'Onde está você, João Gilberto?': adaptação da narrativa de escritor obcecado pelo pai da Bossa Nova

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João Gilberto. Marc Fischer. Georges Gachot. Um dos maiores nomes da música no Brasil em todos os tempos. Um jornalista e escritor alemão multipremiado. Um diretor de cinema francês apaixonado pelo nosso país e nossos artistas. Três homens distintos em suas áreas de atuação, unidos pela arte. Em 1958, João - então com 28 anos - lançaria o seu primeiro disco, fundando um movimento e revolucionando a música brasileira como a conhecíamos. “Chega de saudade” é um marco indiscutível, revelou não apenas o próprio João, como também a tal Bossa Nova, que faria o mundo se debruçar aos nossos músicos. Cinquenta anos mais tarde, este disco bateria na porta de Fischer e ele se tornaria obcecado por uma das faixas, no auge do término de um relacionamento - “Ho-ba-la-lá”. Essa obsessão renderia um livro homônimo (“Ho-ba-la-lá - À procura de João Gilberto”, editado pela Companhia das Letras),  no qual Fischer relata a busca que empreendeu por um contato com João, o mais breve que fosse.  Tal livro então parou nas mãos de Gachot, que, acima de tudo, se identificou quase espiritualmente com o alemão; também ele estava na mesma busca há mais de dez anos. E assim nasceu “Onde está você, João Gilberto?”, o novo filme do documentarista francês tão aficcionado por nossos músicos e que estreia amanhã. Após se hipnotizar por Maria Bethânia nos palcos e iniciar com ela uma série de homenagens não programadas por nossa música, vieram Nana Caymmi e Martinho da Vila (respectivamente “Música é perfume”, “Rio Sonata” e “O samba”) em sequência. Apesar do sentimento de frustração por ter demorado a conhecer “música tão conectada a fundamentos clássicos”, Gachot passou a consumir nossos artistas cheio de sede.  E dessas peneiras a busca de conhecer mais sobre nossa música surgiu também João Gilberto na sua procura, tornando a fixação de Georges ser ainda superior à de Fischer.  O filme é uma adaptação da narrativa empreendida pelo escritor no Brasil em busca de conhecer o pai da Bossa Nova, que influenciou praticamente toda a música brasileira. Gachot refaz os passos de Fischer, suas buscas se confundem, tornam-se uma mesma energia ativa e o filme carrega consigo muitos dos mistérios que acercam a vida de João Gilberto hoje, além da sua trajetória desde os anos 1950. Uma espécie de road movie onde as estradas são as interconexões entre esses três personagens, intrinsecamente moldados pela música que nasceu num banheiro da cidade de Diamantina (MG). Dos pés do diretor são traçados os caminhos da descoberta de um homem que não quer ser encontrado, mas que criou para si mesmo um folclore particular.  Há provavelmente um código emocional e não-verbal que impede a difusão de pistas para solucionar o “Mistério João” e tão poucas pessoas são detentoras do prazer de compartilhar de sua companhia que o mito só se fortalece ao longo dos anos, conforme seu afastamento foi se concretizando. Hoje, as notícias falam dos inúmeros problemas que o cantor e compositor de clássicos - como “Desafinado” e “Coisa mais linda” - enfrenta aos 87 anos, a respeito de suas finanças e estado de saúde.  ---------- Georges Gachot é sábio ao se afastar de cada um desses elementos mundanos, que nada acrescentam a relação que ele e Marc Fischer estabeleceram com João, a ligação profunda que o diretor construiu com o escritor e, principalmente, os laços que fizeram com que um brasileiro e um alemão pudessem quase se fundir neste roteiro, e isso fazer sentido. Da provável melancolia que sentia Marc Fischer ao ouvir o disco precursor e que o fez se inebriar com os versos “Quem ouvir o ho-ba-la-lá/ terá feliz o coração” até sucumbir, o longa abre um leque imaginário para justificar a própria Bossa Nova , como sendo ela o ritmo que leva a este estado melancólico tão inerente, em retroalimentação de matéria-prima e resultado constante. João Gilberto abriu um portal no tempo ao criar um ritmo há 60 anos e arrastar o mundo para dentro desse universo misterioso e possante, e ao escolher morar nesse mesmo lugar, garantiu pra si um espaço além do Olimpo musical, mas também uma vaga entre os enigmas mais doces da nossa história, um homem amado por muitos, com histórias de amizades tão fortes e duradouras que nem o desaparecimento foi capaz de apagar. Em entrevista ao JB, Georges Gachot fala sobre a produção: JORNAL DO BRASIL - Como você chega livro de Marc Fischer, “Ho ba la lá”, que te serviu de inspiração? Você já o conhecia, foi coincidência encontrar um alemão que tinha tentado conhecer João Gilberto como você, ou não? Georges Gachot - Durante a produção dos meus outros filmes, muitas vezes  