De saída após 8 anos, secretário de Saúde de Campinas traça balanço, lista projetos encaminhados e diz ter ‘consciência limpa’ sobre Ouro Verde


Em entrevista ao G1, Carmino de Souza indica programa de residência e Hospital da Mulher como ‘heranças’ para que novos gestores concretizem, elogia enfrentamento da pandemia, defende vacinação emergencial e diz que retornará às atividades acadêmicas na Unicamp. Secretário de Saúde de Campinas, Carmino de Souza, durante transmissão por rede social nesta sexta-feira
Fernanda Sunega
Carmino de Souza vai começar 2021 sem o aposto de secretário de Saúde de Campinas (SP) que o acompanhou por oito anos. O médico hematologista assumiu o cargo em 1º de janeiro de 2013, mesmo dia em que Jonas Donizette (PSB) foi empossado prefeito, e vai se despedir da administração no próximo dia 31 para focar em projetos acadêmicos na Unicamp. O longo período — ele mesmo diz que é o titular da pasta de saúde mais longevo da história da metrópole — foi marcado por problemas de diversas ordens enfrentados pela secretaria.
Em 52 minutos de entrevista concedida ao G1, o secretário repassou o tempo em que comandou a saúde campineira, comentou as dificuldades vividas e o que se orgulha de ter feito. Defendeu, também, a vacinação emergencial para Covid-19 e a necessidade do próximo secretário ter como norte os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), além de comentar sobre o futuro pessoal.
Nos oito anos, Campinas viveu as três maiores epidemias de dengue da história, cujo pico foi de 63,6 mil casos em 2015. Já em 2017, o Ministério Público (MP) deflagrou a Operação Ouro Verde, na qual aponta que a Organização Social (OS) Vitale, antiga gestora do hospital, desviou recursos em um esquema com participação de um ex-servidor da pasta. Neste ano, o derradeiro da gestão, a pandemia do novo coronavírus já causou a morte de 1,4 mil campineiros.
“Desde que eu entrei aqui foram inúmeros os problemas. Você citou alguns, mas inúmeros problemas. Esses são os mais notórios, mas nós tivemos problemas com a demissão em massa dos funcionários do Cândido Ferreira, determinado pelo Ministério Público, tivemos o problema do Vera Cruz, das mortes na ressonância, então nós tivemos um número enorme de problemas e foram sendo vencidos um a um”, afirma o secretário.
Gestão
Além de indicar políticas que se orgulha de ter implantado, como a reestruturação da maioria das unidades de saúde — problema que o incomodava desde que assumiu a pasta — o Mais Médicos Campineiro e o Centro de Tratamento de Queimaduras, Carmino também listou projetos que gostaria de ter finalizado, mas que, segundo ele, ficam encaminhados.
Segundo o secretário, a atual administração vai deixar o escopo do Hospital da Mulher, unidade focada na saúde feminina, pronto para ser licitado em 2021. Já o Mais Saúde Municipal, um programa de residência para profissionais de saúde de 10 carreiras com 120 bolsas, terá o projeto de lei também preparado para ir à Câmara Municipal.
Mesmo fora da administração, o secretário também promete se empenhar para ajudar a viabilizar um novo centro de coleta de doação de sangue próximo do Mário Gatti.
“Nosso centro de coleta da Unicamp é bom, mas distante. O do Mário Gatti ficou pequeno pelo tamanho e pela demanda que tem. Nós já temos o terreno, já temos o projeto, não é um projeto caro e eu vou trabalhar bastante por ele, não como secretário, mas fora da secretaria e acho que tenho como ajudar a fazer isso”.
Na lista dos feitos que afirma terem sido positivos ele inclui, também, o enfrentamento à pandemia. O médico pondera sobre as vidas perdidas, mas defende que houve atendimento aos pacientes que precisaram. Em junho, Campinas teve 20 dias de lotação máxima nas UTIs do SUS municipal. No mesmo mês, profissionais de saúde apontaram dificuldades para o atendimento dos pacientes.
