Bolsonaro muda discurso sobre Covid-19 e traz um pouco de paz à população brasileira

Não se sabe ao certo, mas tudo indica que o presidente teve uma recaída brusca ao falar nesta quarta-feira, 16, na cerimônia de lançamento do Plano Nacional de Vacinação contra a Covid-19. Deve ter sido uma recaída. Bolsonaro falou em união de todos. Governo federal e governos estaduais juntos: “É a união para buscar a solução de algo que nos aflige há meses. Se algum de nós extrapolou, ou até exagerou, foi no afã de buscar essa solução”, disse o presidente, alterando completamente o rumo de sua fala desde o começo de tudo isto que está acontecendo no mundo. A verdade é a seguinte: no início, Bolsonaro tratou o vírus com descaso. Depois tratou a doença com descaso. A seguir, a pandemia. Também tratou com descaso o número de mortos e agora estava desviando esse descaso para a vacina, chegando a dizer que não vai se vacinar e exigindo um “termo de consentimento” dos vacinados, maneira de desacreditar a vacina e pôr medo na população, que implora pela volta da vida normal. De repente, essa mudança. Melhor assim, porque o Brasil merece um pouco de paz. E a população também. Seja como for, na sua fala, Bolsonaro mostrou uma nova postura. Pelo menos naquele momento. Tenho certeza de que Bolsonaro nunca leu um livro de poesia na vida. Se me pedisse uma sugestão, eu recomendaria Walt Whitman, o inventor da poesia norte-americana, para quem o melhor governo é aquele que deixa por maior tempo as pessoas em paz. Ao referir-se à doença, Bolsonaro deu às suas palavras a dimensão do perigo para a vida das pessoas. Acredito que tenha feito isso pela primeira vez. Afirmou que o vírus nos afligiu desde o início. Disse que não sabíamos o que era esse vírus, como ainda não sabemos em grande parte. Observou que nós todos, irmanados, estamos na iminência de apresentar uma alternativa concreta para nos livrarmos desse mal. Nós todos? Irmanados? O que aconteceu? Seja bem-vindo ao mundo dos bons, presidente, daqueles que ainda acreditam, que lutam e respeitam a vida, sem fazer pilhérias que doem no espírito daqueles ainda sentem. 

Já o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, não cabia em si. Mostrava-se feliz. A cerimônia parecia o desfecho de tudo. No entanto, foi apenas o lançamento do plano de vacinação. Não foi desfecho de nada. Onde estão as vacinas? Seja como for,  já é alguma coisa documentada. Pazuello afirmou que o próprio país não tem noção do tamanho do programa de imunização. O problema – conforme disse – é que corre muita desinformação sobre o assunto. Cada vez é uma coisa. E sempre coisas negativas. Fala-se claramente que o Brasil não tem capacidade de conduzir o programa de vacinação num território com esse tamanho. Pazuello falou que todos devem se orgulhar da capacidade brasileira. E lembrou que essa capacidade é representada pelo SUS, obra de governos anteriores. Disse ser necessário levantar a cabeça e acreditar, já que o Brasil tem o maior programa de vacinação e o maior sistema único de saúde do mundo. Além disso, o Brasil é o maior fabricante de vacinas da América Latina. Por fim, o ministro perguntou: “Para que essa ansiedade, essa angústia?”. É fácil responder, ministro Eduardo Pazuello. No fundo, o senhor sabe porque existem essa ansiedade e essa angústia na população. O senhor sabe, especialmente, porque conhece o presidente Bolsonaro de perto e o que ele anda dizendo desde que tudo isto começou. A angústia e a ansiedade chegaram no auge agora, quando começou a se falar em vacinação, e o presidente, para não perder o costume, só falou contra. Bolsonaro é contra tudo. E as últimas intervenções de Bolsonaro nessa discussão da vacinação desestimularam mesmo, porque além do descaso, passou a pôr medo numa população que vive assustada há muito tempo, contando mais de 180 mil mortos vítimas do vírus no Brasil. Quem aguenta isso, tendo um presidente que parece jogar contra, com um negativismo que já passou dos limites possíveis de engolir? Se Bolsonaro não vai tomar a vacina, como informou, o problema é dele, mas não induza o povo a fazer o mesmo. Afinal, Bolsonaro é o presidente da República. 

O ministro Eduardo Pazuello afirmou, ainda, que a população não precisa se preocupar com a logística do programa de vacinação. Ele garante que toda a estrutura foi planejada e já está pronta. E mais: informou que o Brasil tem mais de 300 milhões de doses de vacina já negociadas. Pazuello assinalou que não vê nada de errado no plano. Está tudo correto, observando que o país está no caminho certo. O ministro deixou claro que todas as vacinas produzidas pelo Instituto Butantan, de São Paulo, pela Fiocruz ou qualquer outra empresa, a prioridade sempre será o SUS. “Qualquer fumaça, qualquer discussão anterior, ficou na discussão”, disse o ministro, confiante no que estava dizendo. Por fim, Pazuello informou que a vacina emergencial exigirá o chamado “termo de consentimento”. Só a vacina emergencial. Um assunto delicado, porque, no fundo, representa uma afronta. O Brasil é o único país do mundo a tomar essa medida, mesmo com a chamada vacina emergencial. 

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, falou aos jornalistas nesta quarta-feira, 16, dizendo que o ministro Eduardo Pazuello é um desastre. E a sociedade pagará a conta de tudo o que está acontecendo. Observou que o ministro é um desastre primeiro para o país, depois para o governo. De acordo com Maia, a sociedade já começou a compreender, a área médica especialmente. Maia foi além e afirmou que a incompetência do ministro poderá comprometer o programa de vacinação. Maia chegou a dizer que Pazuello vai comprometer a imagem do Exército brasileiro. Maia está com raiva do mundo. Fala-se que o governo não pensa mais nesse “termo de responsabilidade” para todas as vacinas a serem aplicadas no país. Mas não se tem certeza disso. Nunca se sabe o que Bolsonaro tem na cabeça. Sabe-se que essa ideia é dele e isso se resume numa grande covardia, porque a pessoa que vai se vacinar tem a impressão que estará assinando sua sentença de morte. Tem dó, presidente! Tem dó, isso não é civilizado! Basta o registro da Anvisa. Ou a Anvisa não em mais autonomia para decidir sobre essa questão? A Anvisa registra a vacina e o Estado passa a ser responsável, sim. E se não for assim, é muita covardia com uma população que está desesperada para voltar ao trabalho e recomeçar sua vida. Não pode ser diferente.  

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