A transfiguração gerada em 1900

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Algo singular aconteceu na virada do século 19 para o 20, com tanta intensidade que só agora parecemos ter os elementos necessários para compreendê-lo. Creio que podemos sugerir que tenha ali emergido uma espécie de “pulso” ou vortex na Europa, que se alastrou além e afetou tudo e todos, com alguns platôs mais evidentes. Esse pulso teve como trampolins o Iluminismo e o Renascimento.  Vamos aos fatos. A eletricidade ganhava o cotidiano, mudando radicalmente o panorama da cidade junto ao rádio, telefone, automóvel, avião e edifícios. O cinema ampliava seu mercado, criando o star system.  Na ciência, a segunda metade do século 19 trouxe a Teoria da Evolução de Darwin-Wallace e as descobertas da natureza da luz e do campo eletromagnético, que, por sua vez, deram fomento, em 1900, ao quantum de Planck. Esse, com o desdobramento de Bohr e outros, deu origem à mecânica quântica – a estranha física do microcosmos, cujas partículas se comportam como onda, ou, segundo a interpretação de alguns, são ondas. Einstein, cocriador e detrator da mecânica quântica, forjou a Relatividade Restrita e, anos depois, a Geral, propondo a equivalência entre matéria e energia. O físico alemão dava créditos às novas geometrias não-euclidianas do espaço curvo, que emergiram um pouco antes. No campo da lógica, houve uma grande revolução com Cantor, Russel e outros, culminado em 1931 com o Teorema de Gödel, o qual evidenciou a matemática, outrora linguagem perfeita da Natureza, como incompleta e/ou inconsistente.  Na filosofia, a virada do século viu os últimos momentos de Nietzsche e conheceu a obra de Bergson, que conceituou o virtual – espécie de memória cósmica atemporal que abriga todos os tempos múltiplos. Simultaneamente, Freud sistematizava uma clínica do inconsciente, a psicanálise. O inconsciente transbordava também na arte. O impressionismo do século 19 convidava à linha livre de Klee, ao abstrato de Kandinsky e ao cubismo de Picasso. Estavam abertas as portas para as vanguardas do século 20. Os monstros se insinuavam para além da escuridão na literatura de Lovecraft, borrava as fronteiras ao longo de leitor, obra e escritor em Kafka. Os irmãos James criavam o conceito de fluxo de consciência, que culminaria na obra de Joyce. Fernando Pessoa(s) inventava a poética dos heteronômios. O poeta fez o mapa astral e ajudou a forjar o suicídio do mago Aleister Crowley, que, ao lado de Austin Osman Spare e Dion Fortune, moldariam o esoterismo do século 20, menos secreto, logo, mais acessível. Esse pulso da virada deixou o mundo nas mais intensas vibrações: o cinema colocou a fotografia em movimento; a mecânica quântica injetou devir e instabilidade na física; as artes, a lógica e a geometria encontravam novas forças de expressão.  Esse pulso não é garantia apenas de grandes descobertas. A instabilidade social, política e econômica geraram as guerras mundiais, que mudaram o panorama do planeta. A bomba atômica, prefigurada pela nova física, desestabilizou efetiva e afetivamente a “matéria”. Hoje, também observamos instabilidades em vários níveis. O que podemos aprender com o pulso da virada do século? Primeiro, que há uma grande ressonância ao longo dos saberes e eventos históricos. Percebemos, agora, que todas essas novidades do momento 1900 possuíam uma forte relação: a de desestabilizar, para além do Bem e do Mal, o que estava pré-estabelecido. O que parece sugerir que hoje passamos por um desdobramento do momento 1900 e, sendo assim, tudo ressoa. Habitar um cosmos interligado, solidário, imanente e em que todos estamos ressoando com todos é o primeiro passo para uma ecologia cósmica, que atrai novas abordagens, não mais sobre a Natureza, mas sendo a Natureza, emergindo nela. Uma ecologia cósmica é o que nos permitirá  resistir aos novos fascismos e construir coletivamente campos de resistência estrategicamente provisórios. * Psicólogo; pesquisador da UFRJ  e autor do livro “Ontologia onírica”

Fonte: http://www.jb.com.br/artigo/noticias/2018/08/23/a-transfiguracao-gerada-em-1900/
 

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