Apoio da família, intercâmbio de experiências com outros países; veja como professores do Alto Tietê estão vencendo a distância para ensinar


Josy Anneri da Silva Kanashiro teve Covid-19 e perdeu o pai para a doença; ainda assim, com criatividade e a ajuda da família, busca atrair os alunos. Já Maria Cristina Moreno criou um grupo em uma rede social com 38 mil membros onde ajuda professores de todo o Brasil e de outros países a deixarem as aulas mais atraentes. Professora envolve família para incentivar alunos a participarem das aulas na pandemia
Com a suspensão das aulas, alunos e professores ficaram distantes. O quadro negro e o giz foram substituídos pela tela do computador e o mouse e os professores precisaram se reinventar e ganhar novas habilidades para motivar e transmitir o conteúdo das aulas pela internet.
Entre tantos educadores, neste Dia dos Professores, o G1 destaca a história de duas professoras de escolas públicas da região do Alto Tietê que superaram os desafios e transformaram a vida dos alunos e também de vários colegas durante a pandemia.
Em comum, elas têm o amor à profissão e aos alunos e também um olhar positivo da internet. Com a ajuda de aplicativos e outros recursos, souberam adaptar atividades para esse novo momento. O resultado foi um show de talento que superou as fronteiras e chegou a países distantes.
Da quadra para a tela
A professora Josy Anneri da Silva Kanashiro, de 39 anos, mora em Mogi das Cruzes, mas dá aulas de educação física nas redes municipais de Ferraz de Vasconcelos e Itaquaquecetuba.
Além de adaptar as aulas para a internet, ela precisou superar a Covid-19. O pai morreu após ter sido infectado pelo novo coronavírus e o marido e os filhos dela também ficaram doentes. “É o ano mais atípico de todos da minha vida, não só da minha carreira. Foi desafiador, pois tivemos que reinventar a forma de ensinar, principalmente sendo professora de educação física. Tive que recorrer a várias adaptações ao longo do ano”, conta Josy.
E foi no estreitamento do relacionamento, mesmo que distante, com seus alunos e familiares, que a professora Josy recebeu a força que precisava para superar a Covid-19. O pai dela contraiu a doença depois de passar por uma cirurgia em um hospital.
A professora conta que, quando o pai voltou para casa, ela foi cuidar dele e acabou se infectando e passando para o marido e os filhos. Josy diz que a descoberta da contaminação do pai foi no final de julho e ele faleceu no dia 8 de agosto. “A gente tem que saber qual é a vontade de Deus. Os alunos e os pais me deram muita força e tento dar esse retorno para eles.”
Exercício pela Web
A professora conta que no início da pandemia foi assustador organizar as aulas on-line. Ela detalha que somente na escola de Itaquaquecetuba são mais de 500 alunos, em torno de 17 salas. Para agregar toda essa turma, Josy junto com a professora Lais de Sousa Ribeiro, foram montando grupos de WhatsApp.
“Achei que assim conseguiria estar mais próxima dos alunos. Como meu marido é professor de educação física e tenho uma parceira no trabalho, conversamos e fomos montando os vídeos juntos. O bom é que tenho três filhos e coloquei todo mundo para trabalhar”, afirma Josy.
Professora Josy superou a Covid-19 e usa a internet para motivar alunos nas aulas de educação física
Josy Anneri da Silva Kanashiro/ Arquivo Pessoal
As aulas ensinam os alunos, por exemplo, a jogar queimada com tampinhas de garrafa. A mesa da sala vira a quadra e as tampinhas os jogadores que precisam ser queimados.
Para a surpresa da professora, as famílias dos alunos passaram a participar ativamente das atividades propostas por ela. “Até porque no grupo quem está são o pai e a mãe. Então, os pais recebem e enviam as atividades. Na hora de fazer a aula, participávamos eu, meu marido e minhas crianças. E na hora de receber, a gente recebia da família. Acabei criando um elo com várias famílias de várias salas.”
