os cumplices de um criminoso, mas também, de uma certa maneira, é um meio de defesa de uma pessoa que quer colaborar para receber benefício da Justiça.

Camarotti : Como o senhor avalia essa questão de prisão em segunda instância? Você está tendo uma revisão no Supremo Tribunal Federal . Agora os ministros estão querendo, inclusive, mudar o voto da prisão em segunda instância, que foi um divisor de águas, inclusive, na própria Lava Jato. Como o senhor avalia essa questão e essa possibilidade? Essa crítica que tem por parte de ministros do STF em relação à prisão em segunda instância?

Moro : Essa movimentação para eventualmente rever esse precedente, eu espero que não aconteça. Espero que o Supremo respeite o precedente que ele estabeleceu em 2016, no julgamento até por duas vezes, e acredito que os ministros vão ser sensíveis a essa percepção de que pese na argumentação a respeito da presunção de inocência, a execução a partir do segundo grau não significa uma violação dela. Tanto assim que nós temos países como a França e os Estados Unidos que a execução da pena se dá a partir do julgamento em primeira instância. E veja que são países com tradição de respeito aos direitos humanos e liberal bem maior do que a nossa.

Camarotti : O ministro Barroso, do STF, fala que está em curso uma operação abafa. Como o senhor avalia isso? Concorda?

Moro : Aqueles que adotam essa postura de tentar frear os processos contra a corrupção adotam uma postura vergonhosa. Não há nenhuma vergonha em combater a corrupção, mas há vergonha naqueles que tentam, vamos dizer assim, frear os trabalhos da Justiça no que se refere ao enfrentamento da corrupção. Não obstante, nada de muito efetivo foi conseguido por essas pessoas. Eu vejo que esses trabalhos contra a corrupção ainda contam, que pese sombras de retrocesso, ainda contam com o apoio esmagador, majoritário, da opinião pública, da própria imprensa e da sociedade civil organizada.