O batalhão de candidatos fardados

O batalhão de candidatos fardados

GERAL -   

Aproveitando o fenômeno Bolsonaro, número recorde de militares, PMs e bombeiros apresentam candidaturas em 2018. Grupo inclui generais conservadores, um parente de ditador, tenentes-coronéis mulheres e PM de esquerda.Embalados pelo sentimento antipolítico e pegando carona na candidatura do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), um verdadeiro exército de militares da ativa e da reserva, PMs e bombeiros apresentou em 2018 candidatos ao Congresso, Assembleias e governos estaduais.

Além dos uniformes, muitos têm em comum a falta de experiência política, um discurso duro e vago contra a violência e a corrupção. Vários pendem para a direita, mas há inclusive militares que se lançaram por siglas de esquerda. Outros ajudam a dar um verniz de lei e ordem a candidatos do establishment político na condição de vices.

Quase mil militares membros da ativa ou reserva (aposentados) das forças de segurança disputam cargos neste ano, segundo dados Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em comparação com as eleições anteriores, o aumento é de 11%. O contingente cresceu proporcionalmente mais do que os candidatos que se declaram empresários (alta de 0,9%). Entre todos os candidatos, os militares representam cerca de 4% dos registros do TSE. São o quinto maior grupo de candidatos depois daqueles que se declaram políticos com mandato, empresários, advogados e "outros".

Os militares podem ainda continuar a representar um grupo pequeno no contingente total de candidatos, mas trataram de ficar mais visíveis nestas eleições, destacando sua condição de membros e ex-membros das Forças Armadas ou da PM e Bombeiros. Em 2018, mais de 500 candidatos incluíram suas patentes em seus nomes na urna. São sub-tenentes, cabos, capitães e vários generais. O número é quase 40% maior ao registrado nas eleições de 2014.

A maior parte concorre ao cargo de deputado estadual e deputado federal. Houve ainda um aumento no número de militares que concorrem aos cargos máximos do Executivo: governador, vice-governador, presidente e vice-presidente. Em 2014, 13 nomes ligados aos meios militares concorreram a esses cargos. Desta vez, são pelo menos 25 – entre eles os presidenciáveis Jair Bolsonaro e Cabo Daciolo (Patriota).

Entre os membros das Forças de Segurança, alguns grupos cresceram mais do que outros. Houve um aumento de quase 70% no número de membros reformados das Forças Armadas entre as candidaturas. Neste ano, 214 tentam cargos. Entre os militares da ativa, o número subiu de 58 para 82 (alta de 41%). Os PMs, tanto da ativa quanto reformados continuam a dominar as candidaturas militares. Eram 576 em 2014. Neste ano, são quase 600.

Dos sete generais que concorrem neste ano, o mais destacado é Hamilton Mourão (PSL), que concorre como vice na chapa de Bolsonaro. Quando ainda estava na ativa, Mourão se notabilizou por fazer críticas aos presidentes Dilma Rousseff e Michel Temer. Acabou demitido pelo último. No Distrito Federal, um general e um ex-coronel da PM disputam o governo estadual e um brigadeiros concorre ao Senado. No Ceará, outro general está na disputa pelo governo.

Em São Paulo, três mulheres militares concorrem ao cargo de vice-governador. Todas são da Polícia Militar. Uma delas, a tenente-coronel Eliane Scachetti, é candidata a vice na chapa do atual governador do Estado, Márcio França (PSB). Outra, a também tenente-coronel Carla Niglia, está na chapa de Paulo Skaf (MDB). Nenhuma das duas tinha experiência política prévia.

Há ainda um candidato do Exército que concorre ao governo de São Paulo, o major Adriano Costa e Silva (DC), que tem parentesco distante com Artur da Costa e Silva, general que foi o segundo presidente da ditadura (1964-1985). Sua vice é uma cabo da PM. No Rio de Janeiro, o nanico PRTB do folclórico Levy Fidélix, lançou uma chapa pura com dois PMs ao governo e vice-governo do Estado.

Alguns partidos concentram mais candidatos que propagandeiam suas patentes em seus nomes na urna. A sigla de Bolsonaro, o nanico PSL, concentra o maior número: 135. Já o Patriota do Cabo Daciolo tem 37 candidatos.

