A manutenção dos estímulos do Fed e o benefício a emergentes como o Brasil

Para combater o baque às economias causado pelos isolamentos sociais, os bancos centrais mundiais anunciaram uma série de novas ferramentas de política monetária ao longo de 2020. O Federal Reserve Bank, o Banco Central dos Estados Unidos, por exemplo, zerou os juros e injetou mais de 3 trilhões de dólares por meio de cheques à população e facilitação de tomada de crédito por pessoas físicas e empresas. O mesmo caminho foi seguido pela União Europeia e países emergentes como o Brasil foram beneficiados por esse movimento.

O aumento do dinheiro disponível para investimentos no mercado gera um efeito que já é esperado pelos manuais de economia e, quem se beneficia com isso, são os países emergentes. “O investidor começa a procurar onde está a maior rentabilidade, e isso pode acontecer em mercados que tenham sofrido muito recentemente e tenham possibilidade de recuperação e ativos subprecificados por falta de liquidez no mercado; e ativos com maior perspectiva de valorização”, diz Ricardo Teixeira, coordenador do MBA em gestão financeira da FGV.

Nesse cenário, o capital do mundo desenvolvido começa a fluir para mercados emergentes que atendem aos requisitos citados acima, principalmente com a aproximação da vacina contra a Covid-19. Por trazer maior previsibilidade sobre os mercados no futuro, a imunização aumenta o apetite ao risco. No Brasil, além de a Selic estar a 2% e proporcionar uma maior rentabilidade na renda fixa que nos Estados Unidos, o real está muito desvalorizado em relação ao dólar e os investimentos se tornam baratos para os estrangeiros.

Outro fator são as empresas brasileiras que têm potencial de crescimento e atraem esses investidores. “O Brasil tem empresas com possibilidade enorme de valorização, por exemplo na área de infraestrutura, estradas, energia e tudo o que se relaciona a ele. O setor de agronegócio também”, diz Ricardo Teixeira, coordenador do MBA em gestão financeira da FGV.

Nessa quarta-feira, em meio a um PIB robusto no terceiro trimestre, mas negativo no acumulado do ano, o Federal Reserve anunciou uma ampliação de seus incentivos fiscais, como estender de março de 2021 até o dia 30 de setembro de 2021 as linhas temporárias de swap de liquidez e de acordo de recompra temporária para autoridades monetárias estrangeiras e internacionais (linha de recompra FIMA), criadas em março. Para o Brasil, porém, isso não é tão importante porque o país não usou esse instrumento monetário.

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“Uma extensão adicional dessas instalações ajudará a sustentar as melhorias recentes nos mercados globais de financiamento em dólares americanos, servido como um importante suporte de liquidez. Além disso, a facilidade de recompra FIMA ajudará a continuar a apoiar o bom funcionamento do U. S. Treaury Market, fornecendo uma fonte alternativa temporária de dólares americanos além das vendas de títulos no mercado aberto”, diz o Fed, em comunicado.

Por meio dessas linhas de swap, valores de até 60 bilhões de dólares podem ser fornecidos para nove bancos centrais, conforme anunciado em março, entre eles o Banco Central do Brasil. Além disso, o Fed decidiu manter a taxa de juros paga sobre os saldos das reservas obrigatórias e excedentes em 0,10% e o Federal Reserve Bank de Nova York foi autorizado a manter a taxa de fundos federais em de 0% a 0,25%, manter a carteira de títulos do Tesouro no Sistema em 80 bilhões de dólares por mês e em 40 bilhões de dólares em títulos garantidos por hipotecas (MBS) de agências até o desemprego e a inflação se recuperarem fortemente.

Powell evitou fazer projeções sobre quando isso irá ocorrer: “não sabemos agora quantas pessoas vão tomar a vacina e começar a sair de suas casas, saberemos no meio do próximo ano”, disse ele. A meta de inflação é se aproximar de 2%, o que de acordo com ele “levará algum tempo para chegarmos lá”. A principal característica da atual política monetária é a flexibilidade, monitorar os indicadores econômicos para definir as ferramentas que serão usadas.

Ainda que tenham alto nível de incerteza, as projeções de dezembro divulgadas nesta quarta-feira, 16, pelo Fed apontam que a inflação Core PCE mediana só atingirá 2% em 2023. O índice é de 1,4% em 2020, 1,8% em 2021, e 1,9% em 2022. Já o nível de desemprego só se aproximará ao patamar pré pandemia, de 3,5% em fevereiro de 2020, em 2023, quando chegará a 3,7%. Atualmente o índice está em 6,7% e a projeção mediana é que ele caia para 5% em 2021 e 4,2% em 2022.

Apesar de essa política monetária que injetará mais dólares na economia favorecer os países emergentes, vale lembrar que pesa no Brasil o risco fiscal. No início de 2021, há a possibilidade de o Congresso e a equipe econômica anunciarem medidas que prejudicam ainda mais o equilíbrio das contas públicas.

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