A hora da verdade para Rodrigo Maia na Câmara

Uma parte importante da imagem que restará dos tempos de comando de Rodrigo Maia na Câmara será formada nesta semana, quando seu grupo político testará a capacidade de união em torno da sucessão.

Maia, segundo os próprios aliados gostam de lembrar, soube conduzir com algum talento o período em que esteve no comando da Câmara, valendo-se da fragilidade dos inquilinos do Planalto para assumir protagonismo na agenda do país.

Ao mesmo tempo, foram poucos os presidentes da Câmara que atuaram com tanto empenho no próprio projeto pessoal, em detrimento da agenda de país e dos demais aliados do campo político. Enquanto esteve na Câmara durante o governo de Michel Temer, por exemplo, Maia deixou o emedebista sufocar nos próprios escândalos políticos, evitando compor com o Planalto para votar a reforma da Previdência e alongando a discussão das denúncias do procurador Rodrigo Janot.

Naquela época, o presidente da Câmara, segundo seus aliados, sonhava em virar presidente da República numa das tantas articulações bizarras que ocorreram nas semanas de crise da delação de Joesley Batista e a mala de dinheiro ambulante de Rodrigo Rocha Loures. Temer poderia ter deixado o governo com o legado da Previdência, mas o flerte do presidente com a reeleição, em determinado momento, prejudicou esse trabalho, é verdade.

Tirando isso, Maia serviu ao próprio projeto, não escolheu trabalhar pelo Planalto, assim como também enfraqueceu o centro ao não mergulhar na agenda dos partidos que integravam o campo. A postura lhe atrasou as agendas de país, mas rendeu frutos ao projeto pessoal de Maia, que conseguiu um novo mandato no comando da Câmara contra o caos da base do novo governo de Jair Bolsonaro.

Seguindo a mesma lógica de servir aos próprios interesses, Maia, segundo seus aliados, passou o último período estimulando secretamente diferentes candidaturas do seu campo político ao comando da Câmara. Alimentava a concorrência para surgir como nome de consenso em meio ao caos da falta de articulação de seus aliados. Tudo seguia o roteiro até o STF barrar a festa.

Sem a possibilidade de se reeleger, Maia precisou agir rápido nos últimos dias para conter a sangria no quintal. Com o café meio frio, marcou para esta semana a definição do nome que escolherá para apoiar na eleição de fevereiro. É esse processo que mostrará se Maia deu um tiro no próprio pé ao estimular tantos candidatos e dividir a própria base ou se ainda terá forças para manter a tropa unida.

Se a divisão reinar, Maia terá dificuldades de derrotar o desafeto Arthur Lira, que joga com a máquina do Planalto para vencer, e terminará sua passagem pela Câmara no pior cenário possível. Nesse caso, a postura de conflito com o governo, para manter o apoio e os votos da oposição ao seu projeto de reeleição dentro da Câmara, também prejudicarão sua imagem.

O governo Bolsonaro atrapalhou as votações e estimulou rivalidades no Parlamento durante boa parte desses dois anos, é verdade. Mas Maia também teve participação nesse caos de improdutividade.

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