Análise: Os ‘comunistas’ são nossa salvação


Nenhuma retórica pode mudar a evidência de que o Brasil terá que voltar à linha de frente da produção de vacinas com parcerias competentes com os países que Bolsonaro rotula simplesmente de ‘comunistas’. Profissional de saúde recebe vacina Sputnik V contra a Covid-19 em um hospital regional de Tver, cidade a cerca de 180km a noroeste de Moscou.
Tatyana Makeyeva/Reuters
Com erros e acertos, cada um a seu modo e com políticas mais ou menos rígidas, mas sobretudo claras e centralizadas, os governos dos países ricos europeus começam a conduzir seus cidadãos até o porto da vacinação em massa onde a humanidade espera acordar do pesadelo do ano de 2020.
Ao esforço hercúleo de cada Estado em guerra contra a Covid – confinamento obrigatório, aumento de leitos nos hospitais, paralisação de aeroportos, comércio e indústrias de serviços, além do endividamento estratosférico dos Estados para assegurar um programa de benefícios a desempregados e equilibrar economias em desintegração – somou-se a corrida dos grandes laboratórios da indústria farmacêutica com capacidade para desenvolver antídotos de combate à pandemia, simultaneamente à guerra diplomática travada pelas reservas antecipadas de vacinas capazes de proteger as populações dentro de suas fronteiras.
Foi assim que o Reino Unido foi festejado há poucos dias como “o primeiro país do Ocidente” a deslanchar sua campanha de vacinação. A Alemanha chegou a cronometrar o tempo de aplicação de cada injeção nos centros em montagem acelerada em curso no seu território. A França anunciou que a partir de janeiro disporá de 200 milhões de doses para vacinar 100 milhões de pessoas e vai desembolsar 1 bilhão e meio de euros para assegurar a gratuidade a todos.
CoronaVac é a vacina contra o coronavírus desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac em parceira com o Instituto Butantan
Reuters
Se a ordem global fosse menos competitiva e desigual, seria possível supor que o princípio do fim da pandemia poderia ser visualizado em agosto, quando Vladimir Putin anunciou o registro da Sputnik V, produzida pelo Instituto Gamaleya em Moscou, que acaba de vencer com sucesso a última fase de confirmação de sua eficácia.
Ou mesmo antes, ainda em maio, quando Xi Jinping sinalizou ao mundo um investimento de 2 bilhões de euros para seus laboratórios, se comprometendo perante a 73ª Assembleia da Organização Mundial de Saúde a tornar as vacinas chinesas um bem público mundial. Três meses depois, quase ao mesmo tempo que Moscou, Pequim já tinha não apenas uma, mas três vacinas contra a Covid.
Qualquer pessoa que revele alguma curiosidade sobre os caminhos do mundo sabe que o século XXI tem em cena apenas três atores com peso comparável em capacidade científica, tecnológica e militar, para mover as peças da eterna disputa no nosso sistema estatal: os Estados Unidos, a China e a Rússia.
Pode também facilmente deduzir o tamanho do impacto sísmico de uma pandemia global na movimentação de peças neste tabuleiro. E pode igualmente entender por que as indiscutíveis vitórias da China e da Rússia na corrida pelas vacinas, em vez de comemoradas, foram empurradas para os pés de página dos avatares da mídia ocidental, em notícias invariavelmente pontuadas com um “porém” questionando sua eficácia. Falharam em sua estratégia.
A Sputnik V acaba de vencer a terceira e última etapa científica comprovando sua qualidade. O governo russo já iniciou sua campanha de vacinação em massa no país. E já se passaram dois meses desde que as vacinas do grupo estatal Sinopharm e a CoronaVac do laboratório Sinovac, foram aplicadas experimentalmente em quase um milhão de voluntários na cidade chinesa de Zhejiang, sem que um único caso de não imunidade fosse confirmado.
Apesar das evidências, os europeus preferiram esperar pelas vacinas produzidas no quintal transatlântico – a americana/alemã de Pfizer/BioNTech, a britânica de Oxford/AstraZeneca e a americana da Moderna – financiadas em parte com a compra antecipada de mais de um bilhão de lotes.
No início de novembro, Putin fez um gesto de gentileza a Emmanuel Macron e ofereceu por telefone uma parceria com o Instituto Pasteur para produzir a vacina francesa. A oferta foi entendida como uma incapacidade russa de desenvolver sua própria tecnologia, e a resposta foi soberba e evasiva. Sem Instituto Pasteur, mas também sem Gamaleya, a França já havia garantido a parcela europeia com os laboratórios alemães, os britânicos e os americanos. Os ricos se anteciparam. E assim o estoque das vacinas ocidentais se esgotou antes que o ano acabasse.
Seguindo esta lógica, é muito pouco provável que as vacinas “ocidentais” alcancem o Brasil com a rapidez de que carecem seus cidadãos – como falsamente “chutou” o governo Bolsonaro, diante da pressão crescente contra o massacre contumaz que vem praticando contra a população brasileira. Um país com 210 milhões de habitantes só poderá ser imunizado rapidamente se contar com vacinas de diferentes procedências.
Caberá à China e à Rússia disputar o vasto mercado do resto do mundo. Mais de 50 países já requisitaram, reservaram, compraram ou já estão usando a Sputnik V russa. Venezuela e México, inclusive, além do consórcio de governos nordestinos liderados por Flavio Dino, que, diante da falência do Estado brasileiro, foram os primeiros a darem a largada na corrida contra o tempo. A CoronaVac chinesa, com algumas doses já estocadas pelo governo de São Paulo, está a caminho de várias nações latino-americanas, africanas e asiáticas.
Mesmo com o desmantelamento perverso de suas estruturas públicas de pesquisa científica, o Brasil segue sendo uma referência mundial na manufatura de farmacêuticos e na produção de vacinas em larga escala. Nenhuma retórica pode mudar a evidência de que eles terão que voltar à linha de frente, com parcerias competentes com os países que Bolsonaro, por não conhecer nem mesmo as engrenagens do sistema capitalista que tanto defende, rotula simplesmente de “comunistas”. Como se sabe, a ciência não tem ideologia, e a saúde é um negócio infalível. Uma nação sem saúde é uma nação miserável.
Elizabeth Carvalho é correspondente da GloboNews e da TV Globo em Paris.
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