topo JF - Agência e Clipping de Notícias

 

 

 

27/06/2017 às 18:27
Pobreza estimula comércio ilegal de órgãos no Paquistão

 

Por R$ 80 mil é possível comprar um transplante de rim

 

 

ISLAMABAD — Uma batida realizada por autoridades paquistanesas a um hospital em Lahore, em 30 de abril, é apontada como um marco no combate ao comércio de órgãos humanos no Paquistão. Naquele dia, médicos foram flagrados realizando dois transplantes de rins, com os doadores e os receptores ainda inconscientes na mesa de cirurgia. A conclusão da operação foi permitida, mas 16 pessoas, entre médicos, assistentes e os receptores, foram detidos e poderão ser condenados a até dez anos de prisão.

 

William carrega Gloria para a delegacia, onde denunciaram um assalto sofrido na rota da fronteira guatemalteca com o México: ambos tiveram que deixar o país por causa das ameaças de morte de gangues locaisArtigo: Uma rota de sofrimento na América Central

 

A jovem e seu pai: casamento arranjado terminou em tráfico e prostituiçãoDocumentário em realidade virtual exibirá tráfico de humanos

— Por essa operação, nós gostaríamos de enviar uma forte mensagem dizendo que o Paquistão não é mais um paraíso seguro para transplantes ilegais de rins — disse à AFP Suleman Ahmed, da Autoridade de Transplantes de Órgãos Humanos paquistanesa.

 

A doação de órgãos é legal no país, desde que voluntária, sem o envolvimento de transações em dinheiro. Mas como os clérigos islâmicos são contrários à doação, existe um deficit de doadores. Não para os ricos. Segundo observadores, a falta de órgãos legais alimenta uma máfia que explora a população mais pobre do país num comércio que atrai clientes até mesmo do exterior. Os rins são tão baratos que compradores internacionais, principalmente do Oriente Médio, África e Reino Unido, viajam para o país em busca de um transplante. Na operação policial em Lahore, os clientes eram de Omã.

 

Não que o comércio de órgãos não aconteça em outros países, mas normalmente esse mercado acontece nas sombras, não é o caso do Paquistão. Um repórter da AFP entrou no lobby de um hospital da capital Islamabad, e, em questão de minutos, funcionários indicaram um “agente”, que ofereceu um doador e aprovação do governo para um transplante de rim por US$ 23 mil, cerca de R$ 80 mil.

 

Por isso a operação de Lahore é tão importante, sugere Jamil Ahmad Khan Mayo, da Agência Federal de Investigação. Até março deste ano, os casos relacionados ao comércio ilegal de órgãos eram tratados por autoridades provinciais, mas essa limitação foi derrubada e agora são de responsabilidade de agências federais.

 

De acordo com o Instituto de Urologia e Transplantes, baseado em Karachi, cerca de 25 mil paquistaneses sofrem de insuficiência renal anualmente, mas apenas 10% conseguem tratamento de hemodiálise e apenas 2,3% conseguem um transplante.

 

PUBLICIDADE

— Muitas pessoas chegam até nós em hospitais do governo com familiares se apresentando como doadores — contou Mumtaz Ahmed, chefe de nefrologia no hospital público Benazir Bhutto, em Rawalpindi. — Mas de repente eles mudam para hospitais privados quando descobrem que lá eles podem comprar um rim.

 

Para o especialista, existe uma questão social por trás da quase legalidade da prática.

 

— O comércio ilegal beneficia os ricos e as elites do país — apontou Ahmed.

 

POPULAÇÃO RURAL VULNERÁVEL

 

A alta demanda por rins cria um mercado que a população das vastas zonas rurais veem como uma oportunidade para amenizar a pobreza. Em situação análoga à escravidão por causa de dívidas com os patrões, ele ficam forçados a trabalhar num ciclo vicioso que a venda de um órgão pode quebrar.

 

 

Bushra Bibi vendeu um dos rins para pagar dívidas do pai - AAMIR QURESHI / AFP

Bushra Bibi é uma das vítimas desse mercado. Com lágrimas, ela lembra ter sido forçada a vender um dos rins há 12 anos porque seu pai precisava de dinheiro para tratamentos médicos e quitar um empréstimo. O valor: 110.000 rúpias, cerca de US$ 1 mil.

 

Com o padrasto na mesma situação, o marido de Bushra se submeteu ao mesmo procedimento. Agora, o casal sobre com dores crônicas e enfrenta dificuldades para criar dos cinco filhos, além de ter mais dívidas que antes de vender os órgãos.

 

PUBLICIDADE

— Eu não consigo varrer — contou Bushra, com lágrimas nos olhos. — As pessoas falam de mim quando não consigo terminar o meu trabalho.

 

Malik Zafar Iqbal, morador do distrito de Sargodha, em Punjab, o mesmo da família de Bushra, está formando um grupo para lutar por direitos aos doadores. Com uma lista com centenas de nomes, ele já se encontrou com autoridades, mas ainda não conseguiu melhores condições para as vítimas desse mercado.

 

— Eu vendi o meu rim por 104 mil rupias — contou, com ar de arrependimento.

Loading...


 

Loading...
 

 

Cadastre seu e-mail e receba nossos boletins diários:

 

 

 

 

Leitores On Line