Cirurgião de São Carlos monitora reprodução de gavião sovi e transforma material em livro


Durante dois meses, Ricardo Japur fez fotos para seu acervo pessoal; observador sonha em distribuir o arquivo a escolas e universidades. Gavião solitário, sovi se reproduz no Sudeste do Brasil durante a primavera e depois retorna para a Amazônia
Ricardo Japur/Acervo Pessoal
“Força”. Uma única palavra capaz de descrever para o cirurgião de São Carlos (SP), Ricardo Rozo Japur, as diversas capacidades do gavião sovi (Ictinia plumbea). “As aves têm que enfrentar batalhas diária para sobreviver, construir sua casa, caçar, se defender e manter sua linhagem”, define ele. Inspirado por esses valores da espécie, Ricardo decidiu unir a câmera fotográfica ao conhecimento e transformar em imagens esse símbolo de resistência.
Vivendo na cidade há 20 anos, o observador de natureza já havia notado que a ave se apropriava do Cerrado da região no início da Primavera. Como essa espécie é migratória, sua vinda para o Sudeste é provocada pela intenção de procriar. O cirurgião ainda explica que o aparecimento da ave coincide com o das cigarras, principal alimento de sua dieta. E ainda dá mais detalhes: “sua beleza e imponência são marcantes assim como sua agressividade na defesa de território”, define.
Durante a cópula, sovi revela o detalhe alaranjado na base das asas
Ricardo Japur/Acervo Pessoal
O constante olhar atento unido ao conhecimento da espécie permitiu que ele avistasse o exato momento de formação de uma família de sovis e desenvolvesse uma ideia a partir disso. “Avistei uma fêmea de sovi no alto de uma árvore morta e tive a sorte de presenciar a chegada do macho e a cópula. A partir daí passei a procurar o ninho pelas redondezas, certo de que eles criariam um filhote”. Encontrado o abrigo para os ovos, o observador permaneceu visitando o ambiente e, por quase dois meses, presenciou cenas de pura vida livre.
“Foi interessante observar que após o nascimento da cria, os pais passaram a vigiar o ninho a média distância e a fêmea retornava a ele apenas para alimentá-la. Nesse período, houve grande ação de caça por parte dos adultos e qualquer predador era afastado da área prontamente. Vi o casal defender seu ninho contra tucanos, carcarás e até outros sovis”, relata.
Sovis caçam também outros insetos como formigas e besouros e pequenos répteis; na imagem o casal devora uma cigarra
Ricardo Japur/Acervo Pessoal
O material composto pelos flagrantes dessas ações era completo e extenso. Assim, Ricardo decidiu montar um livro para reunir todos os registros. Embora a publicação componha apenas o arquivo pessoal do observador, ele já sonha com voos mais altos: gostaria de disponibilizar o arquivo para as universidades e dar continuidade a esse trabalho.
Registros de um processo intenso que, certamente, trarão lições não apenas sobre natureza. “A produção das imagens exige dedicação, retornar ao local inúmeras vezes, acordar cedo, enfrentar frio, calor e chuva. Em alguns dias voltamos para casa sem nada e quem vê o produto final não imagina o esforço que foi ali aplicado”, define ele.
Sovi é ave agressiva e territorial até mesmo contra outros gaviões que passam próximo ao ninho
Ricardo Japur/Acervo Pessoal
O suor aplicado nas páginas e nas lentes é justificado por uma missão: a de contribuir para ações de preservação e despertar o interesse pelo meio ambiente através das imagens. “Tenho receio que, no futuro, a rica fauna brasileira seja só uma lembrança. Espero que os cidadãos e governantes encontrem nessa espécie o que lhes falta para preservar o meio ambiente de forma mais efetiva”, conclui.
Livro de observador de aves sobre gavião sovi reúne flagrantes da reprodução da aveem São Carlos
Ricardo Japur/Acervo Pessoal
Veja mais fotos:
Sovi é um gavião brasileiro que possui aproximadamente 34 centímetros de comprimento
Ricardo Japur/Acervo Pessoal
Hábito solitário é comum ao sovi que ocupa áreas como bordas de florestas
Ricardo Japur/Acervo Pessoal
Filhote ainda em desenvolvimento apresenta as partes inferiores brancas estriadas
Ricardo Japur/Acervo Pessoal
Após a reprodução e o desenvolvimento da prole, o ninho vazio representa o trabalho cumprido
Ricardo Japur/Acervo Pessoal
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