Voto com a bênção da fé

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Nada mais promissor que a intolerância religiosa para levar uma campanha eleitoral a desaguar na violência, entre muitos outros tipos de perturbação da ordem que pode causar. Há que se adotarem cuidados nesse campo, principalmente quando surgem candidaturas que se lançam sob a bandeira da fé. Na atualidade, contam-se várias, principalmente em regiões mais distantes do interior, onde os riscos se acentuam. Contudo, em qualquer lugar a manifestação que contraria um ou alguns setores religiosos tende a ser interpretada como provocação.  Não apenas no Brasil, diga-se de passagem, esse problema tem ocorrido em vários países, nas mais diferentes épocas. Neles, muito pior, porque muitas vezes, num quadros de agravamento de relações entre os partidos de discursos diferentes, abrem-se as portas para o terrorismo. E o terror, como é sabido por todos, é mais violento e inconsequente quando se inspira no sentimento religioso extremado.      Em lição deixada pelo notável Joaquim Nabuco, na passagem do século, quando havia sinais de conflito, já se lia que as disputas eleitorais devem respeitar limites, de maneira a que não venham a se prestar a manifestações violentas. “Conserve-se o coração afastado do espírito partidário, a fim de que as amizades não variem com a política; e mesmo confundir política com religião já é intolerância”, escreveu.  As crenças têm produzido crescente influência nas eleições brasileiras, notadamente nos últimos vinte anos, como se demostra, com facilidade considerável, no crescimento das bancadas evangélicas. Nelas não faltam vozes e votos, na tentativa de direcionar o país para o que seria uma teocracia, ainda que muito longe de isso acontecer. Porém, preserve-se o direito dos que pregam a solução, desde que não avancem sobre a Constituição e sobre a liberdade de outros cultos, a fim de que as diferenças não se precipitem para um clima de violência.  Visto como fenômeno acoplado ao processo eleitoral, o que muitas vezes contribui para aprofundar divergências e discussões acaloradas dos que se sentem prejudicados frente à disputa injusta, é que os candidatos pentecostais, mais que em qualquer outro ramo do Cristianismo, têm se valido de fenômeno paralelo, portador de enorme influência: o voto dos crestes prima pela fidelidade à orientação que recebe, o que dispensa o eleitor de ter o trabalho de identificar e conhecer o candidato. É um voto inacessível a outras influências, ainda que de segmentos monoteístas.  Candidatos e partidos há que protestam, estando entre eles os que sugerem a interferência da Justiça Eleitoral, à qual caberia criar um mecanismo de controle do peso dos líderes religiosos, o que, de antemão, fica condenado ao fracasso, por vício de origem. Estão sob proteção constitucional os dois direitos, o votar livremente e o exercer a fé religiosa. Portanto, tudo deve acabar é nas mãos e na consciência do eleitor. Não há outro caminho. Porque, mais que delicada, uma interferência limitadora por parte do Judiciário seria interpretada como violência destinada a corrigir outra violência.  Seja como for, há que se cuidar da lição de Nabuco: confundir religião com política, notadamente em época de eleição, pode favorecer o surgimento de radicalizações perigosas, tais como as que são geradas no fundamentalismo. Não confundir, muito menos fundir política e religião,  mesmo se esta for considerada sob seus antigos padrões; porque hoje o que existe, de fato, é apenas o sentimento religioso, sem maior compromisso com o metafísico. A fé é o bálsamo para satisfações subjetivas.  Ideal, então, é que, sem força e sem imposições, cheguemos à conclusão de que faz mal à saúde da democracia aventurar num mesmo caldo dois valores tão diferentes e tão distantes. Realidade mais que antiga. Dizia o filósofo Julien Bastide que religião muito aberta vira partido; partido muito fechado vira religião. Nenhum dos dois tem futuro.

Fonte: http://www.jb.com.br/editorial/noticias/2018/08/22/voto-com-a-bencao-da-fe/
 

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