<p>O diretor italiano Franco Zeffirelli, que faleceu neste sábado (15) aos 96 anos, foi o ícone de um cinema estético estudado com seu mestre Luchino Visconti e inspirado em obras-primas da literatura inglesa e de grandes óperas.</p><p>Seu mais conhecido filme, “Romeu e Julieta” (1968), é uma adaptação de Shakespeare, assim como “Hamlet” (1992, estrelado por Mel Gibson e Glenn Close) e “A Megera Domada” (1967, com Elizabeth Taylor e Richard Burton), uma lealdade que lhe valeu em 2004 o título de “Sir” na Inglaterra.</p><p>Ele também dirigiu mais de trinta peças e óperas até 2012.</p><p>Este gosto pelo teatro e pela ópera pode ser devido a uma infância incomum.</p><p>Ele nasceu em Florença em 12 de fevereiro de 1923, de um caso adúltero entre uma estilista e um comerciante de seda e lã.</p><p>Rejeitado por ambas as famílias, herdou o nome de uma ópera de Mozart e imaginado por uma prima de seu pai, que assumiu seus cuidados após a morte de sua mãe quando ainda era criança.</p><p>Muito jovem, Franco Zeffirelli conheceu o teatro durante férias de verão e aos nove anos foi seduzido pela ópera ao assistir “Valquíria” de Wagner em Florença.</p><p>Aos 13 anos, começou a montar espetáculos em paróquia, e foi fazendo aulas com Mary O’Neill, secretária particular de seu pai, que passou a apreciar os clássicos da literatura inglesa.</p><p>Graduado em arquitetura, começou como um decorador de teatro e cinema, para então se tornar ator. Seu encontro com o diretor Luchino Visconti selou o seu destino: tornou-se seu protegido e depois seu amante. Ao seu lado, trabalhou na realização de “La Terra Trema” (1948), “Bellissima” (1951) e “Senso” (1954).</p><p>Sua relação com Visconti era explosiva e terminou de forma brutal, que Zeffirelli descreveu como muito dolorosa, mas que lançou definitivamente sua carreira artística.</p><p>- Católico, homossexual e senador -</p><p>”Luchino revelou-me o campo da criação, no palco e na tela. E ele me mostrou como conceber um projeto e dar-lhe uma estrutura para o ambiente cultural correspondente”, revelou.</p><p>No final dos anos 50, Zeffirelli começou sua carreira como diretor de ópera no Scala de Milão e no Metropolitan de Nova York. Dirigiu Maria Callas em “La Traviata” em Dallas em 1959 e “Tosca” em Londres em 1964.</p><p>No cinema, adaptou “La Traviata” (1982) e “Otello” (1986) de Verdi.</p><p>Realizou seu primeiro longa-metragem, “Camping”, em 1958 e o seu maior sucesso 10 anos depois com “Romeu e Julieta”, que recebeu quatro indicações ao Oscar, incluindo de Melhor Diretor e Melhor Filme.</p><p>No palco, como na tela, Franco Zeffirelli presta especial atenção aos figurinos e cenários, o que fez o crítico Henry Chapier dizer que ele era o único “capaz de criar no cinema o equivalente aos afrescos da Renascença”.</p><p>Na década de 1970, este católico convicto dirigiu dois filmes de inspiração religiosa: “Francisco e o Caminho do Sol”, sobre São Francisco de Assis, e a minissérie “Jesus de Nazaré”.</p><p>Suas convicções religiosas o levaram a lançar uma campanha contra “A Última Tentação de Cristo”, de Martin Scorsese, apresentada em Veneza ao mesmo tempo que seu “Toscanini” em 1988, antes de voltar atrás.</p><p>Ele também se destacou ao se opor a projetos de reconhecimento dos casais homossexuais e ser um dos poucos artistas italianos a apoiar Silvio Berlusconi quando o bilionário entrou para a política no início dos anos 1990.</p><p>Foi senador na lista do magnata dos meios de comunicação de 1994 a 2001.</p><p>Depois de vários anos, retornou aos sets com “Jane Eyre – Encontro com o Amor”, adaptado do romance de Jane Austen (1996, com Charlotte Gainsbourg), “Chá com Mussolini” (2001), antes de casar suas paixões pelo cinema e pela ópera em “Callas Forever”, onde Fanny Ardant interpretou a cantora icônica.</p><p>Perto de completar 100 anos, o diretor italiano reconheceu em março de 2019, em entrevista ao Corriere della Sera, o peso dos anos. “A velhice é um fardo enorme, mas ainda estou procurando ideias a realizar (…) e isso me mantém ocupado”.</p><p>Ele também confessou ter dois arrependimentos em sua vida como cineasta: “um filme sobre o Inferno de Dante”, impossível de produzir por causa do custo de efeitos especiais, e “um grande afresco sobre a vida e obra dos Medici, sobre a beleza precisamente”.</p><p> * AFP </p><!– contentFrom:cms –>
Fonte: Diário Catarinense