Entenda a controvérsia sobre o secretário de Defesa dos EUA nomeado por Biden


Por estar reformado há apenas 4 anos, general Lloyd Austin viola a legislação e depende do aval do Congresso para tornar-se o primeiro negro a chefiar o Pentágono General Lloyd Austin III, em foto de 2015. Ele deverá ser o escolhido de Joe Biden para chefiar o Pentágono
Pablo Martinez Monsivais/Arquivo/Reuters
O presidente eleito dos EUA mexeu num vespeiro ao nomear o general aposentado Lloyd Austin para chefiar o Pentágono. Joe Biden irritou republicanos, mas sobretudo congressistas democratas, de quem depende para dar o aval ao ex-comandante do Comando Central para assumir o cargo.
Não está em questão a competência de Austin, que fez uma carreira militar exemplar por 41 anos e seria o primeiro secretário de Defesa negro do país, mas a violação da Lei de Segurança Nacional, de 1947: o controle das forças armadas deve ser civil. Se o posto for exercido por um militar, ele deve estar aposentado há pelo menos sete anos.
Por não preencher os requisitos — Austin se reformou em 2016 — o escolhido de Biden precisará de uma licença especial do Congresso para desempenhar a função. Pela segunda vez em apenas quatro anos, um general seria chefe do Pentágono, contrariando o estatuto em vigor.
Em 2017, o Congresso deu licença especial a Jim Mattis, general aposentado nomeado por Trump, que ficou no cargo por dois anos até se desentender com o presidente. Antes, isso só tinha ocorrido uma vez, em 1950, quando o então presidente Harry Truman nomeou George Marshall.
A licença concedida a Mattis funcionou também como uma salvaguarda para frear os impulsos de Trump, “uma influência controladora na tomada de decisões de um presidente perigoso e incapaz”, conforme explicou Bruce Riedel, membro do Centro de Política do Oriente Médio da Brookings Institution.
O general Lloyd Austin, comandante das forças norte-americanas no Iraque, cumprimenta os últimos soldados a deixar o país, em foto de 2016.
Lucas Jackson / AP Photo
Especialistas argumentam, contudo, que a dispensa não pode ser uma norma. Um militar associado ao cargo automaticamente o faz atuar ainda preso à conduta das forças armadas. Além disso, o Pentágono já tem uma liderança militar sênior, o chefe do Estado-Maior Conjunto. Ele atua como conselheiro militar do presidente, em contraste com o secretário de Defesa, que deve fornecer uma supervisão civil das forças armadas, como analisa Caitlin Talmadge, outra integrante da Brookings Institution.
O presidente eleito estava ciente do desgaste que enfrentaria ao escolher Austin, que entre 2013 a 2016 chefiou o Comando Central dos EUA, responsável por supervisionar as operações militares no Oriente Médio.
Biden vê no general qualidades fundamentais para o cargo e imprescindíveis no momento: personalidade e liderança.
Como vice-presidente de Obama, aproximou-se do general. “Passei incontáveis horas com ele, no campo e no Sala de Crise da Casa Branca. Procurei seu conselho, vi seu comando e admirei sua calma e seu caráter. Ele é a definição de um patriota”, justificou.
São argumentos que fizeram a equipe de transição despachar uma tropa de choque ao Capitólio para fazer lobby pelo militar, conhecido como “general invisível” pelo perfil discreto, demarcando distância dos holofotes.
Biden anuncia general da reserva para secretário de defesa
A resistência está também no campo aliado e causa desconforto. Vários senadores democratas anunciaram que se oporiam a conceder uma dispensa ao general reformado para tornar-se secretário de Defesa.

Entre eles, os ex-pré-candidatos à Presidência Bernie Sanders e Elizabeth Warren, que há quatro anos votaram contra a indicação de Mattis. Por coerência, dizem que farão o mesmo com Austin, embora não questionem seu prestígio ou sua experiência.
Como primeiro negro a chefiar o Pentágono, o respeitado general 4 estrelas está em sintonia com a diversidade prometida por Biden em seu Gabinete. Contudo, a nomeação destoa de uma importante norma democrática: o controle civil dos militares.

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