Mulher e poder

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Recentemente tive a oportunidade de assistir a uma palestra da acadêmica britânica Mary Beard, no Festival Feminista #AgoraÉquesãoElas, em São Paulo. A bem-humorada Mary é professora da Universidade de Cambridge, mãe de dois filhos, feminista ativa nas redes sociais e autora de livros sobre a participação da mulher em esferas variadas na vida. O mais novo, “Mulheres e poder: um manifesto”, é best-seller na Inglaterra, nos Estados Unidos e, lançado no Brasil há alguns meses, está na lista de publicações preferidas entre as mulheres. Mary Beard é divertida, articulada e enfática nos exemplos que confrontam mulher e poder na história do mundo. Para começar, ela mostra que esse confronto não começou ontem. Vem de longe, muito longe. Mais precisamente, segundo ela, o primeiro exemplo que relaciona o poder de um homem ao ato de calar uma mulher aconteceu há três mil anos, quando Homero escreveu o poema épico “Odisseia”. Na história, Ulisses luta na Guerra de Troia enquanto Penélope, sua mulher, o espera em casa e cuida do filho, Telêmaco. Quando o menino torna-se rapaz, dá uma ordem para a mãe se calar e voltar para as tarefas dela, dentro de casa. O pronunciamento de Telêmaco é feito diante do público, que, a partir deste ato de “autoridade”, reconhece que o garoto já não é mais criança. Tudo isso é contado com muita propriedade por uma intelectual que leciona História Clássica e briga diariamente no Twitter com agressores machistas. Os exemplos não param por aí. Na cola de Penélope, Mary Beard cita a tragédia de Lucrécia, que não se calou. Mas cometeu suicídio logo após contar ao pai e ao marido que foi estuprada por um conhecido da família. Sexto Tarquínio, o estuprador, a obrigou a fazer sexo com ele sob a ameaça de que, caso se recusasse, ele a mataria juntamente com um escravo e deixaria os corpos nus lado a lado, para que toda a comunidade pensasse que Lucrécia traíra o marido com o escravo. Amedrontada, a esposa fiel foi violentada por Sexto, não se calou e suicidou-se.  Quando vem para o século 21, a acadêmica britânica mostra que a forma mudou, mas o conteúdo continua o mesmo. Ou seja: hoje, mulheres chegam ao poder e falam. Desde que se comportem ao máximo como homens. A feminista de 63 anos, cabelos grisalhos, longos e voz aguda – como a da maioria das mulheres – explica: Margareth Thatcher fez aulas de dicção para tornar a fala grave, o mais próximo possível da tonalidade masculina. Sempre com muito bom humor, Mary mostra fotos que comprovam como mulheres poderosas atuais se esforçam para terem, também, uma aparência que se aproxima dos homens: nas fotografias, elas aparecem sempre de terninhos e cabelos curtos. Mary Beard deixa claro que, obviamente, nada tem contra a forma de essas mulheres se vestirem, mas argumenta que são aparências esperadas pela sociedade para que uma mulher no poder seja levada a sério. E vai além: as mulheres não têm a chance de fracassar na vida pública: “Quando uma mulher erra, sofre um julgamento muito maior do que um homem”, constata. “O que fazer então?” Para ela, um dos primeiros passos é reconhecer o problema. Deve-se pensar em como a linguagem é usada quando uma mulher e quando um homem chegam ao poder. Em como as próprias mulheres enxergam as pessoas que estão no poder. “Nós nos acostumamos a achar normal que o ministro da Economia seja homem. Eu quero morar num mundo em que as pessoas achem muito esquisito o fato de considerarmos isso normal”, afirma. Para Mary Beard, se as estruturas de poder não aceitam facilmente as mulheres, o que precisa ser mudado é justamente essa estrutura, não as mulheres. Elementar, caras leitoras e caros leitores. * Jornalista

Fonte: http://www.jb.com.br/artigo/noticias/2018/08/22/mulher-e-poder/
 

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