Explosão de Cid Gomes expõe racha na esquerda e ressentimentos com PT

Explosão de Cid Gomes expõe racha na esquerda e ressentimentos com PT

GERAL -   

  • Roberto Casimiro/Estadão Conteúdo

    PT ainda não conseguiu construir frente democrática em torno da campanha de Haddad

    PT ainda não conseguiu construir frente democrática em torno da campanha de Haddad

Após Cid Gomes (PDT), irmão do presidenciável derrotado Ciro Gomes (PDT), criticar abertamente o PT e cobrar desculpas do partido por erros do passado, a explosão repercutiu entre representantes da esquerda brasileira. Para alguns, a fala enfática em meio às eleições não poderia ter sido em pior momento para a candidatura de Fernando Haddad (PT) , que busca alianças para reverter a vantagem de Jair Bolsonaro (PSL) no segundo turno da eleição presidencial.

No entanto, políticos e especialista ouvidos pela reportagem concordam em um ponto: o discurso foi uma espécie de desabafo diante do racha existente na esquerda e de ressentimentos com os petistas. A surpresa, disseram, foi pelo fato de ter vindo tão explicitamente a público.

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Nesta segunda (15), em evento do PT em Fortaleza, Cid Gomes disse que o PT "vai perder feio a eleição" e que isso é merecido pelos erros cometidos pelo partido à frente da Presidência da República – o PT governou o Brasil entre 2003 e 2016 com Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Cid ainda pediu que o PT faça uma autocrítica e responsabilizou, em parte, o partido pelo sucesso de Bolsonaro.

Mais cedo na segunda, a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann, afirmara que o PT não deve desculpas a ninguém por ter chegado ao segundo turno nem pode ser acusado pela posição que alcançou no pleito.

Antes mesmo do primeiro turno, pedetistas se mostravam descontentes com o tratamento que vinham recebendo pelo PT. No primeiro semestre, apesar de conversas prévias de união, o PT ajudou a isolar Ciro na composição de coligações pelo país. Na corrida eleitoral, o presidenciável tentou se viabilizar como alternativa a quem rejeita a polarização PT/Bolsonaro, mas acabou em terceiro lugar.

Oficialmente, o PDT declarou um "apoio crítico" a Haddad. Na prática, a ação não deverá surtir efeito e fica muito aquém do que os petistas esperavam. À reportagem ainda a horas da votação de 7 de outubro, pedetistas já diziam encarar com desconfiança qualquer nova aliança com o PT no segundo turno por não enxergarem reciprocidade, independentemente do resultado.

Nesta terça (16), à Folha, o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, respaldou a fala de Cid e disse que as críticas "representam majoritariamente o sentimento da sigla".

Irmão de Ciro diz que PT vai perder "feio" a eleição

Fala veio no "pior momento" possível

Um dos líderes da chamada "frente democrática" composta por PT, PSB, PCdoB, PSOL, Pros e PCB, que busca alianças para Fernando Haddad, o presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, afirmou que a crítica ao PT tem um "fundo de verdade", mas "não foi o melhor momento" para ser dita. Para ele, o tema da autocrítica deve ficar "fora de foco" diante do que "a realidade impõe", referindo-se a Bolsonaro.

Foi o pior momento, né? O momento agora é outro. É uma coisa que, embora tenha um fundo de verdade, não me parece que neste momento seja oportuno trazer à tona
Carlos Siqueira, presidente do PSB

Questionado se a falta de autocrítica prejudica possíveis alianças com outros partidos, Siqueira disse que a postura do PT se dá pelo "perfil" da legenda e pela onda de conservadorismo no país. Ele defendeu que o PT acertou ao não apoiar integralmente Ciro no primeiro turno por contar com candidato próprio. Para o presidente do PSB, o fato "já passou", embora reconheça que, naturalmente, há consequências.

"Se o clima já não estava bom, piorou bastante, né? Evidencia que não vai ter engajamento deles na campanha, obviamente", falou. "[Na volta de Ciro ao Brasil, que viajou ao exterior,] seria bom que repensasse isso, mas não tenho muito mais esperança não."

DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO
Siqueira (de camisa azul), Gleisi (de branco) e outros líderes de partidos reunidos em Brasília

Resposta "nua e crua" ao tratamento do PT

Para o presidente do PPS, Roberto Freire, as declarações de Cid são uma "resposta nua e crua à realidade" do tratamento dispensado pelo PT aos aliados ao longo dos últimos anos. Segundo ele, o partido trabalha impondo a "subordinação" de aliados e classifica como "direita" e "traidor" quem não concorda com esse posicionamento. "Não tenha dúvidas de que isso que ocorreu com o Ciro, e o Cid é resposta a posturas hegemônicas do PT", disse. "Ou é subalterno, ou é excluído."

