Político dando nome de parente em obras públicas: essa vaidade não é problemática?

Inaugurado em 14 de maio de 1939 pelo então prefeito Alfredo Silva, conhecido como “Fedoca”, o mercado público de Biguaçu não tinha nome. Era apenas “Mercado Público”, conforme o leitor poderá conferir numa foto de 1939 tirada dias antes da inauguração da obra.

Fedoca não colocou o nome de pai, mãe, tio, alguém de sua família. Não homenageou ninguém. Por que não fez isso? Não sabemos, mas isso não é interessante? Terá sido pura falta de vaidade (uma qualidade, diga-se de passagem) ou havia alguma lei naquela época impedindo isso? Realmente não sabemos.

O tempo passou, o mercado funcionou por algumas décadas, mas foi desativado. Algumas décadas passaram até que o prefeito Ramon Wollinger resolveu reinaugurá-lo em 30 de maio de 2016, isto é, há quase três anos. E resolveu colocar o nome de seu avô, Francisco Wollinger (1898-1981), nessa construção pública.

Nada contra, mas espera aí. A população foi consultada? Houve algum clamor popular a respeito? A Câmara de Vereadores deu o aval? A homenagem está baseada em algum estudo histórico que demonstra Francisco Wollinger ter alguma ligação importantíssima com o dito mercado? Foi o doador do terreno onde fica a edificação? Foi uma liderança que ajudou no funcionamento do dito mercado no passado?

Bom! Certamente a resposta certamente é um redondo “não”. A justificativa única é a de que Ramon quis homenagear seu finado avô e mais nada. Questão de pura e simples vaidade.

Foto de maio de 1939. O Mercado Público de Biguaçu não tinha nome. Era só Mercado Público. (Foto Hermes de Azevedo)

02.06.2016. Mercado Público já reformado ainda não tinha nome. (Foto Arquivo JBFoco)

Mercado Público de Biguaçu com o letreiro Francisco Wollinger. Haja vaidade. (Foto JBFoco)

 

LEI

Tem que existir uma lei que regulamente essa questão de nomes de ruas e edifícios públicos. Entra prefeito e sai prefeito e os políticos vão homenageando seus parentes com nomes de obras públicas.

Nada contra. Realmente há pessoas que, independente de seus laços sanguíneos com autoridades políticas da atualidade, merecem ser homenageadas pela contribuição à coletividade em vida.

Mas para homenagear, são necessários critérios. A Igreja Católica não vai permitir que haja um “Convento Cicciolina” ou “Escola Zé do Bar”, homenageando um cidadão que não fez outra coisa na vida a não ser beber cachaça e fazer filhos.

Parece piada, mas em Biguaçu, há uma rua cujo nome homenageia um cidadão cujo destaque na vida foi justamente isso: beber e deixar um monte de filhos. E o pior que o laudo do médico atestando o falecimento do dito cujo por causa do “excesso de álcool”, está anexado ao projeto de lei fundamentando a homenagem apresentado por um vereador que só podia estar de gozação. Na realidade, ele estava interessado nos votos da extensa família do cachaceiro falecido. E no final deu tudo certo. O alcoólatra virou nome de rua.

Voltando à Igreja Católica, para ser santo, há um rigor impressionante. É preciso não se sabe quantas provas irrefutáveis para iniciar um processo de canonização.

 

CRITÉRIO MÍNIMO

Para o universo das cidades do Brasil, o critério mínimo teria de ser a consulta à população, pois, do contrário, a vaidade de políticos pode criar situações no mínimo embaraçosas: o de dar nome de centros culturais a parentes que, em vida, não sabiam ler e escrever ou denominar escolas em homenagem a certas mulheres que nunca trabalharam na educação.

Nada contra o falecido sr. Francisco Wollinger, mas as regras de homenagem não deveriam ser mais rígidas? Explico.

O prefeito é o “João” e ele construiu ou vai reinaugurar a obra tal. Ele vai lá e dá o nome da obra em homenagem a um parente seu. Quer dizer, o cidadão, só porque está usufruindo do cargo, usa o dinheiro público para dar vazão a sua vaidade pessoal.

É problemático, bem problemático.

Existe uma lei que proíbe dar nome de obras públicas a pessoas vivas. Também não é permitido construir estátuas ou outros monumentos para autopromoverem-se.

