Bolsonaro na mira por escândalo sobre bombardeio de 'fake news'

Bolsonaro na mira por escândalo sobre bombardeio de 'fake news'

GERAL -   

São Paulo, 19 Out 2018 (AFP) - O candidato do PT à Presidência da República, Fernando Haddad, acusou nesta quinta-feira (18) o seu adversário do PSL, o capitão da reserva Jair Bolsonaro, favorito nas pesquisas a vencer o segundo turno de 28 de outubro, de estar por trás de um "complô com dinheiro sujo" mediante um bombardeio maciço de notícias falsas pelo WhatsApp nesta campanha eleitoral.

A Procuradoria-Geral Eleitoral abriu uma investigação após as denúncias de Haddad.

Assim, o Brasil entrou no radar das tramas políticas montadas com a ajuda das redes sociais, como ocorreu com a eleição presidencial nos Estados Unidos, com o referendo de saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit), ou com o plebiscito sobre o acordo de paz na Colômbia.

Haddad fez essas declarações após as revelações do jornal Folha de S.Paulo sobre empresas que compraram serviços para disparar mensagens em massa a favor de Bolsonaro antes do primeiro turno, em 7 de outubro.

"Nós calculamos em centenas de milhares as mensagens encaminhadas para os eleitores, todas falsas, para orientar o voto na direção do meu adversário", declarou Haddad em entrevista coletiva em São Paulo.

Uma campanha similar estaria sendo preparada para a semana que vem, antes do segundo turno.

"Em qualquer lugar do mundo isso seria um escândalo de proporções avassaladoras, poderia (acontecer) até a impugnação da candidatura", enfatizou o presidenciável.

No Brasil estão proibidas as contribuições empresariais para as campanhas e o que foi denunciado pela Folha poderia supor um crime.

Por conta disto, o PT pediu que investiguem a campanha de Bolsonaro por suposto "abuso de poder econômico e uso indevido de meios de comunicação digitais".

Além disso, Haddad antecipou que apresentará o caso à Organização dos Estados Americanos (OEA), sugerindo a possibilidade de anulação da candidatura de do capitão do Exército na reserva.

- "Profundo desespero" -O Partido Social Liberal (PSL), de Bolsonaro, negou as acusações.

São "risíveis os argumentos de Haddad, é um sinal claro de profundo desespero", declarou Gustavo Bebbiano, presidente do PSL.

Bolsonaro reagiu no Twitter: "O PT não está sendo prejudicado por 'fake news', mas pela VERDADE".

E acusou o PT de sempre ter feito "política comprando consciência", fazendo alusão aos casos de corrupção que colocaram na prisão vários de seus dirigentes, incluindo seu líder histórico, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

As redes sociais têm tido um papel-chave na ascensão política de Bolsonaro, que conta com pouco mais de 14 milhões de seguidores em Facebook, Twitter e Instagram. Seu adversário soma 2,8 milhões.

Com 120 milhões de usuários, o WhatsApp é um aplicativo de mensagens muito popular no país. Dos usuários da Internet no Brasil, 90% usam esses dispositivo de comunicação, segundo Sérgio Amadeu, da consultoria Comitê Gestor de Internet no Brasil.

"Esta foi uma campanha de desinformação muito parecida, mas mais sofisticada que dos Estados Unidos (na eleição de Donald Trump em 2016) porque (...) em um momento de crise apelou ao ódio", expressou à AFP.

O WhatsApp, por sua vez, anunciou que abrirá uma investigação.

- 'Dinheiro sujo' -Haddad assegurou que já havia detectado "uma campanha de calúnia" no WhatsApp apoiada com "dinheiro sujo", mas que agora tem informações de que se trata de algo de grandes proporções.

"O número de empresários envolvidos neste complô é muito grande. Temos informações de que 156 empresários estão envolvidos", afirmou.

Segundo a investigação da Folha, várias empresas financiaram o disparo em massa de mensagens pelo WhatsApp através da contratação de pacotes de serviços que chegaram a custar até 12 milhões de reais cada um.

Sem o apoio de um partido forte, Bolsonaro venceu o primeiro turno com 46% dos votos, contra 29% de Haddad, e é franco favorito para o segundo turno, com 59% das intenções de voto contra 41% para Haddad, segundo pesquisas dos institutos Ibope e Datafolha.

Além disso, o índice de rejeição ao candidato petista supera o de Bolsonaro, reconhecido por suas declarações misóginas, homofóbicas e racistas, e sua justificativa da ditadura militar (1964-1985).

Nesta quinta, Bolsonaro descartou a sua participação em debates na TV com Haddad.

O candidato de extrema direita segue se recuperando da facada que recebeu no início de setembro em um comício e não há motivo para "se submeter a uma situação de alto estresse", segundo o presidente de seu partido.

"É um jogo de poder, a esquerda fará tudo para me tirar de combate. Não estou acusando vocês da esquerda de planejar uma tentativa de assassinato para cima de mim, mas não esqueçam que o senhor Adélio (Bispo de Oliveira) era filiado ao PSOL até 2014", disse Bolsonaro em uma live feita no Facebook.

A investigação policial concluiu que o agressor agiu de forma premeditada e por motivação política, mas que fez tudo sozinho.