Apesar de argumento óbvio, "A Esposa" ganha força pela interpretação emocionante de Glenn Close

Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade. É provável que essa frase cause repulsa à maioria das pessoas. Afinal, somos todos donos de nossas “verdades” e delas não abrimos mão. Mas, e se… Fitarmos o espelho sem as máscaras sociais? O que veremos? Quantas vezes nos ajustamos a situações de submissão e mentiras veladas porque nos convencemos de que é mais fácil aceitar os sacrifícios? Quantas vezes engolimos a infelicidade a seco por necessidade (de dinheiro, de aceitação, de um amor). O fato é que precisamos fazer escolhas. E elas têm consequências.

Essa relação opressor/oprimido, que todos nós carregamos em menor ou maior escala e em diferentes esferas da vida, é o fio condutor de “A Esposa” (The Wife), um dos filmes que vem chamando atenção nessa temporada pré-Oscar, muito em função da interpretação de Glenn Close. A veterana, de 71 anos, que já deixou sua marca em filmes emblemáticos como “Atração Fatal” e “Ligações Perigosas”, acaba de levar os prêmios de Melhor Atriz no Globo de Ouro e no Critics’ Choice Awards. Também é favoritíssima para ganhar o Oscar 2019.

Na trama, Glenn dá vida à Joan, uma mulher madura e, aparentemente resignada, mãe em uma família na qual o marido, Joe Castleman (Jonathan Pryce), é o centro das atenções. Escritor festejado e mundialmente famoso, ele começa o longa pedindo um “pequeno favor” à esposa, na cama. A vontade dela, não importa. Só precisa, digamos, consentir.

Mas o que movimenta a noite é mesmo um telefonema anunciando que Joe ganhou o Nobel de Literatura. A partir daí, acompanhamos o casal, em meio a comemorações cercadas por intelectuais orgulhosos e suas famílias perfeitas. E embora o momento seja de comemoração, o que se percebe é uma enorme sombra pairando no ar. Um constrangimento palpável e um silêncio muito eloquente. A esposa acompanha o marido como se fora uma muleta – algo extremamente necessário e igualmente desconfortável. Joe, aliás, faz questão de dizer a todos os presentes, com uma ponta de sarcasmo “ainda bem que minha mulher não escreve”. Afinal, todos os holofotes são dele. Só dele!

O filme, porém, não esconde apenas a mulher “por trás de um grande homem”. Não é tão simplório a ponto de abordar um típico caso de submissão odiosa, imposta por um vilão machista e egocêntrico, que não aceita dividir seu sucesso com a companheira de tantos anos. Há muito mais!

Aos poucos, o espectador descobre que a história não é tão maniqueísta. Com a ajuda de flashbacks, é possível seguir a trilha que leva à origem da amargura de uma mulher que deixou de ser uma escritora com futuro promissor para se tornar apenas a esposa de seu professor de Literatura. Nesse trajeto, o “nós” que unia marido e mulher vaidosamente se transforma em “eu”.

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Construção social

Mais do que a descoberta, uma tanto óbvia, sobre quais os segredos que assombram o casal, chama atenção a sequência de situações que revela o peso do machismo social. O poder criativo feminino é minimizado pelos homens e também por mulheres (como tantas na atualidade) que preferem aceitar as regras de um jogo sem vencedores.

A história, inspirada em livro homônimo de Meg Wolitzer e adaptada pela roteirista Jane Anderson, tem argumento frágil mas se redime pelas interpretações. Sem exagero, Glenn Close é o filme! Pryce, embora mereça aplausos, assim como seu personagem, não consegue chegar à altura da atriz. Vale citar ainda a presença necessariamente incômoda de Nathaniel Bone (Christian Slater), um aspirante a biógrafo que acredita estar diante de uma fraude e quer mostrar a sujeira escondida sob o tapete da fama.

Cabe a ele expor o espinho entranhado no seio da família Castleman. O mesmo que é sentido pelos filhos do casal, especialmente David (Max Irons), um escritor em começo de carreira que não consegue conviver com o desprezo dispensado pelo pai.

Do ponto de vista técnico, o filme deixa a desejar. A sensação é que o diretor Björn Runge não quis se arriscar. Faz uso demasiado de planos muito longos, assim como dos closes. Por muito pouco, a obra não ficou cansativa. Até porque, é difícil não se sentir desconfortável diante das cenas de humilhação imposta à esposa traída de todas as formas que uma mulher pode ser.

Ao fim de 1h41min, o desfecho funciona bem e entrega um belo convite à reflexão pós-créditos. Mais do que isso, faz uma ode ao talento feminino e ao trabalho de uma grande mulher.

Fonte: diariodonordeste