“Neste ano em particular, me orgulha como nós enfrentamos a pandemia do coronavírus, porque as imagens que nós víamos da Europa… eu nunca imaginei Nova York de joelhos, vala rasa, vala comum, contêineres refrigerados com cadáveres dentro, isso nós não vimos em Campinas. Todos os pacientes tiveram acesso, tiveram dignidade. Me dói ter perdido 1,4 mil, aproximadamente, concidadãos. Isso para um médico que passa a vida tentando ajudar as pessoas, salvar a vida das pessoas, ver isso dói muito, mas nós fizemos esse enfrentamento com absoluto profissionalismo”.
Crise no Ouro Verde
Hospital Municipal Ouro Verde, em Campinas
Carlos Bassan/Prefeitura de Campinas
A investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) para apurar desvio de verba do Hospital Municipal Ouro Verde tem, até agora, três processos criminais aceitos pela Justiça e uma investigação da Procuradoria-Geral de Justiça contra o prefeito Jonas Donizette.
O caso figura entre os de maior repercussão negativa da atual administração, principalmente por envolver saúde pública e uma unidade responsável por atender parte considerável da população.
O secretário, que não é réu nas ações, defende que antes mesmo da operação a pasta já havia identificado que a OS descumpria termos do contrato e cobrava a execução correta. Disse, ainda, que a preocupação era manter o funcionamento do hospital e que uma eventual quebra imediata do acordo com a Vitale poderia gerar problemas judiciais.
“Você não cancela um contrato com muita facilidade. Não é assim, porque você cancela hoje e amanhã tem uma liminar fazendo voltar atrás, então todos os esforços foram feitos no sentido de que a OS trabalhasse e funcionasse. Todos os esforços foram feitos nesse sentido. A ruptura do contrato poderia levar a uma absoluta ruptura do atendimento, e isso é sempre a preocupação maior do secretário”.
Souza afirma que tem a consciência tranquila, mas admite muita chateação com o possível envolvimento do ex-diretor do Departamento de Contas, Anésio Corat Júnior, um dos réus. “Eu realmente nunca imaginei que pudesse acontecer porque é um profissional de carreira que tinha toda a confiança não só minha, mas de todos os colegas que conheciam ele há décadas”.
“O que aconteceu com a OS Vitale aconteceu porque nós fomos extremamente rigorosos no acompanhamento do contrato de gestão. O contrato de gestão tinha metas e a gente cobrava todas essas metas e aquilo o não era cumprido a gente cortava. A gente foi tirando aquilo que não era produzido”.
“No começo do contrato de gestão parecia que tudo caminharia bem e isso não aconteceu. Eu lamento muito, mas, felizmente, quando aconteceu o problema da OS nó estávamos pronto para fazer um outro modelo, e fizemos. Aliás, o Hospital Ouro Verde nunca parou, mesmo durante o pior período ele continuou aberto e oferecendo serviços. Hoje o Hospital Ouro Verde está sob a gestão da Rede Mário Gatti como gestão primarizada, com algumas parcerias ligadas mais a linha de cuidado e continuou prestando serviço, foi fundamental agora na pandemia”.
Transição
Carmino foi incluído na equipe de transição do prefeito eleito, Dário Saadi (Republicanos). Durante o evento no início do mês, o futuro e o atual prefeitos explicaram que o médico não seguiria na administração. Em meio a elogios, Carmino recebeu um brasão da cidade pelos serviços prestados.
Na quarta-feira (9), esteve no anúncio do novo titular da saúde para 2021, onde também teve o trabalho elogiado na secretaria, que define como “quase uma administração à parte, de tão grande que ela, de tão grande que ela é e de tão grande que são os problemas”.
A entrevista ao G1 foi concedida antes do anúncio do novo secretário. Carmino afirmou que não seria o responsável por escolher o sucessor, pois a decisão é prerrogativa do prefeito eleito, mas apontou quais características o secretário deve ter.
“Para mim é muito importante que seja uma pessoa que conheça a administração publica, que esteja muito envolvido nos princípios do SUS, que é um patrimônio nacional, um patrimônio da população brasileira. Tem que ser cuidado, tem que ser preservado e acho que o secretário tem que ter esse engajamento em defesa do sistema público de saúde”.
