Como funcionavam o caixa 2 e a lavagem de dinheiro que acabaram com três presos

Uma grande operação deflagrada pela Polícia Civil de Santa Catarina com apoio da Polícia Civil do Rio Grande do Sul acabou com três presos e um investigado.

A operação batizada como “Pombo de Ouro”, tinha como objetivo desarticular uma organização criminosa que cometia crimes de lavagem de dinheiro e fraudes em licitação no Porto de São Francisco do Sul.

Durante a operação, foram presos Cristiano Panstein, responsável pela C.R.P Comércio de Papel e presidente estadual do Patriota; Silvestre Panstein, dono da Alfa Imunização; e Rafael Ferreira, gerente do braço da C.R.P Comércio de Papel em Uruguaiana.

Além disso, a Polícia cumpriu mandado de busca na casa do ex-diretor presidente da SCpar Porto São Francisco do Sul, Diego Machado Enke, um dos investigados, em Jaraguá do Sul.

Durante toda a operação que começou cedo e continuou durante à tarde desta quinta-feira, 29, foram recolhidos documentos, computadores e celulares em residências, empresas e escritórios de contabilidade em Jaraguá do Sul, Guaramirim, Balneário Camboriú e em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul.

Além disso, três carros de luxo – Land Rover, Mercedes e uma BMW – avaliados em R$ 800 mil foram apreendidos. O sequestro de veículos, que pertenceriam aos donos da C.R.P e Alfa Imunização, foi feito por meio de uma ordem judicial.

Três carros de luxo, avaliados em R$ 800 mil, foram apreendidos durante a operação desta quinta-feira – Foto: Celso Renner/Polícia Civi

“Temos mais pessoas para serem interrogadas. E também irmos apurar mais fatos, se houve participação de outras pessoas, principalmente na SCPar, e se tem mais políticos envolvidos. Tudo isso está sendo apurado. A análise dos celulares vai ajudar bastante”, disse o delegado Lucas de Almeida, da 4º Delegacia Especializada no Combate à Corrupção de Blumenau.

Segundo o delegado, além das fraudes em licitações e superfaturamento em contratos, detectou-se fortes indícios de lavagem de dinheiro e financiamento de caixa 2 para campanhas de políticos em troca da obtenção de contratos públicos.

Como funcionava o esquema de caixa 2 e lavagem de dinheiro

  • Segundo apurou a Polícia Civil, as empresas financiavam campanhas políticas, independentemente dos partidos.  Apoiavam financeiramente, principalmente, os políticos que tinham mais chance de ganhar.
  • Depois que esses políticos ganhavam, as empresas usavam a influência deles para conseguir contratos públicos, fraudando licitações e superfaturando contratos.
  • Muitas vezes, as empresas, após conseguirem contratos, até devolviam parte desse dinheiro (resultado do superfaturamento) para esses agentes políticos que tinham influência na SCPar Porto de São Francisco do Sul, por exemplo.
  • A lavagem de dinheiro, explica a Polícia Civil, ocorria por meio da compra de carros, consórcios, imóveis e debêntures.
  • As empresas, se assim a investigação concluir, poderão ser responsabilizadas pelos crimes de caixa 2 e lavagem de dinheiro. Já o ex-diretor presidente do Porto poderá ser responsabilizado pela ilegalidade nas licitações e contratos.

Além de trazer à tona a denúncia de suspeita de superfaturamento no contrato entre o Porto de São Francisco do Sul e a Alfa Imunização, o Grupo ND investigou, ainda, casos de indicação política dentro da SCPar Porto de São Francisco do Sul.

O número de cargos comissionados multiplicou no quadro administrativo nos primeiros meses de 2020. As nomeações para os cargos comissionados foram, inclusive, alvo de investigação do Ministério Público após denúncias encaminhadas que apontavam interferência política na administração do porto.

Entre os nomes políticos fortes citados como influenciadores nas decisões e indicações estavam o deputado federal Fabio Schiochet, que admitiu à reportagem do ND+ ter indicado a então assessora de imprensa. Além dele, Douglas Borba e Lucas Esmeraldino também teriam influência nas escolhas dos cargos administrativos do porto.

A operação anticorrupção foi encabeçada pela 4º Delegacia Especializada no Combate à Corrupção de Blumenau, com apoio da 5º Decor-Deic, da DIC, da Dpcami e da 1º DP de Blumenau, além do DRACO – Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas  – do Rio Grande do Sul e foi batizada “Pombo de Ouro” em menção direta aos contratos da Alfa Imunização, com suspeita de supefaturamento.

Próximos passos da Operação

A Polícia Civil irá ouvir mais depoimentos. O delegado Lucas de Almeida tem dez dias para fechar o relatório e fazer ou não o indiciamento dos três suspeitos presos e do suspeito investigado na operação.

Já o Ministério Público de SC tem cinco dias para se manifestar. Poderá denunciar ou não os suspeitos à Justiça, que, por sua vez, decide se acata ou não a denúncia do MP-SC.

*Colaborou Adriele Evarini, repórter do ND+

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