A hora do Arenão

 

Três dias depois das eleições municipais, o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do Progressista (PP), postou um vídeo nas redes sociais. Dirigindo-se à câmera, ao som de um jingle de campanha, ele parabenizou os candidatos do partido pelo bom resultado nas eleições. E não era para pouco – o Progressista chegará em 2021 como a segunda maior força política nos municípios brasileiros, com 682 prefeituras conquistadas até o primeiro turno. “O grande resultado alcançado comprova, mais uma vez, a força dos Progressistas” disse. “Aproveito para reafirmar que o partido seguirá compromissado em apoiar seus mandatos, garantindo que os nossos municípios recebam os recursos e façam parte da nossa parceria com o governo federal.” O Partido Progressista, que compõe a direita conservadora, foi o segundo partido com mais vereadores eleitos neste ano. O salto em relação ao último pleito também aconteceu nas candidaturas do DEM, legenda que tem a mesma origem do PP. Estas eleições municipais trouxeram os herdeiros da Arena (Aliança Renovadora Nacional), partido de sustentação da ditadura militar, de volta ao centro do jogo político. 

 

Em 1982, ainda durante a ditadura, duas forças políticas dominavam o cenário municipal. O PDS (que foi mudando de nome e de rosto até virar o atual Partido Progressista), sucessor da velha Arena dos anos da ditadura, comandava mais da metade dos municípios brasileiros. A grande alternativa de oposição era o PMDB, herdeiro do MDB. Também eram da oposição partidos como os recém-nascidos PT e PDT. Um racha no PDS deu origem ao PFL, que se aliou ao PMDB para eleger Tancredo Neves no Colégio Eleitoral em 1985. Na eleição para governador, em 1986, o PMDB disparou e venceu em 22 dos 23 estados. Nos anos seguintes, os peemedebistas consolidaram sua sólida base municipal e dividiram o protagonismo nas prefeituras com o PFL. 

 

A centro-direita dominou as eleições municipais até que dois outros partidos começaram a ganhar força: PSDB, nos anos 1990, e PT, principalmente após a eleição do ex-presidente Lula. Foi justamente nesse momento que o PFL (atual DEM) afundou – a legenda derreteu, principalmente no Nordeste. Em trinta anos, o partido perdeu quase 70% da sua penetração nas cidades. “Parte dos quadros do DEM já estava no poder desde o regime militar. Quando o partido vira oposição, em 2003, eles perdem a capacidade de operar nos municípios”, analisa Jairo Nicolau, cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Além disso, o partido teve uma dissidência muito forte quando o Kassab fundou o PSD – centenas de integrantes migraram. Na época, acreditávamos que o DEM viraria um partido irrelevante, marginal.” O esvaziamento levou o partido ao chão.

Depois de sucessivas derrotas, que quase extirparam a legenda do cenário político nacional, as eleições de 2020 marcam a primeira expansão municipal do DEM desde 2000. “Agora o DEM começou a sinalizar como um partido de centro-direita, ganhou muitos quadros em abril e conseguiu um impulso no cenário nacional, com presidentes do Senado e da Câmara”, diz Nicolau. “Esse alento se traduziu em votos e, ao que parece, eles saem desta eleição como um dos vitoriosos.” Os resultados do primeiro turno mostram que o partido conseguiu ampliar o número de prefeituras em pelo menos dezoito estados, principalmente no Centro-Oeste. O DEM também conseguiu melhorar seu desempenho em estados do Nordeste e no Norte. O exemplo emblemático é o do Tocantins, onde a legenda venceu em apenas uma cidade no último pleito e agora leva 26 vitórias. Em relação aos vereadores, a legenda conquistou o segundo maior percentual de votos nas cidades com mais de 500 mil habitantes. 

Já o Progressista, o outro expoente da direita oriundo da Arena, manteve sua presença nas cidades do Rio Grande do Sul, tradicional colégio eleitoral do partido. Mas, neste ano, a legenda ampliou também sua presença no Nordeste – conquistou quase um quarto das cidades baianas e se multiplicou pelos municípios do Piauí, Paraíba e Pernambuco. O Progressista também ganhou relevância nas bancadas municipais – é a terceira legenda com maior percentual de votos para vereadores. “O PP é um partido de direita importante, mas que ainda concentra sua força nas pequenas cidades”, explica Jairo Nicolau. Entre os municípios com até 200 mil habitantes, o PP só fica atrás do MDB, que perde continuamente seu capital político. 

Apesar de ainda comandar o maior número de prefeituras, o MDB (que em 2017 tirou o P da sigla e voltou ao nome original) vem encolhendo desde as eleições municipais dos anos 2000. Em 2020, sofreu a pior derrota dos últimos vinte anos e perdeu prefeituras em 21 estados. “O MDB deixou de ser um partido central – não tem grandes lideranças, nem novas forças emergentes”, avalia Nicolau. Depois do primeiro turno, o partido continua confinado nas pequenas cidades. Nos municípios com mais de 500 mil habitantes, o MDB ficou em sexto lugar no ranking das legendas mais votadas entre os vereadores. O campeão de votos foi o PT, que, na avaliação de Nicolau, se recupera timidamente do fiasco de 2016. “O que dá um alento à esquerda é vencer em cidades médias porque, na verdade, a direita é a tradicional vencedora das eleições municipais”, conclui. “No cômputo geral, a esquerda sempre perde.”

Mas, por enquanto, os petistas não venceram em nenhuma capital e ainda perderam cidades, em comparação com o último pleito. Nem sempre foi assim: em 2012, o PT chegou a ser o terceiro partido com mais prefeituras no Brasil. Agora, antes do segundo turno, amarga o 11º lugar – atrás inclusive do Republicanos, partido que tinha pouca expressão nacional até as últimas eleições, mas que cresceu com a projeção das candidaturas de Flavio e Carlos Bolsonaro. O Republicanos (ex-PRB) faz parte da atual base governista e é ligado à Igreja Universal. Neste primeiro turno, o número de prefeituras comandadas pela legenda praticamente dobrou no Brasil, e o partido também conquistou a terceira maior proporção de votos para vereadores em grandes cidades. Essa é mais uma legenda do Centrão que atrai visibilidade neste ano e que acaba ganhando força em negociações com o presidente Jair Bolsonaro. 

Mas, nas eleições municipais, o voto é mais personalista que partidário. “As pessoas votam em pessoas, não em legendas”, explica Nicolau. Para ele, isso significa que não é possível medir a força dos partidos olhando somente para o saldo numérico das eleições. Essa análise, entretanto, pode indicar uma tendência. Os resultados destas eleições projetam o recrudescimento da direita nas bancadas estaduais e federais em 2022, capitaneadas pelo Progressistas e pelo DEM, os velhos conhecidos da Arena. O cientista político resume: “O Brasil está onde sempre esteve: como um país majoritariamente de centro-direita.”

 

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