Secretário de Saúde, Carmino de Souza, e o prefeito Jonas Donizette. Ambos deixam a administração em 31 de dezembro
Carlos Bassan/Prefeitura de Campinas
Leia, abaixo, outros pontos da entrevista.
Motivo da saída
“A razão de não querer continuar é que já estou há oito anos, eu certamente sou o secretário de saúde mais longevo do município de Campinas e um dos mais longevos do Brasil. A média de permanência é de secretários de Saúde é 10 meses, 11 meses… E não foi por problema com o Dário, muito pelo contrário. O Dário é meu colega, meu amigo de longa data, eu tenho titulo de cidadão campineiro que ele propôs. O problema é que eu estou, a essa altura, com 69 anos, há oito anos na administração da saúde, e quero voltar para academia um pouco para consolidar algumas coisas. Eu tenho, ainda, alguns projetos no campo acadêmico e no campo pessoal que preciso encaminhar. Espero que Deus me conceda pelo menos 10 anos de vida para eu fazer algumas coisas que tenho que fazer.
A secretaria é muito honrosa, eu diria para você que é um trabalho que me ensinou demais, eu acho que mais aprendi aqui do que ensinei, tem um corpo técnico maravilhoso que trabalha aqui. (…) Eu me sinto muito orgulhoso em sair daqui com um bom conceito em relação aos meus colegas, em relação a vocês [imprensa], em relação ao prefeito a ponto de ele me dar o brasão da cidade, a ponto do prefeito eleito ter feito elogios muito grandes e eu quero dizer uma coisa: eu sou servidor público, eu vou continuar ajudando. Uma vez secretário, sempre secretário.
Eu até hoje, mesmo tendo sido secretário de estado em 1993 e 1994, eu vejo a Secretaria de Estado como minha casa, como eu vejo aqui como minha casa e a Unicamp como minha casa. Mas a vida é feita de ciclos mesmo, não há nenhuma razão de desconforto para saída. É uma decisão muito pensada, muito discutida com a minha família, que na verdade nunca quis que eu fosse secretário por causa dos riscos que o cargo público coloca. E eu acho que é um compromisso de servidor público assumir determinadas posições de gestão pública e contribuir para a sociedade, dentro daquilo que é possível contribuir. Quem vier para o meu lugar vai ter sempre o meu apoio, a minha ajuda. Eu aprendi na minha vida que se eu puder ajudar, eu ajudo, [mas] atrapalhar eu nunca vou porque a gente não faz as coisas para atrapalhar, a gente faz para ajudar e é isso o meu espírito. Sempre foi e vai continuar sendo”.
Desafio de comandar a secretaria
“Eu sou servidor de carreira, sou professor titular de Hematologia e Hemoterapia do Departamento de Clínica Médica da Unicamp desde 2001, mas sou professor da Unicamp desde 1979, portanto sou professor há mais de 40 anos da Unicamp. Já tinha experiência de gestão pública grande, fui secretário de estado em 1993 e 1994, fui fundador e coordenador do Hemocentro da Unicamp por 14 anos e eu vim para a prefeitura em um momento muito difícil aqui da saúde, um momento onde a saúde tinha um monte de problemas. Foi muito honroso o convite do prefeito, eu inicialmente não considerava a possibilidade, até porque eu estava fazendo um tratamento de câncer naquela época, com radioterapia e tudo, mas acabei topando o desafio e considero, talvez, uma das experiências mais válidas da minha vida ter ficado oito anos aqui, com todas as dificuldades. A Secretaria de Saúde quase uma administração a parte, de tão grande que ela, de tão grande que ela é e de tão grande que são os problemas. Você é secretário 24 horas por dias durante todos os dias do ano. Eu tenho que cuidar de 118 unidades que tem no município e fazer toda essa inter-relação dentro do Sistema Único de Saúde”.
Relação com Jonas
“O atual prefeito, o prefeito Jonas, eu conhecia muito pouco antes de ele me convidar [para ser secretário], mas a gente foi criando uma relação de muita confiança, muita amizade e, na pandemia, nós nos aproximamos muito porque a tomada de decisão na pandemia é muito difícil, todos os dias você tem que tomar alguma decisão. Todo dia a gente tem que saber para onde nós vamos caminhar para dar segurança para a população, segurança para os trabalhadores, enfim, segurança para o sistema como um todo. E essa enfrentamento da pandemia eu acho que me aproximou mais ainda do prefeito porque nós passamos a ser um confidente do outro, das inseguranças, das tomadas de decisão sempre compartilhadas. Então foi assim”.
