Administração do Copan, em SP, ignora risco de transmissão da Covid, dizem moradores

Quem vai ao Copan, prédio icônico no centro de São Paulo, pode ficar com a impressão de que a pandemia de Covid-19 já passou.

Moradores do edifício, projetado na década de 1950 pelo arquiteto Oscar Niemeyer e um símbolos da capital paulista, denunciaram a omissão da administração do condomínio em relação ao cumprimento do protocolo de regras contra o coronavírus. Eles citam falta de uso de máscara e de higienização de áreas comuns e aglomerações.

A reportagem da Folha esteve no local em algumas ocasiões entre os dias 5 e 22 de outubro e observou que funcionários circulam no andar térreo com a máscara no queixo ou pendurada na orelha. A mesma situação foi observada no principal café do edifício.

“O próprio síndico anda semi-mascarado. Ele coloca a máscara cobrindo a boca, mas não o nariz. Eu mesmo postei ontem um alerta para as pessoas usarem máscara, porque ao redor do prédio está cheio de gente que não usa máscara e se recusa a fazê-lo”, afirma o engenheiro biomédico Edyr Sabino, 64, morador desde a década de 1960.

​”Na semana passada, estavam entrando dois rapazes no prédio sem máscara. Eu pedi para barrá-los, mas os porteiros não fizeram nada. Eu mesmo os chamei e pedi que colocassem as máscaras”, diz ele.

Segundo Sabino, outro problema são os entregadores de comida por aplicativo que se aglomeram na área externa do prédio, na rua Unaí, sem máscaras.

“Ao meio-dia, o movimento dessa rua é terrível, um inferno total. Eles [entregadores] se aglomeram e não têm o menor cuidado, não usam máscaras. Eu me sinto inseguro com essa situação, afinal estou numa idade em que o risco é altíssimo”, diz também o sociólogo Mauro Rubens, 84.

“Essa situação de descontrole em relação à pandemia é resultado da inexistência de uma estrutura efetiva funcional de zeladoria”, diz Rubens.

Em nenhum dos cinco acessos para o condomínio há orientações a respeito do uso de máscaras, distanciamento físico e higienização das mãos. Nos elevadores, há uma folha de sulfite com algumas instruções. Álcool em gel está presente em uma das entradas, preso à corrente e escondido na lateral de um armário.

Há denúncias também de aglomerações nas quitenetes, com a presença de até 15 pessoas.

“Outro dia, estava esperando para pegar o elevador e desceram quatro pessoas. Esperei o próximo, que desceu com sete pessoas. Era o pessoal da Airbnb. Isso é bizarro, porque vem gente de fora que pode trazer a Covid e não há um controle”, conta o fotógrafo Renatto de Sousa, morador do Copan e dono de uma fotogaleria no local.

“No elevador, não tem um asseio continuado. Se vem alguém antes de mim e espirra? Aqui não tem informação. A gente já cansou de mandar email para a administração pedindo informação dos casos de Covid daqui, mas não dão retorno nunca”, afirma Sousa.

O Copan tem 1.160 apartamentos residenciais distribuídos em seis blocos. Mais de 2.000 pessoas moram no local, segundo estimativas.

Nos banheiros masculino e feminino do térreo, utilizados pelos funcionários —e eventualmente clientes—​das 72 lojas do local não há sabão, álcool em gel ou papel toalha.

Moradores disseram que o síndico é inacessível. “Por telefone, raramente atende. Não há zelador no edifício, e os idosos e as pessoas com necessidades especiais precisam subir uma escada em caracol com 30 degraus para tentar falar com o síndico. Quando vamos cobrar uma irregularidade, ele ameaça com processo”, diz Rubens.

Para o infectologista Renato Grinbaum, da Sociedade Brasileira de Infectologia, o risco de contrair Covid-19 ainda é alto. “O tripé da prevenção é o distanciamento, uso de máscaras e a higienização das mãos”, diz. “Elevadores, corredores e saguões podem se tornar um problema porque são locais com tendência de aglomeração.” Ele afirma ainda que não é o momento de relaxar.

Para Thiago Natalio de Souza, advogado especialista em condomínios, a situação pode acarretar na destituição do síndico, com base no artigo 1.349, do Código Civil.

“Ao síndico cabe o interesse pelo bem de todos, principalmente relacionados a saúde e segurança, ser transparente, mostrar as regras e conscientizar os condôminos. Nos causa tristeza saber que um condomínio tão importante para São Paulo está assim”, diz Souza. Ele também orientou a fazer um boletim de ocorrência relatando as denúncias.

A Folha questionou a Polícia Militar sobre situações de descumprimento do protocolo de Covid-19. Em nota, a PM afirmou que tem dado apoio aos órgãos públicos responsáveis pela fiscalização de diferentes estabelecimentos, bem como ao uso de máscaras, conforme determina a legislação vigente.

Na prática, se houver resistência e/ou dificuldades durante a fiscalização da Vigilância Sanitária, o fiscal acionará o apoio policial.

A Prefeitura de São Paulo afirma que os protocolos de reabertura gradual da economia foram firmados em comum acordo com entidades representativas que se comprometeram a cumprir as regras e auxiliar na fiscalização por meio de autotutela. O órgão diz que realiza vistorias estratégicas em estabelecimentos comerciais e aborda munícipes para reforçar a importância e a necessidade do uso correto de máscaras de proteção facial.

Outro lado

A reportagem mandou um email à administração com o relatório das denúncias e telefonou para o síndico do Copan. Ele não quis se manifestar, mas disse que responderá ao jornal após a publicação da reportagem.

O Airbnb tem monitorado de perto, desde o início da pandemia, as orientações dos governos e autoridades de saúde, e adotou diversas medidas priorizando a segurança de hóspedes, anfitriões e toda a comunidade.

Entre elas, há o Protocolo Avançado de Higienização, que passou a ser solicitado a todos os anfitriões da plataforma.

Além disso, o Airbnb proibiu festas e eventos de qualquer natureza e lançou orientações e boas práticas também para hóspedes, disponíveis no site e com as quais eles devem se comprometer no momento da reserva. As recomendações incluem uso de máscaras e prática de distanciamento social por anfitriões e hóspedes ao interagirem.

O descumprimento das regras do Airbnb está sujeito às medidas cabíveis, que podem incluir suspensão da plataforma e até responsabilização legal, no caso de festas e eventos.

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