Estado ameaça cobrar aluguel por imóvel adquirido em 1997 pelos proprietários do Cine-Theatro Íris

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O Cine-Theatro Íris, o mais antigo em funcionamento na cidade, na Rua da Carioca 49, no Centro do Rio, está em risco. Depois de sobreviver à onda de fechamentos — que obrigaram os cinemas a migrar para shoppings — e manter uma programação pornô para não virar igreja — em 1998 os proprietários chegaram a ser assediados pelo bispo Edir Macedo —, os responsáveis pelo estabelecimento descobriram que o cinema foi desapropriado pelo estado há mais de 60 anos, como noticiou, ontem, o colunista Jan Theophilo, do “Informe JB”. Segundo o empresário Raul Pimenta Neto, 61, um dos 12 herdeiros da sala construída em 1909 por seu bisavô, o empresário João Cruz Júnior, não havia nenhuma informação no Registro Geral de Imóveis (RGI) de que a posse do mesmo fosse do estado, quando a família decidiu comprar o imóvel, em 1997. “No ano passado, quando fui tirar uma certidão, fui pego de surpresa com esta posse, justo quando negociava com um empresário alemão para diversificar a programação da casa”, lamenta. A surpresa, por sinal, foi relativa. Quando a família resolveu adquirir o imóvel — por R$ 400 mil, que hoje corresponderiam a cerca de R$ 12 milhões —, construído em terreno da Ordem Terceira da Providência, já se ouvia falar  que o estado pensava em desapropriar não apenas o cinema, como toda a calçada do lado ímpar da Rua da Carioca, para a abrir ali uma avenida. “Como nada foi feito, o processo acabou engavetado na 6ª Vara de Fazenda Pública. No ano passado, ao ser surpreendido com a informação da posse do estado, avisei que o erro foi do RGI, por não constar um novo registro de posse e do próprio estado que, pelo que eu soube, resolveu movimentar um processo que estava parado na segunda gestão do governo Sérgio Cabral”, acrescenta Neto, que entrou com uma ação cautelar “para evitar qualquer tipo de atitude do governo”.   O próprio Raul Neto não chegou a mencionar, porque nunca cogitou pagar, que o estado, no processo 0175975-04.2018.8.19.0001, começou a exigir um aluguel mensal de R$ 49.300 pelo uso do imóvel. A ação impetrada pelos herdeiros, porém, já surtiu efeito: o juiz Sérgio Emílio Louzada, da 2ª Vara de Fazenda Pública, concedeu liminar para suspender a taxa de ocupação que passou a ser exigida pelo estado, “até que as partes apresentem suas manifestações”.  A decadência do Cine Íris transparece para quem sobe a bela escadaria com estrutura de ferro fundido e base de mármore, toda remendada, bem como os ladrilhos do piso que formam mosaicos, com enormes falhas ao lado da histórica bilheteria de madeira trabalhada. Motivos não faltam, entretanto, para o tombamento do imóvel pelo estado, pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan) e ainda pelo município, que o inseriu em seu Corredor Cultural. Com fachada rosa salmão relativamente bem conservada, a sala mantém o brilho art-nouveau, a delicada azulejaria importada da Bélgica, da fábrica Gilliot & Cie, bem como os espelhos bisotados de cristal provenientes da França. Não há como não reconhecer, contudo, a heroica sobrevivência, não apenas do cinema em si, como do imóvel, em meio a uma rua que equilibra o número de lojas fechadas com as abertas, como que parada no tempo. Sobrevivente  Inaugurada em 30 de outubro de 1909 com o nome Cinematographo Soberano — homenagem do fundador a um de seus cavalos —, a sala abriu com 200 lugares, e a fotografia do foyer demonstra a elegância dos frequentadores da época. Em 1914, passou a se chamar Theatro Victoria, quando se travestiu em teatro de variedades. A reforma de 1921 introduziu um terceiro andar no prédio e o estilo art nouveau, quando sua capacidade foi ampliada para 1.200 lugares e o cinema ganhou o nome Íris, inspirado no painel com a deusa filha de Taumas e Electra, pela mitologia grega, que ornamentava a entrada da casa. Em seu período áureo, quando Ruy Barbosa tinha ali uma cadeira cativa, apresentou espetáculos de teatro de revista, que não custaram a sair de moda. A partir dos anos 70, passou a priorizar os filmes de artes marciais, tipo Kung Fu. Em 1970, foi alvo de outra grande reforma.  Com o tempo, o público foi caindo de número e, a partir de 1980, os proprietários começaram a investir no repertório de pornochanchadas nacionais. Cinco anos depois, a fórmula não se sustentou, e os responsáveis resolveram alternar a programação entre a filmografia pornográfica, explícita, com os filmes de ação. A partir do ano seguinte, cederam de vez ao pornô e inseriram os espetáculos de striptease, que têm garantido uma frequência de aproximadamente 200 pessoas por dia, das 10h às 21h, conforme atesta o gerente Patrick Cruz, 37 anos, que também é da família. “Muitos vêm diariamente, mas sempre aparecem caras novas”, observa ele. Pela inteira de R$ 20 e meia de R$ 10 — majoritária, para o público acima de 60 anos — é possível usufruir de toda a programação oferecida na casa, cuja lotação passou a 280 pessoas nos três andares do cinema. O volume de frequentadores é mais um trunfo da casa, que nos últimos anos também passou a enfrentar a concorrência da Internet, onde se pode ver tudo o que o Cine-Theatro Íris oferece e até um pouco mais, sem sair de casa. Para quem estava negociando um novo perfil para o imóvel com um gringo endinheirado, Raul Neto vê fortes motivos para ser ressarcido pelo estado por tanto prejuízo. “Era só o que faltava, cobrar aluguel por um imóvel próprio”, ironiza.

Fonte: http://www.jb.com.br/rio/noticias/2018/08/18/estado-ameaca-cobrar-aluguel-por-imovel-adquirido-em-1997-pelos-proprietarios-do-cine-theatro-iris/
 

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