Amazon Pharmacy nos EUA já afeta estratégia de drogarias tradicionais

Era meados de novembro, quando veio o anúncio: a Amazon entrou no setor de farmácias nos Estados Unidos. Na data, as ações das tradicionais farmácias e drogarias americanas, Walgreens e CVS, derreteram, perderam 8% de seu valor. O medo dos investidores era embasado: qual o efeito que a Amazon, a BigTech que promoveu a grande disrupção do setor varejista, poderia causar no varejo de remédios? A empresa ainda combinou o anúncio da nova modalidade de venda de remédios com um programa de super descontos que podem chegar a 80% para seus clientes Prime que não tenham seguro e ainda gratuidade na entrega. Quer falar com o farmacêutico? Tem um disponível, online, 24 horas por dia. As entregas são feitas no mesmo dia.

As farmácias americanas reagiram e agora estão focadas em encontrar formas de levar os clientes para as lojas físicas. Querem fazer das farmácias um lugar fácil, acessível e que não seja intimidante para buscar assistência médica. Querem oferecer também outros serviços de saúde. O primeiro passo que encontrar é dar a vacina da Covid-19 e já preparam um mega esquema para poder atender os americanos em suas lojas. Mas essa é a realidade americana. E no Brasil? Quem está se preparando para ser a Magazine Luiza dos remédios? A empresa silencia sobre a chegada do setor de farmácias no Brasil, mas a possibilidade já movimenta os concorrentes. 

Vale um breve histórico da gigante americana para mostrar que essa preparação do setor de drogarias brasileiro não é excesso de zelo: a Amazon demorou duas décadas para entrar no Brasil, mas em menos de dois anos conquistou fatia importante do mercado e já entrega os produtos que vende no país todo. Em boa parte, leva apenas dois dias para fazer a entrega. Nas grandes capitais, apenas um dia. A mensalidade do serviço Prime de frete grátis ainda dá direito a acesso ao streaming da empresa, ou seja, concorre com a Netflix. A empresa conta com grande capilaridade e muitos usuários, algo importante em todo o segmento varejistas. 

Para os analistas, uma das farmácias mais preparadas para enfrentar a concorrência é a Raia Drogasil. A empresa não sente ainda o cheiro da concorrência da Amazon, mas seu planejamento estratégico para os próximos cinco anos já prevê mais digital, mais análise de dados e o fortalecimento de seu marketplace lançado no fim do ano passado.

Durante a pandemia, a empresa mostrou eficiência em entregar qualquer coisa que vende. Mais de 80% dos produtos são entregues em até 4 horas, focado basicamente na entrega feita pelas farmácias vizinhas dos clientes. Qualquer remédio com prescrição pode ser comprado online. Suas vendas digitais saltaram de um percentual de 2% da receita, para mais de 7%. A farmácia lançou um marketplace, que passou a vender outros produtos ligados à saúde que ainda não eram vendidos em suas lojas físicas. Como o quê? Como remédios manipulados.

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Mas apesar de a estratégia digital estar a todo vapor, o presidente da Raia Drogasil, Marcílio Pousada, diz que a empresa vai seguir com sua estratégia de abrir mais e mais lojas físicas. Ele acredita no poder do ponto de venda. Em sua visão, essa será a logística imbatível para fazer frente à competição: o remédio já estar do lado da casa do clientes. Quantos centros de distribuição uma empresa como a Amazon teria que abrir para atender a demanda, pergunta Marcílio. E não é qualquer CD, é um centro que precisa estar preparados para acondicionar medicamentos.

O presidente da Raia Drogasil também diz que outro ponto que faz ele acreditar que os clientes não vão abandonar a loja física é o fato de que eles querem sair do Pronto Socorro e comprar o remédio imediatamente. Não esperar pela entrega. A farmácia inclusive tem, desde 2018, um sistema de compre e retire. Serviço que será incrementado pela venda por WhatsApp já disponível nas lojas das vizinhança dos clientes.

Mas assim como as farmácias tradicionais americanas, as lojas Drogasil também vão passar a oferecer outros serviços relacionados à saúde. Inclusive atendimento médico. As lojas da rede vão passar a contar com ambientes em que os clientes podem fazer consultas médicas rápidas via telemedicina, por exemplo. Marcílio conta ainda que eles trabalham em um aplicativo que possa reunir outros serviços ligados à saúde, como nutrição. E um dos planos estratégicos da empresa também é começar a analisar os dados dos mais de 40 milhões de clientes. Mas no fim das contas, a conta do consumidor pode se restringir a preços.

Impacto

O que vai acontecer se de repente além de frete grátis e TV, a Amazon começar a também vender remédios, com custo baixo, para seus clientes que já pagam o Prime? Nos Estados Unidos, a futurista Amy Webb, que estuda o impacto das tecnologias nos mercados e setores, fez as contas. Os clientes Prime no país somam 118 milhões. Para ela mesmo que apenas 10% deste pessoal pare de comprar remédios prescritos de uma farmácia tradicional, o dano para essas varejistas que faturam hoje 312 bilhões de dólares seria significativo.

O mercado americano é muito diferente do brasileiro. Lá, os remédios são vendidos em embalagens preparadas pelas próprias farmácias, já com a quantia certa prescrita pelos médicos. Isso acontece porque boa parte dos americanos possui seguro para a compra de medicamentos. A Amazon, há alguns anos, chegou a comprar a empresa PillPack que entrega os remédios já em embalagens separadas por dia e hora. No Brasil, nem a venda fracionada de medicamentos é permitida. O que as analistas lembram é que a Amazon é uma empresa de tecnologia. E que está expandindo rapidamente seus tentáculos para o setor de saúde.

Amy Webb fez uma lista. A Amazon já faz telemedicina, tem farmácia, uma plataforma de análise de saúde que padroniza dados clínicos e pode facilitar o caminho da empresa em fazer parceria com mais provedores de saúde e construir seu ecossistema. Lançou uma ferramenta para auxiliar os cuidadores em centros domiciliares de idosos. E o Halo, seu rastreador de fitness de monitoramento de saúde invasivo e ávido por dados, como diz Amy Webb. E tudo isso em 2020. “A Amazon é a empresa de saúde que mais vai crescer no mundo até 2025”, diz outro futurista, conhecido por acertar boa parte do que vê no futuro, Scott Galloway.

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