Foi o caso de um prefeito de uma cidade do interior do Rio de Janeiro décadas atrás. Ele construiu uma ponte e não teve dúvida: mandou instalar uma estátua de bronze sua na cabeceira da dita obra. Cara de pau é pouco!

 

PODER HOMENAGEANDO-SE

Esse assunto dá até dissertação de mestrado em história. Sim, o assunto rende um grande estudo: o de como o Poder no Brasil usa seu “poder” para auto homenagear-se.

Nem precisamos ir longe. Em Santa Catarina, há uma cidade chamada “Doutor Pedrinho”. Quem era esse homem? Era o pai de um ex-governador de Santa Catarina.

Não conheço a cidade nem sua historiografia regional, mas a questão é: o nome de “Doutor Pedrinho” foi uma iniciativa popular ou nome imposto por decreto assinado pelos políticos?

Por que essa pergunta é importante? Nem precisamos ir tão longe, ou seja, sair da nossa comarca. Temos Governador Celso Ramos e Antônio Carlos.

“Governador Celso Ramos” é em homenagem ao ex-governador de Santa Catarina entre 1961 a 1966, Celso Ramos (1897-1996).

Segundo o historiador local, Miguel Simão, o nome surgiu não por iniciativa popular (o povo clamando por homenagear o dito governador), mas sim por um projeto de lei apresentado por um vereador que tinha amizade com a família do dito político e resolveu homenagear o amigo, o próprio Celso, pois este último tinha uma salga no município.

E deu certo. Em 1967, a cidade, outrora chamada de Ganchos, virou “Governador Celso Ramos”. A população, nunca consultada, aceitou a mudança passivamente.

E Antônio Carlos? Homenageia um certo Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Filho (1870-1946), governador do estado de Minas Gerais entre 1926 e 1930 e um dos apoiadores do grupo de rebeldes que promoveram a Revolução de 1930 que colocou Getúlio Vargas (1882-1954) na Presidência da República.

Se ninguém provar o contrário, o Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Filho NUNCA pisou o pé na cidade que hoje estampa seu nome.

Mas como é que foi possível ter sido dado o nome de um cidadão que nunca pisou o pé no lugar, não era da região, nunca teve participação política alguma no local, sem parentes locais e, mesmo assim, acabou sendo homenageado com seu nome dado à cidade?

A resposta é simples: foi um decreto político. O Poder, agora sob o domínio dos simpatizantes de Getúlio Vargas, vitorioso da Revolução de 1930, decidiu homenagear Antônio Carlos Ribeiro de Andrade Filho e ponto final. A população local ficou indiferente.

Em Governador Celso Ramos, já existe a ideia de se tentar promover um plebiscito para saber se a população quer que o município volte a ter o antigo nome “Ganchos” ou continue com Celso Ramos. Em Antônio Carlos, não há tal iniciativa.

Em Florianópolis, nome imposto pelo governador do estado do final do século XIX e homenageando um presidente, Floriano Peixoto (1839-1895), que ordenou um massacre de lideranças da cidade durante a Revolução Federalista de 1893, já se cogitou um plebiscito sobre se deve ou não mudar o nome da cidade, mas a iniciativa foi simplesmente ignorada. Estamos falando de uma capital onde não há uma só rua com seu nome e cuja placa em homenagem foi derrubada a pontapés em 1979 na famosa Novembrada.

Não daria um bom tema de dissertação de história pesquisando sobre como o Poder interfere até mesmo nos nomes de certas cidades do Brasil?

PALHOÇA

Antes de encerrar. O leitor lembra-se do episódio do ex-prefeito de Palhoça, Ronério Heiderscheidt, que, quando assumiu seu segundo mandato (2009-2012), quis simplesmente mudar o nome da cidade para “Nova Palhoça” porque, segundo ele, com sua administração, o município estava começando uma “Nova Era”?

A ideia não vingou. A população, que votou em massa nele, não aderiu à ideia porque achou “ridícula”, mas essa coisa ridículo aconteceu na vida real.

 

BIGUAÇU

E encerrando: uma legislação para dar um ponto final nesse negócio de político continuar colocando nome de parente morto em obras públicas sem critério algum a não ser porque é parente seu, tem de acabar.

 

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Fonte: jbfoco