Carlos Schroeder: Fim de ano – o ponto
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Carlos Schroeder: Fim de ano – o ponto

Carlos Schroeder: Fim de ano - o ponto
<p>Nenhuma virada de ano na literatura contemporânea foi tão melancólica e angustiante quanto a do narrador de <i>A morte do pai</i>, a primeira parte do calhamaço do escritor norueguês Karl Ove Knausgard. O jovem tenta uma carona em meio a neve, numa sequência de desventuras que já prenunciavam a falência de suas relações afetivas futuras. Knausgard é um artista do cotidiano: capaz de fazer você se interessar pelas coisas mais banais, e com esse livro construiu uma bela narrativa sobre a arbitrariedade da vida. Confesso que fico ansioso a cada final de ano, perdido, como o jovem supracitado, pois a mesma angústia que sinto ao terminar ou começar um livro invade cada partícula minha e a dança do calendário me exaspera: 28, 29, 30, 31 e plim: 1º  de janeiro de 2017.</p><p>Todos os anos fazemos as mesmas promessas, os mesmos brindes, e é este o lado divertido e triste da vida: repetir os erros,  os mesmos erros. Eu encaro cada início de ano como um texto, sim, como um texto. Pois quando você começa a escrever um conto ou romance, você acha que sabe aonde quer chegar, planeja o futuro dos seus personagens… Os capítulos… Tudo! Mas logo as coisas seguem outros caminhos, o personagem que era secundário parece ter “mais vida” e vai conquistando espaço, as situações que você imaginou se mostram banais, e os textos vão “se reescrevendo”. Na vida também é assim, por mais que você tente esquematizar ou planejar, as situações sempre acabam fugindo do seu controle. É como escreve o israelense Amós Oz no seu livro <i>Conhecer uma mulher</i>:  “Todas as pessoas, todos os atos, os atos de paixão e ambição, as fraudes, a sedução, acúmulo, evasão, os atos de malícia e de fracasso, a competição e adulação e a generosidade, os atos destinados a impressionar, a despertar a atenção, para serem gravados na história da família, ou do grupo ou do povo ou da humanidade, os atos insignificantes e os atos generosos, os calculados e os incontroláveis, os maldosos; quase todos levam sempre a um ponto onde não se pretendia chegar.”</p><p>Um dos últimos lançamentos do calendário editorial brasileiro de 2016 vai justamente ao encontro do trecho acima, e é minha dica de leitura para essas férias de final de ano: a nova tradução de <i>A rainha Margot</i> (Amarilys, 832 páginas, R$ 89,00, tradução de Bruno Ribeiro de Lima e Lara Neves Soares) de Alexandre Dumas.  Baseado em fatos históricos, o pano de fundo são as Guerras de Religião (1562 a 1598), conflitos sangrentos entre católicos e huguenotes cujas raízes estavam em antigas disputas pelo trono da França.</p><p>A luta pelo poder se mostra nas intrigas, nas armadilhas, nos complôs, nas traições e nos golpes perpetrados por figuras célebres da história francesa, retratados aqui como personagens passionais de um romance folhetinesco.</p><p>Margot é a ponta de três triângulos amorosos de características e dinâmicas próprias (as outras pontas ocupadas por Henrique de Navarra, Henrique de Guisa e Lérac de La Mole). Por meio dessas experiências amorosas, ela passa por um processo de amadurecimento: no início era a jovem princesa Margot, preocupada apenas com seus prazeres; depois do casamento, torna-se a rainha Margarida de Navarra, envolvida diretamente nas intrigas do trono, uma mulher que conhece o amor e a dor. Amor e poder exercem a mesma influência sobre as atitudes das personagens e definem os seus destinos, confundem seus sentimentos e expõem seus temores e fragilidades. Essa obra é uma das mais conhecidas de Alexandre Dumas e um dos melhores exemplos do que foi a revolução romântica na literatura. A edição traz o texto integral do romance em nova tradução. Além disso, a professora doutora em língua e literatura francesas da Unifesp Maria Lúcia Dias Mendes discute em um prefácio crítico a vida e a obra de Dumas, os bastidores da escrita do romance e o nascimento do movimento romântico na literatura francesa, que teve em Dumas um de seus principais expoentes.</p><p><b>Leia também:</b><br><b> Morre Richard Adams, autor de “A longa jornada” </b><br></p><p><b> 2º Concurso Salim Miguel da Editora da UFSC está com inscrições abertas </b><br></p><p> <b>Carlos Schroeder: os 3 melhores livros lançados no Brasil em 2016</b> <br></p><!– contentFrom:cms –>
Fonte: Diário Catarinense

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