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19/06/2017 às 08:29
Indagações necessárias sobre o produtivismo e as avaliações da produção acadêmica

A avaliação em si é algo que aglutina imensa gama de variáveis controversas e de difícil consenso. Componentes avaliativas trazem em si elementos valorativos impregnados de subjetividade que é o ponto de partida para toda discussão que as contempla. Ao tratarmos do processo de produção e disseminação do conhecimento em sua imaterialidade e intangibilidade nos colocamos em uma situação de grande complexidade e dinamismo. Nesse contexto, precisamos ter claro que concepção de avaliação nos orienta. A concepção de que avaliar é um ato intencional valorativo sobre o estado em que o objeto avaliado se encontra e o instrumento estabelecido para esse fim dá materialidade a esse exercício nos possibilita analisar de forma consistente tanto sua natureza como sua finalidade.

Entre inúmeros outros, dois desafios nos dias atuais têm exigido esforço adicional da Universidade: o prudutivismo e sua avaliação. O primeiro impõe um ritmo aos nossos estudos e pesquisas que tem levado inúmeros colegas a situações extremas para poder “dar conta de sua produção” desde que a “lista dos Improdutivos” foi parar nas mãos da grande imprensa (Folha de São Paulo, 1988). Quanto ao segundo, não se tem acordo sobre critérios, conceitos ou fundamentos efetivos para construção de instrumentos adequados e, assim, empregam-se critérios e parâmetros pré-estabelecidos por modelos anacrônicos, inadequados e, em geral, sem fidedignidade ao objeto e a circunstância na qual este se encontra. Analisar embates acadêmicos e suas contradições em busca de consenso exige tempo, condições para um trabalho complexo e por vezes insuficientes. O tempo é um bem cada vez mais escasso na Universidade e as condições adequadas para o trabalho se reduz a cada momento. 

Existe na Universidade a preocupação com a questão que envolve a dimensão do impacto social produzido por meio do conhecimento cientificamente desenvolvido, entendido como produzir conhecimentos que tragam benefícios para o conjunto da sociedade de forma intensa. Essa tarefa não é simples, a avaliação adequada e fidedigna desse impacto social dos conhecimentos produzidos pela ciência não é tarefa rotineira. Por isso, até o momento não se tem, de forma efetiva e consolidada, procedimento metodológico para esse tipo de avaliação, seja por parte de organismos internacionais ou nacionais. 

Temos aceitado uma visão contábil de auditoria que apresenta efeito ilusório com fim em si mesmo. Há que se reconhecer o esforço no sentido de se qualificar tais procedimentos sem, no entanto, considerá-lo satisfatório, uma vez que ainda temos, certamente, um longo caminho a percorrer, pois estamos distantes do mínimo de compatibilidade entre ideias para o consenso sobre como solucionar tais impasses. O que vemos é que, a cada dia temos que produzir mais, escrever mais, publicar mais para uma sociedade, instituições ou pares que leem cada vez menos e, quando leem, a qualidade do conteúdo não é o que importa. 

O que importa é a métrica do como e onde está escrito. Encontra-se dentro das regras da normalização? Em qual base o periódico que publicou está indexado? Qual o Qualis atual? Têm resumos em três idiomas? Tem DOI? Estas são algumas das questões que importam: o conteúdo efetivo do texto publicado não é relevante, desde que a métrica satisfaça. Vivemos um momento em que nossos pares deliberadamente entregaram suas opiniões sobre o que pesquisamos e escrevemos aos terceirizados, aqueles que se esmeram em construir exigências para divulgarem nossos estudos como se dependesse deles a qualidade dos resultados. 

A exigência do produtivismo tem nos levado a um número cada vez maior de coisas absolutamente sem sentido. A disseminação da ciência e do conhecimento presta um grande serviço à erudição, à sociedade, à democracia quando, além de nós mesmos, alguém mais lê e dessa leitura se nutre, se apropria e emprega a sua vida e a seu cotidiano.

Sebastião de Souza Lemes é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara

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