A esquerda sempre foi dividida. Nunca foi unidade, não. Na maioria das vezes, tinha unidade só no processo eleitoral. Mas o PT criou problemas porque sempre jogou muito na base da subordinação. Nunca foi um relacionamento entre iguais
Roberto Freire, presidente do PPS

Na avaliação de Freire, o PDT foi limado da aliança petista no primeiro turno por não ter aceitado todas as condições propostas pelo PT. "Eles [os petistas] não fazem autocrítica de quando estavam no governo e agora também não a fazem de seu relacionamento com o Ciro", falou. "Foi por isso que nos afastamos há muito tempo. O Ciro ficou imaginando que ia ser atendido pelo PT. Não se subordinou e está aí. Veio uma bela resposta."

Outro problema político do PT, aponta Freire, foi a insistência na candidatura de Lula, preso desde abril em Curitiba após condenação em decorrência da Operação Lava Jato. Com a iniciativa, avaliou, os petistas afastaram potenciais aliados contra Bolsonaro, mas que defendem a prisão de Lula.

Questionado sobre a efetividade da "frente democrática", Freire riu ao saber do nome dado e disse que o grupo deveria ter mais "respeito" com a democracia.

"Eles acham que não cometeram nenhum crime. O Lula está na cadeia por quê?", questionou ironicamente.

Ricardo Stuckert
Boulos (d) e o Psol declararam apoio a Haddad no 2º turno

Para Boulos, não são "esquerda"

O presidenciável derrotado do Psol, Guilherme Boulos, disse que está em jogo a disputa entre a democracia e um "projeto de ditador". Portanto, na avaliação dele, não há espaço para ficar em cima do muro.

"Nós temos muitas críticas ao PT, eu mesmo tive a oportunidade de colocá-las na campanha. Agora, ter um arroubo antipetista num momento como este favorece o Jair Bolsonaro", considerou.

Indagado se enxerga a esquerda brasileira dividida, afirmou que "quem é esquerda de verdade no Brasil está envolvido na campanha para derrotar o Bolsonaro e eleger o Haddad".

Alguém que não esteja envolvido na campanha para derrotar o Bolsonaro não merece o nome de esquerda
Guilherme Boulos, candidato à Presidência pelo Psol

Para cientista político, ruptura ia estourar

O cientista político da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Sérgio Praça admite ter ficado surpreso com o fato de a fala de Cid Gomes ter sido tão dura e ter acontecido ainda no meio do segundo turno. Ele esperava que as rusgas fossem debatidas após o processo eleitoral, como de costume.

"Não esperava uma ruptura tão drástica agora. Mas o PT fez por merecer. Tratavam muito mal, com muita arrogância, o Ciro e o PDT. E o Ciro e o Cid já foram ministros de governos petistas. Torna o tratamento pior ainda", declarou. "Estava claro que essa ruptura mais evidente ia acontecer [...] O Bolsonaro ganhou o dia hoje, né? Tudo o que ele tem de fazer é ficar quieto, na dele. PT e PDT brigarem é incrível para ele."

Na avaliação de Sérgio Praça, o PT nunca precisou se unir ao restante da esquerda para ganhar eleições, e ele lembrou que o partido, inclusive, já se aliou à direita com sucesso. No entanto, afirma, deveria ter buscado alianças partidárias diversas e acenado à moderação, mesmo que de forma tímida, como o faz agora, desde o primeiro semestre. Praça acredita também que o partido nunca deveria ter desenvolvido a retórica de perseguição judicial.

"Isso tinha que ter sido feito muito antes. O PT está numa situação complicada, o que o partido pode fazer? Confessar os crimes? Chamar crimes de erros é ridículo. As pessoas percebem isso, não são bobas. Tem gente na cadeia por isso. Ninguém vai para a cadeia porque errou. Vai porque cometeu crimes. É uma estratégia que não tem sustentação", afirmou.

Ele ressalta não ver atualmente novos líderes dentro do PT com capacidade de unir a esquerda brasileira. Possíveis herdeiros de Lula, analisa, foram descartados pelo sistema político, como Dilma Rousseff, ou pelos escândalos de corrupção, como Antônio Palocci. Para Haddad suceder a Lula, disse, primeiro precisa tomar controle do partido – hoje sob o comando de Gleisi Hoffmann, a quem considera fraca.

Embora enxergue a situação eleitoral do PT à Presidência e a renovação interna com pessimismo, Praça diz que o partido não foi dizimado. "Elegeu a maior bancada [na Câmara], é bastante significativo. Elegeu pelo menos três governadores populares. Não vai perder relevância tão cedo, mas vejo dificuldades para sobreviver sob o Lula."