Balanço da gestão
“Primeiro eu acho que a gente conseguiu recuperar estruturalmente a saúde. Hoje, se você for visitar, a grande maioria das nossas unidades básicas de saúde são modernas, são confortáveis. Em outras palavras, são dignas para os trabalhadores e para os pacientes, ‘né’? Me orgulha muito ter uma unidade de queimados, eu fui um grande queimado e era obsessão minha fazer uma unidade, isso me orgulha. O Hospital de Câncer, o AME cirúrgico. Você se lembra, aonde hoje o AME é uma obra maravilhosa, cuidando, atendendo, ali eram galpões em ruina e hoje você tem uma unidade. Me orgulha ter ajudado a colocar a saúde mental em ordem, hoje você tem o convênio do Cândido Ferreira está regularizado, os pacientes têm acesso. Me orgulha ter criado alguns projetos, como o Mais Médicos Campineiro, que agora vai ser o Mais Saúde Campineiro, onde nós passamos a ter um programa robusto de formação de pessoas não só para Campinas, mas para o sistema de saúde como um todo em uma área prioritária, que é a área da saúde e comunidade.
Me orgulha ter trabalhado com os vários departamentos, o trabalho junto ao Devisa [Departamento de Vigilância Sanitária]. Neste ano em particular, me orgulha como nós enfrentamos a pandemia do coronavírus, porque as imagens que nós víamos da Europa… eu nunca imaginei Nova York de joelhos, vala rasa, vala comum, contêineres refrigerados com cadáveres dentro, isso nós não vimos em Campinas. Todos os pacientes tiveram acesso, tiveram dignidade. Me dói ter perdido 1,3 mil, aproximadamente, concidadãos, isso para um médico que passa a vida tentando ajudar as pessoas, salvar a vida das pessoas, ver isso dói muito, mas nós fizemos esse enfrentamento com absoluto profissionalismo, dignidade. Eu acho que Campinas deu um exemplo, e não é o secretário. Toda a cidade, a área privada, a Unicamp, a PUC, os hospitais todos e é claro a secretaria, a Rede Mário Gatti, nós juntos fizemos um grande trabalho de enfrentamento.
Isso aconteceu também nas arboviroses, a gente tem indicadores de mortalidade de dengue baixíssimos quando comparados com outros locais. Não tivemos explosão de chikungunya como se esperava, não tivemos zika na nossa cidade, então acho que é uma somatória que muito provavelmente vou procurar reportar todas essas experiências em algum momento porque foram muito ricas, todas elas. (…) Nada é perfeito na vida, não há como acertar sempre, é presunçoso, mas eu tenho certeza que vou sair com a sensação do dever cumprido e vou tentar, ainda neste mês, que eu não saí ainda, ainda estou enfrentando todas essas flutuações da pandemia e tomando decisões, e vou estar sempre a disposição da sociedade de Campinas. Eu não sou campineiro, eu sou santista de nascimento, mas tudo que eu tenho na vida, de família e profissão, eu devo a cidade e acho que meu trabalho aqui foi tentar devolver à cidade aquilo que ela me deu”.
Projetos que ‘ficaram’ para 2021
“Eu posso listar algumas coisas. Eu já falei, o Hospital da Mulher está pronto para ser licitado, nós temos o Programa Mais Saúde Municipal, que é um programa de residência multiprofissional para profissionais de saúde não médicos, então são 10 carreiras com 120 bolsas, nós já temos as 120 bolsas. São 60 por ano e nós já estamos fazendo o processo seletivo e vamos deixar prontinho um projeto de lei para ser votado e aprovado pela Câmara no comecinho do ano que vem. Essas bolsas todas são pagas com recurso federal, não implicará nenhum custo para o município.
