Como Karla Villavicencio fugiu de clichês escrevendo sobre imigração ilegal

Karla Cornejo Villavicencio nunca quis fazer algo tão clichê quanto escrever sobre imigração. Mas, quando estava no último ano da Universidade Harvard, ela escreveu um ensaio anônimo no site The Daily Beast sobre a condição dos indocumentados. Não demorou muito para agentes literários começarem a pedir uma autobiografia a ela.

“Fiquei realmente ofendida com isso”, comentou Villavicencio, agora com 31 anos, “porque o que os atraiu não foi meu talento como escritora”. “Eu sabia que não era por isso que estavam me convidando.”

Foi só no dia seguinte à eleição de 2016, ainda em estado de choque com os resultados, que ela se sentiu preparada para encarar o desafio. Sentiu que precisava fazer alguma coisa para dar voz aos milhões de pessoas que viviam nos Estados Unidos ilegalmente e que, como ela, temiam o que poderia acontecer a eles sob uma Presidência de Donald Trump.

O resultado foi “The Undocumented Americans”, publicado em março, em que Villavicencio relata sua própria história de imigração e traça o perfil de imigrantes indocumentados em toda parte nos Estados Unidos –o trauma dos que foram recrutados para fazer a limpeza no pós-11 de Setembro, a solidão dos trabalhadores diaristas em Staten Island, os desafios dos que enfrentam uma crise de água em Flint, no estado de Michigan, e o papel exercido por fitoterapeutas e curandeiros em Miami.

Agora seu livro é um dos finalistas do National Book Award na categoria de não ficção. De acordo com a National Book Foundation, é a primeira vez que uma pessoa indocumentada é candidata ao prêmio. Uma das metas de Villavicencio ao escrever foi combater as caricaturas unidimensionais que ela vê de pessoas indocumentadas e latinas.
Outra coisa que ela queria era deslocar o foco da atenção dos “dreamers” como ela (imigrantes que chegaram ao país sem documentos quando eram crianças) para os imigrantes mais velhos, que ela considera que frequentemente são apagados ou reduzidos às descrições dos trabalhos que exercem.

O livro de Villavicencio é um entre vários escritos nos últimos cinco anos por autores indocumentados ou ex-indocumentados, entre eles José Antonio Vargas, Julissa Arce, Marcelo Hernandez Castillo, Dan-el Padilla Peralta e Javier Zamora. Vargas, cuja obra “Dear America: Notes of an Undocumented Citizen” foi publicada em 2018, descreveu o livro de Villavicencio como “uma contribuição importante para o jornalismo literário de ensaios pessoais”, notável pela ênfase que dá à vida interior dos migrantes.

Karla Cornejo Villavicencio nasceu no Equador em 1989 e foi levada aos Estados Unidos alguns anos mais tarde para viver com seus pais. Ela cresceu nos distritos nova-iorquinos de Brooklyn e Queens e hoje vive com sua companheira, Talya Zemach-Bersin, em New Haven, no estado de Connecticut, onde está concluindo um doutorado em estudos americanos na Universidade Yale.

“Não quero que todas as imagens de nosso povo durante este período sejam de joelhos ou em gaiolas”, disse Karla Cornejo Villavicencio, autora de “The Undocumented Americans”

Seus próximos livros serão um romance para o público adulto jovem baseado aproximadamente em sua adolescência em Nova York e uma coletânea de ensaios sobre seitas. Villavicencio está trabalhando sobre os ensaios com seu editor, Chris Jackson, da One World.

Durante algum tempo, ela pensou que estivesse a caminho da legalização. Ela possui autorização de trabalho graças ao programa Daca (para imigrantes que entraram no país ilegalmente quando eram crianças) e recebeu um “green card” temporário quando se casou com Zemach-Bersin. Mas a validade do green card chegou ao fim, e, devido à situação conturbada do Serviço de Cidadania e Imigração americano, o processo de renovação é incerto.

“Eu estava me aproximando aos poucos de poder me sentir em segurança, mas agora sofri um retrocesso”, disse Villavicencio. “Isso mostra como é precária a situação das pessoas indocumentadas.”

