Biden, Bolsonaro, o passado e o futuro

Uma eleição para virar de vez a página de um governo corrupto, paranoico e trapaceiro. Assim foi em 1976, quando o democrata do estado da Georgia Jimmy Carter derrotou Gerald Ford, um vice inexpressivo que assumiu a  presidência quando Richard Nixon renunciou  em 1974, no auge do escândalo de Watergate. Infelizmente para Ford, que tentou se distanciar do legado infeliz de Nixon após ter concedido a ele um indulto que perdoava todos os seus delitos, a campanha foi pautada pelos desmandos éticos do republicano que havia ganhado a reeleição em 1972 de forma esmagadora. Enquanto Ford tentava se descolar do antecessor, Carter atribuía a Ford todos os fracassos e desgraças do governo Nixon. Por sua vez, Carter pregava “um governo tão honesto e decente e justo e competente e confiável e idealista quanto o povo americano.” Sua eleição seria como um exorcismo nacional.

Joe Biden promete algo parecido. De fato, o contexto de sua eleição se assemelha um pouco com a situação que alçou Carter à presidência. Ao longo de sua campanha, Biden caracterizava a disputa como uma batalha pela alma da nação. Embora Donald Trump tenha superado as expectativas em alguns estados, a vitória de Biden é uma derrota para o discurso reacionário do presidente, que garantia certo respaldo internacional para o extremismo ideológico de Jair Bolsonaro. Talvez haja lições aí, e muitas perguntas. Buscar um nome de centro, assim como fez o partido Democrata ao preterir nas prévias os “radicais” Bernie Sanders e Elizabeth Warren, ajudará a unificar o campo político? Por outro lado, gente como Sergio Moro e Luciano Huck, figuras que até ontem apoiavam o governo, não podem amanhã se reinventar na imagem conciliadora de Biden. Até porque parte da esquerda brasileira não enxerga Biden como exemplo a ser seguido.

A questão que se coloca é se um governo Biden mudará apenas o discurso do governo derrotado, mantendo uma política externa hegemônica e agressiva. Carter também lidou com a ambivalência da esquerda brasileira. Em novembro de 1977, o recém-criado jornal Em Tempo, que mais tarde teria um papel fundamental na criação do PT, marcou um ano da eleição de Carter refletindo sobre a política de direitos humanos do governo norte-americano, perguntando: “Qual é a de Jimmy Carter ao levantar tão alto a bandeira dos direitos humanos?” O jornal, caracterizado por tendências progressistas variadas, observou que pouco havia mudado de concreto em um ano, mas que o tom da governança latino-americana havia de fato mudado. Ditadores passaram a usar palavras como “normalização constitucional,” por exemplo. Carter assinou vários tratados internacionais de direitos humanos que aguardavam a sanção dos Estados Unidos por anos e “puxou o tapete que dava respaldo ideológico e politico à maioria das ditaduras da periferia capitalista.”[1] No passado, os editoriais do Em Tempo não viam os esforços de Carter como atos de benevolência, mas sim como uma tentativa de “recompor a imagem odiosa do imperialismo norte-americano herdada da guerra do Vietnã e das ações de ‘desestabilização’ da CIA, como aquela que levou à queda e morte de Allende no Chile.” Depois de vários relatos atordoantes de tortura em vários países latino-americanos ao longo dos anos 1960 e 1970, os Estados Unidos não poderiam mais simplesmente ignorar a questão das violações dos direitos humanos em seu próprio quintal, até porque tais abusos supostamente fortaleciam a “alternativa socialista,” de acordo com o mesmo artigo de Em Tempo. A Carter então sobrou o projeto de construir uma nova maneira do imperialismo americano sustentar o capitalismo internacional mesmo que com uma abordagem mais amena, menos truculenta do que a do antecessor.