Eu tenho uma coisa que eu mesmo vou continuar trabalhando que é criar ao lado do Mário Gatti, já temos o terreno, já temos o projeto, um grande centro de coleta de sangue. Nós estamos vendo, principalmente na pandemia, e vocês têm nos ajudado, a EPTV coloca coisas importantes no ar sobre isso, nós precisamos de um grande centro de coleta de sangue. Nosso centro de coleta da Unicamp é bom, mas distante, o do Mário Gatti ficou pequeno pelo tamanho e pela demanda que tem. Nós já temos o terreno, já temos o projeto, não é um projeto caro e eu vou trabalhar bastante por ele, não como secretário, mas fora da secretaria e acho que tenho como ajudar a fazer isso.
Tem alguns centros de saúde que estão prontinhos com recursos para fazer. O do Campina Grande e o do Sirius/Cosmos, ambos na região noroeste. São os únicos dois centros de saúde que a gente não conseguiu fazer. A gente fez vários na região noroeste, mas esses dois serão licitados no começo do ano, também está tudo prontinho. (…) Ah, tem Sousas também. Sousas foi reformado, mas precisa de um Centro de Saúde novo porque ficou pequeno pela demanda. O bairro [distrito] cresceu muito, então também tem um projeto para fazer um centro de saúde em Sousas”.
Vacina de Covid-19
“Espero que a Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] entenda a importante de liberar a vacina emergencialmente, porque nós não estamos vivendo o pior momento da pandemia aqui, mas o mundo está vivendo o pior momento da pandemia. Hoje tem mais de cem mil pessoas internadas nos EUA, tem dia com mais de 2 mil mortes nos EUA e na Europa também, então a vacina, hoje, é absolutamente premente. Antes nós não tínhamos a vacina, hoje nós temos, se nós vamos esperar os estudos de fase três é desnecessário, porque a urgência sanitária é tão grande que não tem porque esperar a finalização dos estudos de fase três. Estudos de fase três são estudos muito demorados (…) dependem do tempo, e o tempo você não vence, tem que esperar passar e fazer a avaliação.
Agora, a liberação baseada em fase dois, ou mesmo em fase três incompleta, ela pode ser feita. Nós estamos vivendo uma urgência sanitária. A Inglaterra já reconheceu isso e está abrindo a vacinação pelo menos para os grupos mais vulneráveis, que são aqueles que morrem. Hoje o perfil da epidemia é outro, o perfil é de gente muito jovem, de 19 a 40 anos, isso é o que estamos vendo aqui, e morrem muito menos. Os que morrem são os idosos ainda, na sua grande maioria. Então proteger os profissionais de saúde, proteger os grupos vulneráveis você pode fazer , vamos dizer, com essa fase excepcional. Não vejo nenhuma razão para esperar a conclusão dos estudos de fase três. Isso é, eu vou usar uma palavra, é um cientificismo, não há necessidade de finalizar. Nós temos a vacina, assim que ela fisicamente existir, (…) nós temos que vacinar, temos que ter essa autorização excepcional já sabendo que a vacina é segura. Esse é o ponto mais importante, a biossegurança. Se ela é eficaz 90, 80, 70, 100% isso importa menos, porque o importante é a gente proteger. A medida em que você protege um, você quebra um elo de uma cadeia”.
Operação Ouro Verde
“Olha, o Ouro Verde, o que aconteceu com a OS Vitale aconteceu porque nós fomos extremamente rigorosos no acompanhamento do contrato de gestão. O contrato de gestão tinha metas e a gente cobrava todas essas metas e aquilo o não era cumprido a gente cortava. A gente foi tirando aquilo que não era produzido. A OS foi selecionada por um processo público, foi uma concorrência publica, o secretário não participa disso, quero deixar bem claro. Eu nem conhecia a Vitale, como também conhecia muito pouco a que estava aí a gestora anterior, [SPDM], mas a Lei de OSs que foi construída exigia um certame, esse certame foi feito. Tinha uma comissão intersetorial que fez toda a avaliação e tomou a decisão de quem deveria ganhar e depois nós fizemos todo o acompanhamento. O que me deixa muito chateado foi o que aconteceu com um dos nossos servidores aqui que eu realmente nunca imaginei que pudesse acontecer porque é um profissional de carreira que tinha toda a confiança não só minha, mas de todos os colegas que conheciam ele há décadas, eu não o conhecia antes. Só isso, porque o resto, em relação a OS, nós fizemos todo o nosso trabalho de controle, avaliação, auditoria e o problema da OS de perder a capacidade de fazer a gestão do hospital se deveu a sua incapacidade de fazer a gestão do hospital, porque nós nunca deixamos de pagar. No começo do contrato de gestão parecia que tudo caminharia bem e isso não aconteceu. Eu lamento muito, mas, felizmente, quando aconteceu o problema da OS nó estávamos pronto para fazer um outro modelo, e fizemos.