Em duas entrevistas que deu neste mês, ela discutiu a história que precisa contar, o quanto isso lhe custou e sua relação complicada com o sonho americano. Seguem trechos editados dessas conversas.

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Por que você decidiu escrever este livro? Li muitas coisas de James Baldwin, e ele falou especificamente: “Eu não queria fazer isso. Eu estava vivendo em Paris. Essa coisa começou a acontecer na América. Agora é minha vez de fazer o que preciso”.

Eu poderia ter optado por não escrever sobre isso, e minha saúde mental ficaria muito melhor por isso, mas voltar para esse tema era algo que eu tinha que fazer. É estranho, porque quando você é jovem, não branca, imigrante e cresceu num gueto, a narrativa inteira de sua vida, desde a infância, é tentar sair de lá. Mas naquele momento, senti que era hora de voltar.

James Baldwin tentou o suicídio várias vezes. Foi algo muito sofrido, que teve um grande impacto sobre ele, mas que não é muito mencionado quando falamos de James Baldwin. Acho importante reconhecer o impacto de ser a testemunha, de ser a pessoa que relata essas histórias —o impacto que isso tem sobre os artistas não brancos e sobre essas comunidades.

Em seu livro, você é muito franca em relação às suas próprias dificuldades com saúde mental. Por que foi importante incluir isso no livro? Acho que o sentido todo de minha vida é diminuir a dor de outras pessoas. Hoje isso é algo mais amplo do que quando eu era mais jovem, quando significava apenas meus pais. Hoje sei que não posso resolver o problema dos meus pais. Não posso tirar o trauma deles. Mas posso influenciar pessoas mais jovens que me respeitam e admiram, posso diminuir o sofrimento delas.

“Não quero que todas as imagens de nosso povo durante este período sejam de joelhos ou em gaiolas”, disse Karla Cornejo Villavicencio, autora de “The Undocumented Americans”

Você já falou do fato de sustentar sua familia financeiramente. Como você encara o dinheiro? E como reconcilia essa necessidade com o esforço de avançar em sua profissão ou de realizar seus sonhos? Ainda estou tentando decifrar tudo isso. Sinto que é minha responsabilidade cuidar de meus pais até eles morrerem, e acho que muitas pessoas têm essa mesma responsabilidade.

Tirando os impostos que pago, a maior parte do meu dinheiro foi gasta com imigrantes —com minha família, com as meninas de quem eu cuido e com a comunidade, e não só sob a forma de pessoas que precisam de ajuda. Durante algum tempo, sempre que eu tinha a impressão de que alguém que trabalhava em um restaurante era indocumentado, pensava em meu pai e deixava uma gorjeta de US$ 100 [R$ 564], toda vez, só por um sentimento de culpa.

Mesmo sendo indocumentada, tenho autorização de trabalho. Não sei até quando será válida —o USCIS [Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos] está sendo levado a falir—, mas durante o tempo que tenho, tenho conseguido ganhar dinheiro escrevendo sobre pessoas indocumentadas, e isso parece um pouco absurdo, injusto. Por isso, penso que parte do dinheiro que ganho deve voltar para a comunidade. Se eu não fizesse isso, seria antiético ganhar a vida escrevendo sobre indocumentados.

Você poderia facilmente ser uma garota propaganda do ‘sonho americano’. Mas você questiona isso no livro. Por que quer mudar essa narrativa? Acho que as pessoas devem ter seu próprio relacionamento com o sonho americano. Não deve ser alguma coisa que você pode comprar e que está estampada numa almofada da TJ Maxx. Acho que muitos imigrantes “bons” que “fizeram tudo certinho”, que são imigrantes exemplares, têm uma visão muito estreita do sonho americano que divulgam. Penso que o sonho americano deve significar algo diferente para cada imigrante. É uma coisa particular.

Na minha experiência de alguém que teve a bênção de passar por esse processo, vejo o quanto custou. Foi preciso muita sorte. Foram precisos muitos acidentes genéticos com os quais eu mesma não tenho nada a ver.