É algo assim que a maioria dos progressistas brasileiros espera de um eventual governo Biden. O ex-presidente Lula, por exemplo, tuitou que “o mundo respira aliviado com a vitória de Biden. Neste momento tão importante em que o povo norte-americano se manifestou contra o trumpismo e tudo o que ele representa, de rejeição de valores humanos, ódio, abandono da vida e agressões contra nossa querida América Latina, saúdo a vitória de Biden e manifesto a esperança de que ele não só internamente, mas também em suas relações com o mundo e com a América Latina, se paute pelos valores humanistas que caracterizaram a sua campanha.” Ciro Gomes enviou uma carta esperançosa a Biden, saudando o democrata pela vitória. Ambos reconhecem que a derrota de Trump é um revés para Bolsonaro e, portanto, um desdobramento positivo.

Como exatamente um governo Biden pode afetar o Brasil? Parece claro que a maneira mais direta é pelo enfraquecimento e isolamento do Bolsonaro. Bolsonaro é um dos raros líderes nacionais que, até esta quinta-feira (19/11), ainda não reconheceram a vitória do democrata. Mesmo que o presidente houvesse congratulado Biden de imediato, são poucas as perspectivas de um aprofundamento significativo da relação Brasil-Estados Unidos, até porque Biden provavelmente dedicará mais atenção a China, Irã, Coreia do Norte e Venezuela. Ajudar a conter o atual ocupante do Planalto já seria um grande impulso para candidatos da oposição, que poderão argumentar de forma contundente em 2022 que a política externa de Bolsonaro tem sido um desastre histórico para o país. O Brasil sempre almejou um papel de destaque em assuntos globais, ou pelo menos regionais, dado seu tamanho e riqueza. Com Bolsonaro no comando, qualquer ambição de exercer influência no âmbito da política externa virou fumaça.

Com a eleição de Carter, explica o historiador James N. Green, “as palavras ‘prisão,’ ‘tortura,’ e ‘repressão,’ que um público bem informado anteriormente associava ao Brasil, se tornaram sinônimo da descrição dos vários regimes militares que assumiram o poder na América Latina.” O respeito pelos direitos humanos de repente tornou-se uma métrica pela qual os observadores avaliaram o relacionamento dos Estados Unidos com países da América Latina e do mundo.[2] “Estamos livres”, disse Carter em 1977, “desse medo exagerado do comunismo que uma vez nos levou a abraçar qualquer ditador que se juntou a nós nesse medo.”[3] Pelo menos em termos simbólicos, Washington deixaria de apoiar regimes antidemocráticos ao redor do mundo. Os generais brasileiros ficaram uma fúria.

As semelhanças entre o atual momento histórico e o período de transição de Nixon/Ford para Carter são várias (as diferenças também, é claro), mas o mundo assiste a esse processo de perto principalmente por dicas sobre como a política externa da maior potência mundial há ou não de mudar nos próximos anos. De fato, quão transformador será um governo Biden em relações internacionais? Por ter apoiado a Guerra no Iraque, entre outros conflitos armados ao longo de sua extensa carreira política, Biden provoca entre parcelas da esquerda brasileira suspeitas de que ele se empenhará mais do que Trump em sustentar o imperialismo. Essa posição não é consenso entre partidos e militantes da esquerda brasileira, mas mesmo assim revela algo importante sobre o estado da oposição.

No Brasil, onde a eleição americana foi um dos temas mais comentados nos jornais e redes sociais nas últimas semanas, buscam-se pistas nas entranhas do pleito recém-encerrado. Não se sabe exatamente em que medida um governo Biden será positivo para o Brasil como um todo, mas não há dúvida de que é bastante ruim para Bolsonaro. Sendo assim, para a oposição, já começa bem.

[1] “O vai não vai da política de direitos humanos,” Em Tempo, Número Zero, novembro 1977, 1.
[2] James N. Green, We Cannot Remain Silent: Opposition to the Brazilian Military Dictatorship in the United States (Durham: Duke University Press, 2010): 6.
[3] Citado em Daniel J. Sargent, A Superpower Transformed: The Remaking of American Foreign Relations in the 1970s (New York: Oxford University Press, 2015): 263.

O post Biden, Bolsonaro, o passado e o futuro apareceu primeiro em revista piauí.

Tags .Adicionar aos favoritos o Link permanente.