Conheça a botânica que ficou dois anos trancada em uma estufa

O aquecimento global não é coisa dos anos 2000. O aumento das temperaturas vem acontecendo desde o século 19, após a Segunda Revolução Industrial. Mas foi só nas últimas décadas do século passado que pesquisadores e ambientalistas começaram a se preocupar mais com as mudanças climáticas e a falta de recursos para a sobrevivência na Terra. A solução mais óbvia para a humanidade, então, seria zarpar daqui.

Essa premissa resultou em um dos experimentos mais excêntricos da história. O projeto Biosfera 2 almejava criar uma estufa totalmente vedada do ambiente externo. A ideia é que ela pudesse ser enviada para outros planetas e manter a população humana viva, mesmo que o ambiente externo fosse hostil. Toda a comida, água e até oxigênio deveriam ser obtidos ali dentro. O nome “Biosfera 2” foi escolhido justamente para que você se perguntasse o que é a Biosfera 1. Resposta: a própria Terra.

Após anos de planejamento e um investimento de U$350 milhões, a ideia saiu do papel. A estufa contava com animais e plantas de diferentes biomas, além de laboratórios para pesquisa e instalações para convivência dos habitantes. Em 1991, oito voluntários entraram na Biosfera 2 e permaneceram lá dentro por dois anos.

É difícil acreditar que um experimento desses realmente aconteceu há 30 anos. Ele inclusive rendeu um documentário, exibido no Festival Sundance de 2020. Missão Planeta Terra conta com imagens gravadas na época, e mostra todos os problemas que ocorreram na estufa ao longo dos anos. O filme está disponível para compra e locação nas plataformas On Demand (Google Play, Youtube Filmes, Apple TV, entre outros). Vale a pena conferir. https://www.youtube.com/watch?v=NlzbIbRGmE8&feature=emb_title

Uma das cientistas que ajudou a construir a Biosfera 2 foi Linda Leigh, aos 39 anos de idade na época. A botânica trabalhava para a ONG Nature Conservancy antes de topar o desafio. Ela também era amiga do líder do projeto: Ed Bass, um jovem hippie com tanta vontade de mudar o mundo quanto dinheiro no bolso. Foi assim que ele convenceu Linda a participar: “ele disse que eu não conseguiria mudar o mundo sozinha. Era o que eu precisava ouvir naquele momento, então abracei o projeto”, disse ela em entrevista à SUPER.

A bióloga ajudou a definir quais biomas entrariam na Biosfera. A estrutura está instalada no Arizona, um ensolarado estado americano, então o melhor foi optar pela vegetação de regiões semelhantes: um deserto, uma savana, um pantanal e uma floresta tropical.

Era importante que as espécies de plantas se mantivessem ativas o ano todo. A luz solar entra através de uma redoma de vidro, possibilitando a fotossíntese. O cálculo da quantidade de espécimes também era crucial. Toda a vegetação deveria ser capaz de absorver o CO2 exalado pelos humanos e animais, além de liberar oxigênio para a sobrevivência deles. Caso contrário, eles poderiam morrer sufocados.

Isso quase aconteceu. Nem Linda nem sua equipe anteciparam o impacto que a infraestrutura teria no ecossistema. O hidróxido de cálcio presente no concreto reagiu com o gás carbônico da atmosfera. Isso deixou menos moléculas disponíveis para que as plantas pudessem absorver e fazer fotossíntese. Faltou oxigênio. Os cientistas que estavam monitorando a biosfera debateram sobre a possibilidade de bombear oxigênio para dentro – mesmo sendo contra as “regras” do experimento. No final das contas, essa foi a única opção.

Surpreendentemente, essa não foi a parte mais difícil do experimento para Linda: “O pior foi tentar se dar bem com todo mundo”, diz ela. “Acabamos nos dividindo em dois grupos de quatro pessoas e só conversávamos em situações formais, quando estávamos plantando ou trabalhando. De todos os problemas, o com humanos foi o mais decepcionante”.

As polêmicas

Não faltaram críticas ao projeto. Especialistas alegavam que a Biosfera 2 não era um experimento científico. Na verdade, ele parecia muito mais um reality show. Além da cobertura intensa por parte da mídia, o público poderia pagar para chegar perto da estrutura de vidro. Foi essa “casa”, inclusive, que inspirou o criador do reality internacional Big Brother.

Para Linda, a vigilância não influenciou muito no seu trabalho lá dentro – quando não quisesse ser vista, era só se deslocar para um outro ambiente. Na verdade, ela considera que a visita do público e atenção da mídia foram as principais contribuições da Biosfera 2 para a sociedade. “As pessoas se atraíram e começaram a aprender mais sobre plantas, animais e solos. É o melhor lugar do mundo para ensinar ecologia”, diz ela.

Muitos cientistas que processavam os dados do lado de fora da estufa abandonaram o projeto após o incidente com o oxigênio. A credibilidade caiu. Mesmo assim, Linda se mantém firme ao dizer que estava produzindo conhecimento científico na época. “Nós publicamos diversos artigos científicos em periódicos reconhecidos com os dados coletados. Isso já mostra que estávamos fazendo ciência lá”. Os artigos publicados a partir de 1998 podem ser encontrados aqui.

Biosfera 2 foi construída para ficar vedada por 100 anos, com uma espécie de revezamento de cientistas entrando e saindo do local. Mas os problemas com o primeiro experimento mostraram que a ideia seria inviável. A estrutura permanece lá até hoje, mas foi adquirida pela Universidade do Arizona para a realização de pesquisas em meio ambiente.

A principal mensagem que Linda Leigh deixa à sociedade não é sobre ecologia – e, mesmo assim, não poderia ser mais atual: “Descubra como você pode se dar bem com uma pessoa, mesmo que não goste dela. Na Biosfera, a gente podia manipular o solo e as plantas para melhorar a atmosfera, todo o resto dava pra resolver. Mas a parte humana precisa começar no âmbito pessoal”.

Se quiser saber mais detalhes sobre as confusões e polêmicas que envolveram Biosfera 2, a SUPER fez uma matéria contando toda a história do projeto.

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