Vários candidatos do grupo defendem ideias de direita. No Distrito Federal, o general conservador Chagas, que concorre ao governo, afirma que vai lutar pela implantação do projeto Escola sem Partido no Estado. O deputado federal Major Olímpio (PSL), um dos articuladores da candidatura de Bolsonaro, que tenta desta vez uma vaga no Senado é autor de um projeto que institui a pena de morte no Brasil. Em 2015, ele usou a tribuna da Câmara para parabenizar o governo indonésio pela execução de um brasileiro por tráfico de drogas. Já o parente do general Costa e Silva, que concorre ao governo de SP, já afirmou que "não houve golpe" em 1964. Segundo ele, os militares promoveram um "contragolpe" contra comunistas.

Mas há exceções. No Sergipe, o PM Márcio Souza concorre ao governo pelo PSOL de Guilherme Boulos. Em seu programa, o PM promove um discurso abertamente de esquerda e com ideias progressistas. Em uma entrevista, ele afirmou que acaba sofrendo desconfiança de todos os lados. "A vanguarda da esquerda me vê como um milico infiltrado. E, na caserna, muitos interpretam como se eu fosse contra a existência da polícia", disse.

No Espirito Santo, sete PMs que se envolveram na greve da corporação em 2017 se candidataram a deputado - quatro deles se filiaram ao PSL de Bolsonaro.

De acordo com o cientista politico David Fleischer, da Universidade Nacional de Brasília (UnB), a política brasileira pós-redemocratização sempre contou com um bom número de candidatos militares. "Nos Estados, eles sempre defenderam pautas ligadas às corporações. Muitos desses deputados PMs e bombeiros estão lá apenas para representar as categorias, não muito diferentes de outros grupos, como professores", disse. "A novidade esse ano é que pela primeira vez um militar (Bolsonaro) de direita está liderando uma corrida presidencial. Isso estimulou uma série de outras candidaturas que tentam pegar carona."

Ainda segundo Fleischer, muito candidatos ligados às forças de segurança pública também se viram estimulados pela preocupação da população com a violência. "Ainda há a descrença com a classe política. Vários candidatos se apresentam como pessoas de fora do sistema, como novatos com a ficha limpa".

Apesar das expectativas de vários partidos em relação às candidaturas militares, o histórico dos candidatos das forças de segurança nas eleições passadas não é muito promissor. Apesar de alguns poucos campeões de votos como Bolsonaro, eles dificilmente poderiam ser definidos como uma bancada relevante no Congresso. Na relação de eleitos em 2014, a Câmara Federal só listou oito deputados que indicaram uma antiga ocupação militar - quase todos originários da PM. Em todas as Assembleias Estaduais, se somados aos policiais civis, eles não passam de 40.

Na Câmara estão Bolsonaro e Cabo Daciolo. Outro é o Capitão Augusto (PR-SP), que comparece à Câmara com seu uniforme da PM paulista e que tenta emplacar no TSE a criação do Partido Militar Brasileiro (PMB), uma sigla de direita que, segundo ele próprio, poderá ter o número 64 (em alusão ao golpe) ou 38 (calibre de revólver).

Na disputa, desse ano Bolsonaro lidera a corrida presidencial com 27% dos votos, segundo o último Ibope. Mas o bom desempenho não se repete com outros candidatos com metas ambiciosas. No DF, o general Paulo Chagas (PRP) aparece em sexto lugar, com 3% nas pesquisas. O deputado federal Alberto Fraga (DEM), um ex-coronel da PM, está em terceiro lugar, com 11%.

Já o brigadeiro Brigadeiro Átila Maia (PRTB), que tenta uma vaga ao Senado pelo mesmo Estado, tem apenas 2% das intenções de voto. No Ceará, o general da reserva Guilherme Cals Theophilo de Oliveira (PSDB), aparece com 7%, bem atrás do atual governador, Camilo Santana (PT), que tem 69% das intenções de voto. Em São Paulo, o major Costa e Silva tem apenas 4%. O deputado Major Olímpio, que concorre ao Senado, ainda tem chances de se eleger: está empatado em segundo lugar com 15% dos votos.

Após o fim da ditadura, apenas dois ex-militares chegaram ao cargo de governador pelo voto direto: o vice-almirante da Marinha Annibal Barcellos, que se elegeu em 1990 no Amapá; e o brigadeiro Ottomar Pinto, que venceu as eleições de 2006 em Roraima. Antes da volta da democracia, eles já haviam sido governadores biônicos desses dois antigos territórios federais.

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