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06/06/2017 às 00:25
Maria Bethânia reitera canto romântico em show em BH
Bethânia
Maria Bethânia cantou em Belo Horizonte neste sábado

Sem temática ou efeméride, a apresentação de Maria Bethânia no último sábado  em Belo Horizonte, realizada no KM de Vantagens Hall, antigo BH Hall, dispensou, inclusive, título. Com um cenário descarnado e iluminação pontual, o espetáculo de caráter revisionista apostou suas fichas no canto da “Menina de Oyá” aliado à qualidade da banda que a acompanha não é de hoje, formada por Jorge Helder (contrabaixo), Túlio Mourão (piano), Paulo Dafilim (violas e violão), Pedro Franco (violão, bandolim e guitarra), Marcio Mallard (cello), Carlos César (bateria) e Marcelo Costa (percussão).

Não há exagero em dizer que Bethânia é música em cada fibra, até por que suas interpretações lancinantes nunca pecaram pelo comedimento, numa tênue linha em que é preciso dominar o instrumento para a entrega não se tornar gratuita. E o instrumento da cantora está além da voz, pois é capaz de transformar um simples gesto numa proporção de palavras prenhes de significado. Aí está, dentre tantos, o legado, é bem provável, de maior relevância desta artista ímpar na música popular brasileira, apelidada de “Abelha-Rainha” após interpretar canção escrita pelo poeta baiano Wally Salomão e musicada pelo irmão Caetano Veloso, “Mel”, lançada em 1979.

Aliás, são de Wally versos que ajudam a compreender a intérprete Bethânia: “tudo me impulsa para o coração do mundo”. Desde o surgimento, a artista inscreveu-se junto à tradição da nossa música romântica – na acepção da palavra – ou seja, aquela que coloca à frente o sentimento e a dramaticidade, o que a impediu, por exemplo, de aderir à Tropicália ou aos modernos cabelos curtos protagonizados por Nara Leão na Bossa Nova e Elis Regina na MPB. O peso da voz de Bethânia estende-se por todo o corpo.

A gênese de algumas canções levadas ao palco novamente na noite de sábado, como “Olhos nos Olhos”, “Fera Ferida”, “É o Amor”, “Ronda” e “Negue”, de diferentes autores e, aparentemente, estilos díspares, comprova a tese. Embora tenha estreado em 1966 com música envelopada por teor político – no caso, “Carcará”, de João do Vale, e que, aliás, nas palavras de Ney Matogrosso em entrevista ao programa “História Sexual da MPB”, no Canal Brasil, representou “a primeira ilação homossexual na música brasileira” –, Bethânia ainda prima por cantar o amor, tema, por si só, popular, mas que, no seu caso, conta com a vantagem desta consciência cênica e dramatúrgica que ela instaura, o que lhe garante também aclamação crítica, com toda a justiça. Essa característica de arrebatamento, de encanto com a palavra e seu sentido mais literal do que sonoro, concederam a Bethânia espaço único em sua geração. A ela é permitido entoar todo canto que leve à emoção, sem se considerar gênero, tempo ou tamanho.

Ao reiterar a força de seu canto romântico junto a uma plateia entusiasmada, a artista provou seu temperamento em duas ocasiões no espetáculo. A primeira, logo após interpretar “Cálice” de Chico Buarque e Gilberto Gil, cuja metáfora vampírica com a palavra “sangue” mantém sua perenidade, e, logo em seguida, assentir à manifestação política da plateia; já a segunda foi ao demonstrar impaciência com o mesmo público, ao se sentir impedida de recitar os versos de Fernando Pessoa em razão dos insistentes aplausos. Pois, afinal, ela sabe o que quer. A marca da cantora é tão forte que, por vezes, tem-se a impressão de cada música ser uma só. Bethânia caminha na direção de sempre: tudo a impulsa para o coração do mundo.

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