Ouvi sua fala no programa ‘This American Life’. Você disse que quando as pessoas perguntam se você sentiu um choque cultural quando chegou a Harvard, você responde: ‘Não. Senti que era meu direito inato estar lá’. Achei isso tão engraçado. De onde vem esse sentimento? Falei aquilo em parte só para trolar pessoas brancas. Mas não, de fato, eu não tive síndrome do impostor. Eu estava falando disso hoje com minha companheira, na realidade. Quando eu estava no colégio, fiz um workshop de jornalismo na NYU [Universidade de Nova York] que era altamente prestigioso. Havia uma professora, uma mulher branca, que se interessou por mim.

Ela me disse que achou que eu tinha talento para escrever e possuía uma voz boa e falou que não se surpreenderia se visse meu nome na lombada de um livro na biblioteca Butler. Acho que ela era da Universidade Columbia. Essa parte era verdadeira. Mas ela também disse que eu parecia estar em choque, que meus olhos estavam arregalados e eu parecia estar à beira das lágrimas, porque parece que aquilo nunca me ocorrera ou que nunca ninguém me havia dito algo assim. E aquilo foi apenas imaginação dela.

Lembro ter me sentido realmente humilhada quando ouvi o relato dela sobre o que teria sido a primeira vez que alguém me disse que eu poderia ser escritora. E eu respondi perguntando por que eu teria ficado em choque por ser capaz de escrever um livro. Percebi que aquilo era uma narrativa branca, que havia algo faltando em mim, e que não só havia algo faltando em mim e na minha origem, como também que eu era obviamente insegura e tinha baixa autoestima.

Quando entrei naquelas salas de aula em Harvard, vi jovens muito ricos. Muitos deles tinham estudado em escolas internas, alguns eram filhos de celebridades, outros eram filhos de políticos. E vi que eu me defendia muito bem numa conversa com eles e que eu chegara lá por meu próprio mérito e esforço e eles, não.

Vim do nada. Criei este mundo todo sozinha, assim como meus pais, como imigrantes, criaram um mundo sozinhos. Aqueles jovens —francamente, teria sido estranho se eles não tivessem entrado em Harvard. Havia alguns cujos sobrenomes estavam gravados nos prédios da universidade.

Mas eu? Eu era uma anomalia estatística. Me senti como se fosse um escaravelho raro. E isso não me impediu de ter depressão, nem de passar anos me automutilando nem nada disso, mas nunca me faltou autoconfiança numa sala de aula ou num ambiente onde o que está em questão é minha escrita.

Há várias instâncias no livro em que você recorre ao realismo mágico. Por que você usou esse gênero? Nunca tive uma ligação intuitiva com a natureza ou a terra, mas sempre fez sentido para mim que, se acontecesse algo tão inacreditavelmente triste, todas as coisas naturais à nossa volta reagiriam e nunca voltariam a ser como antes.

Por isso, quando aprendi sobre o Holocausto, quando eu era criança, pensei “como foi que os rios não viraram rios de sangue, como é possível que o mar não deixou de ser salgado, como foi possível que espécies inteiras não tenham sido exterminadas e terminado nos quintais de pessoas, como espécies de pássaros”.

Na minha cabeça, era como um sistema de crenças sob a forma de uma técnica literária que é usada para levar justiça à página escrita quando há impunidade na vida real e em nosso ambiente, quando há desaparecimentos, quando os corpos das pessoas são mutilados, quando somos jogados em vans sem identificação, quando estamos vivendo sob o que parece ser uma ditadura de republiqueta de bananas. Achei que era o momento perfeito para usar o realismo mágico.

Como você espera que este livro seja recebido no mundo? Espero que imigrantes de todas as origens possam se enxergar nele. Espero que pessoas que não são imigrantes, que foram consideradas estrangeiras, indesejadas ou marginais, possam se enxergar parcialmente no livro.

Não quero que todas as imagens de nosso povo durante este período sejam de nós de joelhos, em jaulas ou suplicando por um sabonete. Quero que este livro também exista como um instantâneo deste período no tempo, um período em que há pessoas que são diferentes, que são imperfeitas, que são estranhas, que são trabalhadoras, que são simplesmente pessoas.

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