Conte histórias para o seu filho na quarentena, recomenda Ilan Brenman

Autor infanto-juvenil com cerca de 80 livros publicados, Brenman diz na Fliss que a ficção ajuda na saúde mental e no aumento da imunidade das crianças

O escritor Ilan Brenman: estimular a imaginação da criança nesse período é fundamental (Divulgação/Divulgação)

“Viver sem ficção é viver em um deserto de desespero”, afirmou o psicólogo e escritor infanto-juvenil Ilan Brenman, no último dia da Fliss, a Festa Literária Internacional de São Sebastião, no domingo 30. Essa frase faz parte de um contexto maior, no qual o autor observa o poder da literatura, mais especificamente da ficção sobre o leitor, principalmente em tempos de pandemia do coronavírus.

Historicamente, a ficção é reconhecida por melhorar a saúde mental das crianças e dos adolescentes. Em tempos de pandemia, em que os pequenos são expostos a dúvidas, medos, estresse e proximidade com a morte, a ficção pode até ter o poder de aumentar a imunidade das pessoas.

A ficção de alta qualidade para crianças, explica o autor, tem milhões de funções polissêmicas e culturais. “A ficção é um mapa emocional da criança, é uma bússola. Por isso, eles param a vida para escutar histórias”, explica Brenman.

As boas histórias, aponta, falam sobre o sentido da vida, coragem, certeza, amor, ódio, finitude, entre outros temas universais”, disse Brenman. Por isso, a ficção está bombando durante essa fase de isolamento social, com crescimento no consumo de streaming e de livros. “O livro não está em crise. E o que está no topo dos mais vendidos é a ficção. Aparentemente, isso não tem nada a ver com a quarentena. Mas, na verdade, tem tudo a ver.”

Para o autor, crianças são como esponjas. Elas absorvem tudo ao seu redor. Elas escutam, mesmo quando os pais pensam que elas estão concentradas em outras atividades. E percebem as incertezas que rondam seu ambiente, sabem quando o pai perdeu o trabalho, sentem as brigas entre os adultos, percebem as dificuldades financeiras da família e sentem a questão da morte. “Os pequenos estão sentindo isso, mas não sabem colocar em palavras”, observa Brenman.

Nesta fase de distanciamento social, o escritor recomenda que os pais prestem atenção em duas atitudes dos filhos. A primeira é se eles estão brincando. Brincar, explica, é a linguagem da criança. O segundo ponto é se eles estão ouvindo histórias. A ausência dessas ações pode ser um sinal de alerta de que há algo errado.

Recentemente, estudo realizado em Boa Vista, Roraima, por pesquisadores da Universidade de Nova York e do Instituto Alfa e Beto e publicado na revista científica norte-americana Early Childhood Research Quarterly, mostra que programas bem estruturados de estímulo à leitura entre famílias têm impactos positivos no desenvolvimento cognitivo das crianças e na interação entre pais e filhos, mesmo em famílias com baixo nível de alfabetização.

CONTRA LITERATURA SALVACIONISTA

Ilan Brenman diz que jamais produziu um livro de forma pretensiosa, intencionalmente para fazer sucesso ou salvar o mundo. “Não sou muito fã da literatura salvacionista.” O autor também não tem apegos nem ciúmes de seus livros. “No momento que você cria uma obra, ela não te pertence mais. Ela pertence aos leitores.”

Para quem acha caro gastar 30 reais, 40 reais em um livro, Brenman responde. “Como já dizia o poeta, o livro é um brinquedo que nunca gasta. Cria marcas afetivas e memórias que um celular não criará.”

LITERATURA E PRECONCEITO

Durante o último dia da Fliss 2020, um participante da plateia online questionou Brenman sobre escritores famosos como Monteiro Lobato e a polêmica em torno de sua obra considerada racista. Antes de responder essa questão, Brenman trouxe para a discussão casos internacionais como o de uma mãe inglesa a favor de proibir A Bela Adormecida por conta do beijo roubado. “Todos os criadores têm uma vida pessoal e suas imperfeições. Se essas imperfeições não se adaptam ao mundo moderno, você vai cancelar a obra desse autor? Então você vai ter que cancelar 100% da arte.”

Sobre Monteiro Lobato, Brenman responde que o escritor de Taubaté foi “prisioneiro do tempo dele”. E complementou que jamais conheceu alguém que tivesse lido suas obras e se tornado racista.

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