Há 50 anos, tropas soviéticas invadiam Tchecoslováquia, colocando fim à Primavera de Praga

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Estação do desabrochar das flores, a palavra primavera é frequentemente utilizada para expressar tempos de esperança. Em 1968, o mundo viveu um período de profundas mudanças. Entre os muitos terremotos sociais que sacudiram a época, estava a Primavera de Praga, movimento que prometia um “socialismo de rosto mais humano” na Tchecoslováquia. Depois da aurora, no entanto, vem sempre o crepúsculo. Após sete meses de experiência liberalizante, nos quais o novo líder do Partido Comunista local, Alexander Dubcek, eliminou a censura, libertou presos políticos e encorajou a democratização do país, o outono se abateu sobre a nação na forma de tanques. Há 50 anos, em 21 de agosto de 1968, tropas da União Soviética e do Pacto de Varsóvia invadiram Praga, destruindo aquela experiência inovadora e iniciando uma ocupação que só terminou em 1989, com a queda do Muro de Berlim.  Na época, a ação confundiu a esquerda, que relutou em escolher um lado para apoiar. Para muitos, a Primavera de Praga foi uma chance perdida, algo que poderia transformar a trajetória do socialismo e da União Soviética. Nunca iremos saber. Apesar de saborosa, a historiografia do “se” é uma impossibilidade. Livros, canções e liberdade A trajetória do movimento começou em 5 de janeiro de 1968, quando Dubcek foi eleito secretário-geral do Partido Comunista da Tchecoslováquia, substituindo um político linha-dura. Nascido em 27 de novembro de 1921, em Uhrovec, na Eslováquia, ao chegar ao poder ele era um veterano da resistência à ocupação nazista durante a Segunda Guerra. Ao mesmo tempo, tratava-se de um reformista, com bom trânsito entre artistas e intelectuais. As sementes da primavera, no entanto, foram plantadas antes. Os protestos de maio de 68 na França foram um marco naquele ano. Além disso, em 1967, houve manifestações estudantis e um congresso de escritores na Tchecoslováquia, que estimularam a discussão dentro dos quadros comunistas locais. O livro “Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera, reflete o otimismo que contaminou o período entre Dubcek assumir o cargo até a invasão de Praga. A canção Modlitba pro Martu (Oração para Marta), de Marta Kubisova, que fala em “deixar a paz permanecer no país” e “nuvens que lentamente se dissipam do céu”,  tornou-se hino da luta pacífica contra a ocupação. A artista, que mais tarde formou o grupo Golden Kids, é um dos símbolos do movimento. Assim como em outras revoluções, a música fazia parte da revolução. Com o fim de muitas proibições, discos do Ocidente chegavam no país, assim como livros. Nos breves meses em que durou, o novo regime permitiu a liberdade de expressão e movimento, inclusive para outros países. Invasão dividiu esquerda  Em 1948, à custa de um golpe de Estado, a Tchecoslováquia passou a ser controlada pelo regime soviético. Num ambiente sufocante de poucas liberdades individuais, economia planificada e falta de participação política, surgiram os ventos de mudança. O socialismo permaneceria. Mas com “rosto mais humano”, como diziam os líderes do movimento.  Se hoje muitos consideram a Primavera de Praga uma tentativa vibrante de modificar o socialismo, em 1968 a esquerda se dividiu. A época era de Guerra Fria, e ao capitalismo feroz e injusto dos Estados Unidos se contrapunha a União Soviética como exemplo para uma sociedade mais igualitária. As diretrizes de Moscou eram seguidas cegamente, e sufocar a revolução nascente seria necessário para manter o equilíbrio das forças. No Brasil, as ordens do Partido Comunista (PCB) eram para que os militantes se mantivessem ao lado dos tanques contra a romântica resistência tcheca. As táticas utilizadas pelos ativistas incluíam cuspir e se colocar em frente aos blindados, ou trocar e pintar placas de trânsito para que os veículos se perdessem. No restante do mundo vermelho, Fidel Castro, em Cuba, apoiou a invasão. Assim como os chineses. Exceção na época foram os comunistas italianos. Cuspe contra tanques  A saliva, ainda que revolucionária, não parou 500 mil soldados e 7 mil tanques. Lideradas pela URSS, tropas de Polônia, Bulgária, Alemanha Oriental e Hungria - o Pacto de Varsóvia - cruzaram a fronteira da Tchecoslováquia ainda na noite de 20 de agosto. Antes do amanhecer do dia 21, entraram na capital. Indefeso, em poucos dias o país se rendeu. Gradualmente, as reformas eram revertidas e a inflexibilidade soviética retornava. Dubcek deixou o cargo em 1969, e Moscou afastava o perigo daquela primavera se alastrar para outras nações do leste europeu. Pelo menos até uma nova onda de insatisfação derrubar de vez os escombros dos regimes comunistas.

Fonte: http://www.jb.com.br/1968-mundo/noticias/2018/08/19/ha-50-anos-tropas-sovieticas-invadiam-tchecoslovaquia-colocando-fim-a-primavera-de-praga/
 

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