O entendimento do momento pelo qual todos passam é fundamental na opinião da professora. Especialmente, no que se refere à entrega das tarefas propostas nas aulas. “Tem semana que eles não conseguem mandar atividade e a gente combina como fazer. A cobrança é feita, mas entendo que é difícil e não podemos cobrar por cobrar. Nesse momento precisamos de atenção.”
Para engajar ainda mais alunos e familiares, a professora posta as atividades no status do WhatsApp. “Monto vídeo dos alunos e eles gostam de se ver. Eles ficam felizes e percebo que quanto mais eu coloco, mais eu tenho retorno. Os pais vão vendo e lembram de mandar e eu recebo mais atividades. Desde que comecei a postar no status eu comecei a receber mais retornos.”
Show de Talentos
Para agitar e conectar os alunos, a professora Josy criou um show de talentos. Em um vídeo ela e a família, assim como a professora Lais e a família, mostram seus talentos e deixam o convite para que o aluno faça o mesmo em casa (assista acima). “Como são muitos alunos eu não teria como fazer algo para dar para eles. Meu objetivo é pegar esses vídeos e montar para eles se verem e irem matando a saudade. Porque eu vejo todo mundo por conta das atividades, mas eles não se veem.”
Intercâmbio internacional de experiências
Mesmo na pandemia a professora Maria Cristina Moreno, de 45 anos, conseguiu se conectar com seus alunos e também com outros professores ao redor do mundo. Ela administra um grupo em uma rede social que reúne 38 mil membros de todo o Brasil e também de diversos países, como Angola, Luanda, Japão e Estados Unidos.
Maria Cristina Moreno criou um grupo na internet para apoiar professores que tem 38 mil membros
Maria Cristina Moreno/Arquivo Pessoal
Maria Cristina mora em Mogi das Cruzes e é professora da rede municipal de Itaquaquecetuba há 25 anos. “Quando a pandemia começou ficamos perdidos, todos os professores. E educação não pode parar. Eu e minhas colegas ficamos assustadas. Quando o isolamento social começou e antes das aulas remotas eu criei o grupo que ajudava professores com ideias, sugestões e atividades. Inicialmente eram amigos e o grupo foi crescendo e hoje já tem sete meses”, conta a professora.
No grupo, Maria Cristina posta sugestões de atividades e também dicas para os professores usarem melhor a internet. “Eu ensinei os professores a criarem um avatar para se comunicar com as crianças, porque tem professor que tem vergonha de se mostrar na câmera. E aí o aluno pode interagir com um boneco com a voz da professora que conversa com a criança. Também ensinei a baixar vídeo do YouTube, montar fundos animados e outras coisas.”
A professora compartilha com os colegas atividades que ela desenvolve com os alunos. Para Maria Cristina, na educação infantil é importante a criança aprender brincando. Por conta da iniciativa, a professora diz que foi indicada ao Prêmio Espírito Público.
“Eu compartilhei minhas atividades de sala de aula. Eu me baseio no método montessoriano. E vejo que tem muito professor que se preocupa que o aluno nessa fase aprenda a escrever na linha, por exemplo. Mas para mim a aprendizagem tem que ser prazerosa e a criança deve aprender brincando. Porque o fundamental já vai ser maçante e estressante. E se a criança teve uma educação infantil que trabalha as funções que precisam ser desenvolvidas, ela flui mais no ensino futuro, como no fundamental e médio.”
Além do grupo, Maria Cristina cuida diariamente dos seus 23 alunos entre 4 anos e 5 anos de duas turmas de uma escola municipal de Itaquaquecetuba. A professora observa também que em tempos de pandemia todas as estratégias de ensino são válidas, mas é preciso que o professor observe e respeite o ambiente onde o aluno está inserido.
“Por exemplo, no início eu colocava vídeo de atividade no grupo de WhatsApp que tenho com os pais dos meus alunos e pedia construção de bonecos de sucata e música, mas percebi que os pais trabalhavam o dia todo e não tinham condições de chegar em casa à noite cuidar dos afazeres e ainda fazer a atividade. Então, precisei mudar de estratégia. É preciso enxergar isso e mudar a forma de trabalho para que se adapte a realidade do aluno e sua família.”
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