tentei encontrar o João nem que fosse para falar sobre meu interesse, pois ele tem um jeito muito expressivo de tocar que me remete à música clássica. E eu nasci na música clássica, inclusive a perfeição das gravações e o jeito de tocar me lembrou Glenn Gould, um grande pianista clássico. Então muitas vezes falei com Miúcha que traria de presente pra ele meus filmes talvez. Nunca  recebi uma resposta clara e quase ia me esquecendo do sonho de fazer algo sobre ele. Quando lancei “O samba”, em 2014, soube que um alemão o estava procurando e escreveu um livro sobre isso. Comprei e, de repente, tive uma surpresa, pois o autor, Marc Fischer, tinha morrido. Comecei, então, a tentar entender o que havia acontecido, a localizar as pessoas citadas no livro, a começar pela Raquel, que trabalhou como pesquisadora de Fischer. Ao voltar para Europa, encontrei os pais do Marc para comprar os direitos do livro e não foi fácil convencê-los. Ao conversar com amigos de Marc, comecei a receber gravações e cartas para dar início ao trabalho. De posse do livro então, sua ideia sempre foi adaptar da forma que chegou na tela, nessa espécie de reprodução dos passos que o próprio Fischer tinha traçado? Minha primeira ideia era construir uma relação entre Marc e João. Eu me identificava com Marc e também pensava que, juntos, poderíamos esbarrar com João pelas ruas. Essa era a minha fantasia, enquanto escrevia o roteiro. Por isso, imagino quando ouço Miúcha ao telefone com João é “Ah, Marc, que pena... você não estava aqui para escrever um capítulo do seu livro a partir disso”. Essa relação é importante para o filme, eu entro na vida dela e o substituo em seus passos, até chegar o momento em que você não sabe mais quem está falando, se Marc ou Gachot. Acho isso muito bom pro filme. Marc era o protótipo de muitos que, como nós, tentamos encontrar o João sem sucesso, e não queria um filme onde apenas pessoas lessem suas passagens no livro como algo lúdico. Acontece que a má sorte de Marc me tocou tanto que acho que o público pode sentir o mesmo, se emocionar comigo. Eu e ele nos aproximamos tanto que acho que todos podem nos ver juntos, até que a minha imagem vai tomando o lugar de Marc aos poucos.  Quais eram suas preocupações com esse projeto?  A primeira era com os pais de Marc, que me cederam os direitos da obra - era minha a responsabilidade com as imagens do Marc e do João. A segunda era não fazer nada além do que o Marc conseguiu fazer. Eu nunca quis me mostrar mais inteligente que ele, mais esperto, e descobrir coisas que ele jamais conseguiria. Realmente, sinto uma relação como se fosse a de dois irmãos. Não era uma competição para ver quem era o melhor.  Como você se interessou tanto pela música brasileira, entregando pela quarta vez ensaios sobre personagens da cultura brasileira? Ao assistir o show de Bethânia, em 1996, em Montreux (Suíça), foi a primeira vez em que estive concentrado na música brasileira. Achei que estava ouvindo algo que era meio clássico, meio jazz... algo muito interessante. No fundo, fiquei triste porque nunca ninguém tinha me mostrado isso antes, pois na juventude me entediava às vezes de só ouvir música clássica. Ao descobrir a música brasileira através deste show, comprei muitas coisas e fui comparando Tom Jobim a mestres da música clássica. Quando contatei Bethânia e mostrei meus trabalhos anteriores à ela, ouvi que, se fosse com aquela estrutura, estava autorizado a fazer. Durante a realização do filme, encontrei Nana Caymmi, que já é outra coisa, mais suave... e foi assim, com cada filme tendo uma força diferente. E não necessariamente quem gostar de um vai gostar dos outros. Achei muito difícil filmar “O samba”,  era tudo tão alto... mas vejo este filme novo como uma ficção. Entreio na ficção e não fácil trabalhar como ator. O filme se insere com muita propriedade numa seara de obras sobre buscas infrutíferas muito caras ao cinema. Por isso, entendo sua colocação sobre a ficcionalização da obra. Havia pessoas na Europa que me perguntavam coisas como “Mas esse Marc Fischer existiu de fato?”, “Você não está inventando isso tudo?”, “O João Gilberto está vivo mesmo?”, então algumas entraram no filme como se ele fosse realmente uma ficção. É definitivamente uma obra mais aberta, onde as pessoas se comunicarão de diferentes formas. Eu me expus muito e, apesar de sermos muito diferentes, eu e Marc partimos dos mesmos sonhos e vontades e tínhamos o mesmo objetivo, então criou-se uma boa analogia entre nós.  *Membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro

Fonte: http://www.jb.com.br/cultura/noticias/2018/08/22/onde-esta-voce-joao-gilberto-adaptacao-da-narrativa-de-escritor-obcecado-pelo-pai-da-bossa-nova/
 

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