Elitizada, carne é desafio para pecuarista e para consumidor

As carnes passam a ser, a partir de agora, um desafio muito grande tanto para produtores como para consumidores.

Do lado da produção, os preços estão em patamares recordes, o que gera renda, mas os custos vão pressionar cada vez mais, reduzindo as margens de ganho.

Um dos pontos de maior relevância para o pecuarista, o bezerro tem participação de 70% nos custos. O preço recorde atual da arroba foi obtido com a compra de um bezerro em valores menos pressionados.

A própria aceleração dos valores da arroba, principalmente devido às exportações, elevou o custo do bezerro, aumentando ainda mais os gastos do pecuarista.

O desafio para quem paga pelo bezerro um valor bem mais caro agora é conseguir repassar esses custos adiante.https://venha.leraqui.net/wp-content/uploads/2020/12/transporte20de20gado20vivo.html

E essa operação de comprar o bezerro na baixa e vender o boi na alta é rentável. A possibilidade, porém, de a compra do bezerro ter sido na alta, como ocorre agora, e a venda do boi ser a um valor mais depreciado, exigirá muita atenção e gestão dos pecuaristas.

A avaliação é de César de Castro Alves, consultor de agronegócio do Itaú BBA, feita nesta terça-feira (24) em um evento do banco para avaliar a agropecuária neste ano e tendências para o próximo.

Os desafios, contudo, não são somente para os produtores. A carne bovina não tem mais espaço para novas altas. Seu custo fica inviável para o consumidor e traz preocupação para o pecuarista, que terá dificuldade em repassar novos custos.

Do lado do consumidor, o desemprego elevado, o fim do auxílio emergencial e as incertezas da economia o colocam cada vez mais distante dessa proteína. A carne está elitizada, diz Alves.

Apesar da continuidade das exportações, o quadro para 2021 pode ser menos confortável para a bovinocultura.

A suinocultura, que deverá bater recorde de exportação neste ano –acima de 1 milhão de toneladas– mantém boas margens na atividade. A produção interna cresce 5%, e a exportações, 40%.

O desafio, segundo Alves, é saber até quando os chineses vão ser grandes importadores, como ocorre atualmente por causa da peste suína africana. Estão sendo feitos investimentos no setor na China e no Brasil. É preciso considerar, porém, que o mercado interno é muito sensível e não suportaria um exagero na produção.

No caso do frango, a situação é um pouco mais complexa. É um ano difícil. Os preços caíram em dólar e houve aumento de custos. A solução é um aumento de exportação com preços melhores ou uma redução de produção.

No caso dos grãos, a líder soja deverá ter um balanço global mais apertado. Após a safra menor do que prevista nos Estados Unidos, os olhares se voltam para a América do Sul, que tem problemas climáticos, segundo Guilherme Bellotti, gerente de consultoria de agronegócio do Itaú BBA.

As margens de ganho deste ano são boas e vão continuar porque os produtores fizeram um volume grande de vendas antecipadas a preços vantajosos.

Uma grande dúvida é a concentração de plantio e de replantio da oleaginosa nas últimas duas semanas. Além de dificuldades na colheita e na armazenagem de um volume tão grande em pouco tempo, há o risco de um eventual fator climático adverso no período. Afetaria grande parte da produção brasileira.

No caso do milho, não há espaço para quedas, segundo Bellotti. Exportação e consumo interno deixam estoques semelhantes aos da safra anterior. Lá fora, Estados Unidos e Ucrânia, dois importantes participantes do mercado internacional, tiveram safras menores.

Por aqui, a região Sul do Brasil e a Argentina merecem atenção, devido à La Niña, que reduz a ocorrência de chuvas.

Os analistas do Itaú BBA avaliaram também o mercado de café, que, por estar em um ano de bienalidade, terá produção menor. A próxima safra, que depende da florada de agora, poderá recuar para um volume entre 54 milhões e 58 milhões de sacas, abaixo dos 68 milhões da anterior.

Uma quebra mais acentuada da safra poderá dificultar o cumprimento na entrega dos contratos já feitos pelos produtores. Além de eventual redução no volume produzido, o café, devido ao clima, poderá ficar fora do padrão de qualidade estipulado nos contratos, segundo Alves.

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