‘A Voz Suprema do Blues’ traz Chadwick Boseman em último papel

O sol castiga Chicago na tarde em que uma trupe de músicos se reúne para gravar Ma Rainey’s Black Bottom, um dos primeiros discos de blues cantados por uma mulher, em 1927. Os quatro homens negros, de gerações distintas, são direcionados pelo produtor, um homem branco, a um porão insalubre dentro do estúdio, onde ligam o ventilador para aplacar o calor. Todos ali sabem que a temperatura ainda vai subir vertiginosamente com a chegada da cantora Gertrude Ma Rainey (Viola Davis) — uma diva com dentes metálicos e pele luminosa, pouco disposta a negociar meios-termos entre o que ela quer e os demais. “Vocês já viram o resto, agora vão ouvir a melhor”, avisa a introdução de uma de suas músicas.

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É na quentura quase palpável desse prédio que se passa a maior parte de A Voz Suprema do Blues, já disponível na Netflix. O espaço físico se revela pequeno para a grandiosidade de seus visitantes — assim como o filme também será. Ma Rainey, apelidada de mãe do blues, é gigante que a história optou por esquecer, e Viola dá tudo de si para lhe fazer jus.

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Ambas, porém, disputam cada palmo de cena com um Chadwick Boseman em sua última atuação. Vítima de câncer de cólon, que tiraria sua vida em agosto, o ator famoso como o super-herói Pantera Negra entrega um desempenho hipnotizante na pele do trompetista Levee. É, de fato, uma de suas atuações mais brilhantes. O homem falastrão e de energia abundante descarrega no instrumento os traumas de uma sociedade racista, ao mesmo tempo que tenta ser notado pela indústria musical, apinhada de brancos. Boseman nunca deixou dúvida de que era talentoso, mas tamanho vigor, enquanto sofria os reveses da quimioterapia, impressiona.

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Adaptação da peça do dramaturgo americano August Wilson (criador também de Um Limite entre Nós, que, nos cinemas, deu o primeiro Oscar a Viola), a produção da Netflix vale-se de um formato peculiar: o teatro filmado. Sob a direção de George C. Wolfe, outro grande nome dos palcos, os atores deitam e rolam em longos monólogos de sentimentos chamuscantes. Para quem assiste, porém, é um enfado. Quando vêm os créditos, fica a vontade de conhecer mais sobre a cantora do título. Ma Rainey quebrou barreiras ao se impor perante gravadoras que lucravam com seu talento, e influenciaria Bessie Smith e Billie Holiday, além de exibir uma vida pessoal agitada. Fica, principalmente, o desejo de que Boseman não tivesse partido tão cedo.

Publicado em VEJA de 23 de dezembro de 2020, edição nº 2718

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