Autópsia será usada em estudos sobre novas terapias para coronavírus

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Fragmentos de órgãos de vítimas de São Paulo estão indo para biorrepositório

Uma das linhas de pesquisa na busca por novas terapias para o novo coronavírus no Brasil virá de um lugar inusitado: a sala de autópsia.

Os trabalhos começaram na última quarta-feira, quando chegou o primeiro corpo de um paciente do HC com diagnóstico da Covid-19 ao serviço de verificação de óbito, ligado à Faculdade de Medicina da USP, um jovem de 37 anos, obeso, com diabetes tipo 2 e gordura no fígado.

Desde então, foram autopsiados quatro cadáveres com a confirmação da doença e outras três sob suspeita. A proposta é reunir 30 casos, com autorização expressa dos familiares e do comitê de bioética, para a primeira publicação dos resultados dessas autópsias.

Autópsia feita por ressonância magnética, um método menos invasivo e mais preciso feito pela USP
Autópsia feita por ressonância magnética, um método menos invasivo e mais preciso feito pela USP - Danilo Verpa - 23.fev.17/Folhapress

A proposta é criar um biorrepositório de tecidos dos mortos pela doença, que possa ser compartilhado com a comunidade científica internacional e ser usado em estudos sobre os mecanismos da infecção.

“A gente é o único ou um dos poucos no mundo que está coletando de forma sistemática esses tecidos para estudar não só biologia da doença do ponto de vista de acometimento e mecanismos mas também para fornecer uma base para futuras alternativas terapêuticas”, diz patologista Paulo Saldiva, professor da USP e coordenador do projeto.

Estão sendo coletados tecidos do cérebro, coração, pulmão, baço, intestino e pele sem abrir o corpo, usando a técnica da autopsia minimamente invasiva, criada pelo grupo há seis anos.

“A gente sabe que a doença pega o pulmão, mas há manifestações sistêmicas em outros órgãos. Como é no coração, no cérebro?”, questiona.

Uma sala foi totalmente adaptada para atender as exigências sanitárias e evitar o risco de contaminação dos profissionais que vão lidar com esses corpos, inclusive o próprio Saldiva.

Todos usam roupas especiais. “É meia hora para se vestir e 20 minutos para se desvestir, para não se contaminar durante o período”, diz ele.

O trabalho estava previsto para começar na próxima semana, mas teve que ser antecipado. “Os corpos começaram a chegar antes. Montamos o programa ‘Tivirus’, e começamos a nos virar para adaptar a plataforma de imagem em um ambiente estéril, obedecendo às normas e barreiras sanitárias.”

O cadáver é embalado com plástico numa máquina parecida com aquela que se vê em aeroportos para proteger as malas.

Depois, é colocado em um aparelho de ressonância magnética, que tem um ultrassom guiado por técnica percutânea. São feitas pequenas incisões através do plástico e retirados fragmentos dos órgãos e tecidos afetados pela doença.

“Usando a embalagem e o ultrassom guiado a gente não vai às cegas, vai direto no lugar do órgão doente, sem precisar abrir tudo. Fica mais fácil também limpar uma superfície de plástico homogênea todo que um corpo humano todo. Consegue-se entregar esse corpo de forma mais segura [para o enterro].”

Ele lembra que a Covid-19 ainda é uma doença sobre a qual todo mundo está aprendendo. “Para entrar, o vírus precisa reconhecer uma molécula do epitélio respiratório. Quando ele reconhece, joga uma bomba que fura a parede da célula e a sequestra. Precisamos estudar a patogenicidade desse vírus, porque o genoma dele é 80% distinto de outros que causaram epidemias como a Sars e a Mers. É outro bicho.”

Com estudos usando métodos in situ (material retirado da autópsia) e moleculares, ele acredita que será possível entender como o vírus entra no corpo e todas as alterações que vai causando no organismo. “Se compreendermos melhor os receptores envolvidos, podemos buscar eventuais enzimas que os inibam, por exemplo.”

Informações passadas pela família do morto (autópsia verbal) também permitem um cruzamento de informações sobre a patogênese do vírus, as características genéticas do hospedeiro e outras condições sociais, como o estado nutricional da vítima e se ela pôde se afastar do trabalho na fase inicial da doença. “É estudar a biologia da doença como deve ser feito.”

Estratégia parecida foi usada durante a epidemia da febre amarela, segundo Saldiva. Somando os esforços da autópsia e da bancada do laboratório, foi possível adequar o manejo de terapias e diminuir a taxa de mortalidade de pacientes graves de 90% para 30%.


Fonte: Com Agências