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27/06/2017 às 19:29
Farc continuarão a existir sem armas e pacificamente, diz líder guerrilheiro

Cerimônia marca entrega de mais de 7 mil armas à ONU; Santos fala em paz irreversível

 

BOGOTÁ - A guerrilha das Farc conclui nesta terça-feira o processo de desarmamento na Colômbia, em um ato crucial que marcará o fim do grupo armado após mais de 50 anos de guerra interna, a mais antiga do continente. O presidente Juan Manuel Santos e o líder guerrilheiro Rodrigo Londoño, conhecido como Timochenko, participam de uma cerimônia que celebra o episódio na localidade de Mesetas, no departamento Meta (centro da Colômbia).

O mesmo local, que há mais de meio século viu a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia consolidar sua presença e instalar seu centro de operações, será testemunha agora da entrega das armas, parte do acordo de paz assinado em novembro, após quatro anos de negociações em Cuba.

— Hoje, ao deixarem as armas que tinham com vocês no contêineres das Nações Unidas, os colombianos e o mundo inteiro sabem que a nossa paz é real e irreversível — disse Santos durante o ato de encerramento do desarme em Mesetas.

Na segunda-feira, o grupo rebelde completou a entrega à missão da ONU na Colômbia de 7.132 armas individuais nas 26 zonas onde estão concentrados quase o mesmo número de combatentes, informou a organização internacional. Nessas cinco décadas, o conflito interno na Colômbia deixou 260 mil mortos, 60 mil desaparecidos e 7,1 milhões de deslocados.

Timochenko, em discurso no púlpito, deu "Adeus às armas! Adeus à guerra!" e também "Boas vindas à paz!". O líder defendeu que as Farc cumpriram o pacto acordado com as partes envolvidas e disse que o grupo guerrilheiro continuará a exisitir, sem armas e pacificamente. Ele pediu o fim da perseguição política no país:

— O mecanismo de monitoramento e verificação do cessar-fogo e das hostilidades prova que não falhamos, hoje deixamos as armas. O Estado nos ofereceu um pacto para construir. Estamos prontos para seguir esse caminho — afirmou Timochenko. — Honramos nossa palavra e esperamos, junto com vocês, que o Estado cumpra a sua. A partir de hoje, deve acabar toda a perseguição política na Colômbia. Aspiramos à reforma rural integral, que seja implantada com celeridade pois percebemos a importância estratégica do desenvolvimento do campo — sustentou o líder guerrilheiro.

Ele criticou que boa parte dos prisioneiros das Farc ainda não tenham conquistado anistia, conforme prometido no acordo de paz:

— Resulta lamentável que boa parte dos guerrilheiros permaneçam na prisão há seis meses a despeito de uma lei de anistia. Eles e suas famílias adiantam protestos ante o cumprimento (do acordo). Nada disso deveria ser necessário.

De acordo com o jornal colombiano "El Espectador", a Coalizão Longa Vida às Mariposas (ONG defensora dos direitos de presos políticos na Colômbia) confirmou que 1.110 prisioneiros políticos em 19 prisões do país começaram uma greve de fome como protesto ao não cumprimento da "implementação imediata da anistia e outras formas de libertação determinadas no Acordo de Paz em Havana".

 

O presidente Santos disse que é a melhor notícia da Colômbia nos últimos anos. Ele disse que, agora, a Colômbia não é "mais uma história de dor e violência no planeta". O chefe de Estado disse que o movimento de entrega das arma diante do povo colombiano e do mundo inteiro faz com que a paz seja "real e irreversível".

— Hoje, com emoção, constatamos o fim desta guerra absurda, que não só durou mais do que cinco décadas (...) Haverá justiça e reparação. Haverá verdade e garantir de não repetição para as vítimas. Disso, asseguramo-nos no acordo de paz. O mais importante que celebramos os colombianos neste 27 de junho de 2017 é que as armas que uma vez levantaram para atacar uns aos outros estará a cargo da mais alta e importante organização internacional. Milhares de armas foram entregues à sua custódia e não serão mais uma ameaça para qualquer cidadão de nosso país.

CERTIFICADO DE REINSERÇÃO SOCIAL

Durante a cerimônia, dez integrantes das Farc foram chamados para representar simbolicamente os guerrilheiros do grupo na entrega de certificados que reinserem os combatentes à vida civil — um dos pontos acordados com o governo para o trânsito à legalidade. Com o recebimento do documento, eles se comprometem a não empunhar mais armas.

Em 31 de julho, a missão da ONU na Colômbia removerá os recipientes com as armas do acampamento em que eles estão guardados. A partir daí, o armamento recolhido será utilizado para construir três monumentos na Colômbia, os Estados Unidos e Cuba.

A ONU estabeleceu com o governo colombiano e as Farc um plano para que os guerrilheiros forneçam as coordenadas de todos os seus esconderijos para que a missão internacional recolha todo o arsenal nos acampamentos. O prazo para tal tarefa é até 1º de setembro. Todo armamento recolhido nessa etapa será destruído.

— O cessar-fogo e de hostilidades bilateral, declarado em 29 de agosto de 2016, foi respeitado por ambas as partes e contribuiu diretamente para a redução dos principais indicadores de violência do país — declarou Jean Arnault, chefe da missão da ONU na Colômbia, na abertura da cerimônia.

Ele afirmou que, salvo "poucas exceções", as regras do acordo foram cumpridas e que "nenhum dos descumprimentos observados reflete um padrão de violações deliberadas ou decisões de alto nível de uma ou outra parte".

'MOMENTO HISTÓRICO'

Santos, prêmio Nobel da Paz em 2016 graças aos esforços pela paz, celebrou o anúncio: "A #DeposiçãoDeArmas representa o início de uma nova Colômbia que avança para a paz. Agradeço a @MissãoONUCol por seu apoio e seu trabalho", escreveu no Twitter.

Timochenko afirmou que o dia é um "momento histórico para a Colômbia".

Tanto o presidente como analistas consideram o desarmamento como um "marco" do processo de paz porque representa o epílogo das Farc, grupo criado em 1964 após uma revolução camponesa.

— O ato significa o fim da principal guerrilha armada no hemisfério ocidental. Significa o início de um pós-conflito (...) e de um processo difícil de reconciliação no país — fortemente dividido ante o acordo de paz, disse o analista Jorge Restrepo à AFP.

 

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