Aliás, o Hospital Ouro Verde nunca parou, mesmo durante o pior período ele continuou aberto e oferecendo serviços. Hoje o Hospital Ouro Verde está sob a gestão da Rede Mário Gatti como gestão primarizada, com algumas parcerias ligadas mais a linha de cuidado e continuou prestando serviço, foi fundamental agora na pandemia.
Eu acho que deu uma exposição pública muito grande a questão do Ouro Verde, e tinha que dar mesmo, mas eu tenho a minha consciência tranquila de que nós fizemos absolutamente tudo. Tanto que, com tudo que aconteceu no Hospital Ouro Verde, eu não tenho nenhuma citação, nunca ninguém falou do meu trabalho em relação a isso.
E eu acho que a gente recolocou o Hospital Ouro Verde na sua dimensão correta e estamos cobrando da organização social que devolva os recursos que foram julgados irregulares. Isso a área jurídica está correndo atrás porque é dinheiro público”.
OS Vitale
“Você não cancela um contrato com muita facilidade. Não é assim, porque você cancela hoje e amanhã tem uma liminar fazendo voltar atrás, então todos os esforços foram feitos no sentido de que a OS trabalhasse e funcionasse. Todos os esforços foram feitos nesse sentido. A ruptura do contrato poderia levar a uma absoluta ruptura do atendimento, e isso é sempre a preocupação maior do secretário. O que eu disse agora há pouco: não paramos de atender em nenhum momento e, segundo, nenhum trabalhador da OS, nenhum trabalhador deixou de receber o que tinha que receber. Nós fizemos um trabalho muito bom com o Ministério Público do Trabalho e não tivemos reféns dessa crise, nem pacientes e nem trabalhadores. Todos receberam seus direitos. Agora, a OS tem lá os seus problemas que ela precisa resolver porque isso está correndo na Justiça e acho que não é rápido resolver. Mas eu tenho minha consciência tranquila de que a gente fez tudo o que podia fazer e fui sereno de não fazer algo que pudesse causar um colapso no atendimento”.
Rede Mário Gatti
“Arthur, eu não sou contrário ao modelo de OSs, quero deixar bem claro. O problema não estava no modelo, estava na OS que cuidava. A gente já tinha no tribunal de contas inúmeras sinalizações de que tinha que mudar o processo. O processo que existia anteriormente era um processo que tinha sido considerado irregular pelo Tribunal de Contas porque usava uma modalidade de convenio que não era aceitável. Hoje acho que está funcionamento essa gestão primarizada com parcerias baseadas principalmente na linha de cuidado. Esse modelo é econômico e é um modelo que nos permite ter o hospital aberto, porque o Hospital Ouro Verde primarizado completamente não caberia na nossa Lei de Responsabilidade Fiscal pelo tamanho. O hospital tem 1,4 mil, 1,5 mil pessoas e esse tamanho faria, do ponto de vista de salários, que a gente ultrapassasse os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal. Então é por isso que o Hospital Ouro Verde precisa ter parcerias para que a gente possa prestar serviços em infringir a lei. Agora, entregar o hospital para OS eu acho que isso não vai acontecer mais”.
Futuro pessoal
“Eu sou professor da Unicamp, eu volto para minhas atividades acadêmicas normais, não tem nada de diferente. Talvez alguma coisa de nível internacional. Eu tenho uma vinculação muito grande com a Itália, preciso voltar para fazer algumas coisas que eu já estou fazendo, principalmente em Torino e na Apúlia com colegas. São trabalhos importantes, mas nesse momento que eu não posso sair daqui o meu projeto é voltar para a universidade e retomar o meu trabalho lá”.
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