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27/06/2017 às 17:49
Fifa revela que Teixeira usou jogo da seleção para vender voto ao Catar

 

 

Informe destaca como o país árabe destinou US$ 7 milhões ao ex-presidente da CBF

 

As investigações confidenciais conduzidas pela Fifa sobre a compra de votos para a Copa de 2022 no Catar revelam como o ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, é suspeito de ter usado um amistoso da seleção para camuflar pagamentos por parte dos árabes para garantir seu voto ao país para receber o Mundial de 2022. Outra suspeita se refere ao fato de ele ter recebido um tratamento de chefe-de-estado por parte do Catar, com custos de acomodação 18 vezes superiores aos que os árabes destinaram a Lionel Messi.  

 

Os dados fazem parte do informe produzido pelo Michael Garcia, investigador que a Fifa contratou para apurar as suspeitas de ilegalidade há cinco anos. O americano, que hoje é juiz num tribunal de apelação de Nova Iorque, chegou à constatação de que havia indício forte de que o Catar havia comprado os votos para sediar o evento, direito que ele ganhou numa votação no final de 2010. 

 

Seu informe, porém, jamais foi tornado público e, diante da decisão da entidade de engavetar suas descobertas, Garcia pediu demissão em 2014. Poucos foram processados e o Catar jamais perdeu o direito de sediar o torneio. Agora, o jornal alemão Bild teve acesso aos documentos e a Fifa optou por publicar o informe em sua integralidade, com 430 páginas.

 

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Um dos detalhes se refere a como Teixeira fez parte do esquema suspeito de compra de votos. Garcia explicou como uma partida entre Brasil x Argentina realizada no Catar pode ter sido usada como forma de camuflar recursos e precisava ser investigada.

 

O jogo ocorreu em 17 de novembro de 2010, com a informação original de um pagamento suspeito de US$ 7 milhões (cerca de R$ 23 milhões, na cotação atual), "bem superior às taxas de mercado". Para os investigadores, a alegação era de que esse dinheiro foi usado para "influenciar os votos dos presidentes do Brasil e Argentina, Teixeira e Julio Grondona". Ambos votariam na escolha da Fifa, em 2010.

 

Oficialmente, o Catar alega que o objetivo do jogo era ser um "ensaio geral" para a Copa Asiática de 2011. Outra meta era a de mostrar ao mundo que a população local estava interessada no futebol. "As evidências levantaram questões sobre os objetivos e beneficiários de certos pagamentos", indicou Garcia, que apontou que jamais conseguiu entrevistar Teixeira sobre as alegações. 

 

O que chama a atenção é a engenharia financeira em uma partida de futebol, organizada pela empresa que detinha parte dos direitos sobre a seleção, a Kentaro.  O pagamento pelos custos do jogo foi feito pela Swiss Mideast Finance Group AG, uma empresa na Suíça de propriedade do conglomerado do Catar, a GSSG. O dinheiro, porém, veio de outra empresa, a SMFG. Os valores, porém, seriam compatíveis com o que se gasta em uma partida. 

 

Num primeiro momento, a Swiss Mideast deu US$ 6,8 milhões (R$ 22,5 milhões) para os custos da partida. Mas, depois, a SMFG pagou mais US$ 8,4 milhões (R$ 27,8 milhões) para a Kentaro garantir a participação do Brasil e Argentina. Mas chamou ainda a atenção dos investigadores um envio pela Kentaro de US$ 2 milhões (R$ 6,6 milhões) para uma empresa em Cingapura. O pagamento chegou até a Business Connexion Services Pte Ltd ("BCS"), de propriedade de um sírio, Wael Ojjeh.

 

O pagamento e relatos incoerentes sobre como a Kentaro e a SMFG entraram em um acordo para o jogo e o pagamento para Cingapura foram considerados como suspeitos. "Preocupações sobre qual proporção desse dinheiro foi para a Argentina e para o Brasil, sobre os objetivos e beneficiários dos fundos merecem maiores investigações", sugeriu Garcia, que acusou os contratos de serem "pouco claros".

 

A investigação também lembrou que a CBF tinha já acordos com a ISE para a realização de amistosos e que parte do dinheiro ia para Sandro Rosell, amigo de Teixeira. Para aquela partida, a Kentaro enviou para uma conta nas Ilhas Cayman a taxa considerada como "normal" para a CBF participar de um amistoso, com cerca de US$ 1,1 milhão (R$ 3,6 milhões), além do adicional de 345 mil euros (R$ 1,2 milhão) para Rosell. 

 

Para os investigadores, foi o catalão foi peça central na partida e quem teria convencido tanto argentinos como brasileiros a viajar até Doha. A possibilidade de um amistoso fora da Europa era pequena, diante do acordo de cavalheiros que existia entre a CBF e os clubes europeus para que os jogadores brasileiros atuassem apenas no Velho Continente. Mas, com Rosell já presidente do Barcelona, o catalão explicou a um dos organizadores da Kentaro que a partida seria realizada, mesmo fora da Europa. "As vezes, milagres ocorrem", teria dito.

