Historiador recorda sagas socialistas de luta pela democracia, como a Primavera de Praga

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Para o historiador Daniel Aarão Reis, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), a Primavera de Praga foi um movimento vibrante e inovador e uma oportunidade perdida para renovar o socialismo aplicado na União Soviética, dando-lhe feição mais livre e autônoma. Autor de livros sobre a esquerda no Brasil e experiências socialistas no mundo, ele fez parte da luta armada contra a ditadura, participando da organização do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick. Exilado, graduou-se pela Universidade de Paris. Reis questiona regimes comunistas como o soviético, mas  acredita que o socialismo e a democracia já caminharam e podem continuar caminhando juntos. A Primavera de Praga foi a tentativa de dar um caráter mais humano e livre para o comunismo. O clima na época é descrito como de otimismo e alegria na Tchecoslováquia. Algo que poderia dar certo e trazia esperança. No entanto, o movimento foi duramente reprimido. Existiram outras primaveras na história recente: sandinismo, Cuba, bolivarianismo, Árabe. Muitos desses movimentos não evoluíram ou atravessam crises. Depois da primavera vem sempre o outono?  Na história, depois das primaveras, infelizmente, podem aparecer outonos, como é comum na sucessão de estações, mas podem também aparecer invernos. Acho que foi o caso na Tchecoslováquia. A primavera lá, em 1968, começou no inverno (janeiro) e o inverno teve início em agosto (verão). Quando os processos históricos estão pouco vertebrados, ou inconsistentes, tendem a sofrer derrotas. Como dizia o velho revolucionário: só não sofre derrotas quem não luta.   Quais foram os principais catalizadores do movimento?  Na Tchecoslováquia em 1968, penso que, como sempre acontece, vários fatores contribuíram: a agitação geral do ano em outros países da Europa e do mundo; o amadurecimento de uma perspectiva crítica no interior da própria sociedade - não esqueçamos da rica tradição democrática do país; e também, é claro, a progressão no interior do Partido Comunista de uma proposta de mudança. E o que era um socialismo com rosto humano? Essa não é uma ideia muito vaga, que pode signi? car centenas de coisas?  O socialismo de “rosto humano” foi uma expressão de época que tornou-se muito popular. Era uma crítica ao socialismo “realmente existente” (a expressão ainda não surgira), considerado, implicitamente, como “desumano” por ser arbitrário e exigir comportamentos submissos que contrariariam o que os humanos teriam de mais profundo, a saber, as aspirações à liberdade e à autonomia. Uma visão otimista do ser humano, sem dúvida, pois sabemos que as ditaduras e as tiranias também são, desgraçadamente, humanas e os ditadores também têm “rosto humano”.  Que mudanças implementou?  A primavera de Praga teve pouco tempo. Enquanto durou, realizou reformas importantes: aboliu a censura, permitiu a livre expressão do pensamento e a livre circulação de pessoas, inclusive para outros países, o que era proibido antes, e a importação livre de publicações e livros. Outra importante medida foi a aprovação de uma lei destinada a rever os expurgos realizados em 1952, que levaram à  morte de muitos valorosos revolucionários tchecoslovacos. No plano econômico,  também houve reformas, no sentido de uma certa descentralização, mas estas não foram longe por falta de tempo.  Hoje em dia os excessos e violações do regime comunista soviético são bastante debatidas e relatadas. Na época, porém, o mundo vivia outra lógica, e a União Soviética ainda representava a possibilidade de um mundo mais justo, em contraposição ao capitalismo selvagem americano. A Primavera confundiu a esquerda na época?  Na época já havia muito debate a respeito das arbitrariedades cometidas pelo regime soviético, pelos desmandos da ditadura lá existente. É difícil, ao menos para mim, imaginar um mundo mais justo baseado na repressão e na falta de liberdade de organização política e sindical.  Só mesmo uma concepção autoritária de socialismo pode imaginar algo parecido, mas esta concepção ainda era, na época, hegemônica entre as esquerdas. Infelizmente, até os dias de hoje, muitos socialistas ainda conservam propostas e tradições autoritárias. O esmagamento da Primavera de Praga suscitou apoios diversos entre as esquerdas. Na América Latina, Fidel Castro fez um discurso apoiando. Os comunistas chineses, embora críticos ao soviéticos, também apoiaram, considerando que estava em risco o socialismo. Mas houve também muita oposição, entre os quais merecem lugar de destaque os comunistas italianos. Como foi sua repercussão no Brasil? Houve uma divisão?  Aqui no Brasil, a União Metropolitana dos Estudantes, a UME, do Rio de Janeiro, formulou uma nota de protesto. Mas a maioria preferiu calar-se ou apoiar, velada ou abertamente, a invasão soviética, por considerar que o socialismo estava em “perigo”.  Não penso que isto seja verdade, mas era a percepção entre muitos que se vinculavam às esquerdas.  Você defende que a Primavera de Praga foi uma oportunidade perdida para renovar o socialismo e torná-lo mais democrático. Mas ainda existe um legado do movimento nos dias de hoje, ou lições que ele nos deixou? Ainda acredita ser possível construir esse modelo de socialismo mais livre e igualitário ao mesmo tempo?  Há toda uma saga socialista de lutas pela democracia, iniciada ainda no século 19, com diversas lutas pelo sufrágio universal. Em 1871, tivemos o exemplo da Comuna de Paris, experiência democrática radical ainda hoje inspiradora. Também na Rússia em 1917 e na Alemanha, em 1918, houve experiências bastante interessantes de lutas democráticas radicais e altamente participacionistas (os sovietes russos e os conselhos operários alemães). Poderia estender-me por muitas linhas se fosse lembrar de todas as experiências democráticas e socialistas ao longo do século 20: a revolução dos conselhos húngaros, em 1956; a própria experiência da Primavera de Praga, em 1968; um conjunto de experiências que tiveram lugar nos inícios da revolução cultural na China, entre 1965 e 1966;  sem contar os processos empreendidos por socialistas nos EUA, na Europa e na América Latina. Toda esta saga evidencia que não há incompatibilidade de princípio ou essencial entre socialismo e democracia. É fato que o socialismo russo ou o comunismo russo, como passou a ser conhecido, forjou um paradigma autoritário e isto, em larga medida, corresponde à experiência revolucionária dos russos, mas não estabelece nenhuma espécie de “maldição” que acorrente o socialismo a regime ditatoriais. 

Fonte: http://www.jb.com.br/1968-mundo/noticias/2018/08/19/historiador-recorda-sagas-socialistas-de-luta-pela-democracia-como-a-primavera-de-praga/
 

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