 

 

 

Presidente

Durante aquele jogo, o Catar gastou apenas com a hospedagem de Teixeira mais de US$ 23,9 mil (R$ 79,9 mil), 18 vezes o que o governo gastou para Lionel Messi e 30 vezes o custo de hospedagem de Robinho. O cartola brasileiro teve um tratamento de chefe-de-estado, ocupando uma suite presidencial e um carro com motorista para ele e outro para sua esposa, além de cinco passagens de primeira classe. Para os investigadores, os benefícios eram "excessivos" e "abusivos".

 

De acordo com e-mails, quem bancou o tratamento a Teixeira foi a campanha do Catar para 2022 que lhe garantiu "tratamento TOP VVIP".  Na avaliação dos investigadores, os benefícios dados ao brasileiro ocorreu por conta de ele ser um dos eleitores na decisão da Fifa e seria uma "violação" do código de ética da Fifa. 

 

Para Garcia, ainda que esses custos sejam abusivos, "são as circunstâncias dos contratos comerciais que são bem mais sérios". Teixeira, portanto, passou a ser investigado por conflito de interesse, aceitar benefícios e corrupção. No informe, o investigador ainda deixa claro como tais amistosos poderiam ser considerados como propinas. 

 

 

 

Filha

Os documentos também revelam como Sandro Rosell atuaria como intermediário para os interesses do Catar com as federações sul-americanas, entre elas a CBF. Para Garcia, tal prática é "perturbadora" diante das constatação de que, em junho de 2011, ele transferiu 2 milhões de euros (R$ 7,5 milhões) para uma conta em nome da filha de Teixeira, de apenas dez anos de idade. 

 

Não existem provas de que o dinheiro tenha uma relação com a Copa. Mas um dos consultores da campanha do Catar admitiu que o pagamento foi feito. Segundo ele, dinheiro viria da venda de imóveis e depositar na conta da filha era uma maneira de driblar o fisco. 

 

Na Espanha, a Justiça já prendeu Rosell, acusado de ter criado um "grupo criminoso de dimensões transnacionais" com a participação de Teixeira. Agora, o documento da Fifa volta a insistir que a relação de Rosell com o Catar é considerada como um elemento central na investigação sobre Teixeira e em todos os contratos comerciais da CBF. Para Garcia, o catalão se aproveitou da seleção em benefício próprio. 

 

Rosell, logo depois de ajudar na escolha do país árabe para receber a Copa do Mundo de 2022, assinou com a obscura Qatar Foundation um acordo de patrocínio para o Barcelona. O que a Fifa agora revela é que ele foi também consultor da campanha do Catar. Rosell ganhou 2 mil euros (R$ 7 mil) por dia e entregou "detalhes estratégicos" e ajudaria a apresentar a campanha às autoridades. Um dos focos da campanha foi Teixeira. O CEO da Copa, Hassan Al-Thawadi, sabia disso e insistiu que "não era segredo a amizade dele (Rosell) com Teixeira". 

 

Além do amistoso, foi o ex-presidente do Barça quem permitiria um encontro entre Teixeira com o Emir do Catar, também sob investigação. Em 19 de janeiro de 2010, com Julio Grondona, Nicolás Leoz, e Ricardo Teixeira, assim como João Havelange, estiveram no Itanhanga Golf Club do Rio de Janeiro. Oficialmente, era uma oportunidade para o Emir se encontrar com os líderes do futebol sul-americano. 

 

Para os investigadores, uma das surpresas foi o fato de que Teixeira, que estava nos EUA, exigiu avião privado para chegar ao Rio para o encontro. Num e-mail, os organizadores falam da necessidade de um "avião privado ou do governo" para o brasileiro. No gabinete do Emir, os dados do passaporte de Teixeira foram repassados. 

 

Outro aspecto preocupante se referia a um presente que cada um dos membros teria obtido, em especial um relógio de ouro. Na regras da Fifa, fica claro que ninguém poderia ter recebido presentes. Mas os árabes consideraram que o Emir "não estava sujeito às regras da Fifa" e que era costume dar presentes a convidados. 

 

Sem chegar a uma constatação definitiva se um presente foi dado, a Fifa indicou que o Catar passou a usar o governo e embaixadas para driblar as regras da campanha. 

 

 

 

Lula

Durante as investigações, Garcia ainda ouviu de um dos promotores da campanha da Inglaterra para sediar a Copa de 2018, Lord Triesman que, em novembro de 2014, Teixeira se reuniu com ele e insinuou que qualquer pagamento em troca de voto teria de passar pelo cartola. No encontro, o inglês disse ter ficado impressionado com Lula e que o ex-presidente teria dado "apoio" para Londres. 

 

Teixeira então teria respondido: "Lula não é nada. Venha a mim e diga o que você tem para mim". Triesman disse que ficou "chocado" com a afirmação. Mas a investigação constatou que havia pouco elemento para corroborar com o testemunho, enquanto outros indicaram que poderia ser um "erro de tradução". 

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