Efeito selfie: obsessão por filtros pode causar distúrbios de imagem

Nariz fino, cantos dos olhos angulados e lábios preenchidos “à lá Kardashian”. Se nas décadas anteriores os padrões estéticos já precisavam da edição de imagens para serem atingidos, hoje basta um único clique na tela do celular para padronizar não só o rosto inteiro como a percepção de beleza.

A percepção de beleza hoje é definida com filtros do celular – Foto: Instagram/Reprodução

Os efeitos dos avanços tecnológicos da última década já podem ser sentidos no comportamento: uma pesquisa de 2019, realizada pela Academia Americana de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva Facial, mostrou que 72% dos cirurgiões sentiram o aumento da procura por procedimentos para ficar bem em selfies, taxa que saltou 15% em relação a 2018.

No Brasil, país que mais realiza cirurgias plásticas no mundo, prevalece a procura por procedimentos como prótese de mama e lipoaspiração. No entanto, as alterações faciais também aumentaram nos últimos cinco anos. É o que explica o cirurgião plástico Wendell Uguetto, do Hospital Israelita Albert Einstein.

“Por causa das selfies, a cirurgias de rosto também aumentaram”, explica Uguetto. “Entre os procedimentos mais procurados, estão as alterações no nariz, orelhas e pálpebras”. De acordo com o membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, o padrão estético mais procurado é caucasiano, fato que coincide com a discussão a respeito dos filtros de beleza que embranqueciam a pele de pessoas negras e indianas.

Espelho distorcido

Outro estudo que relaciona a presença nas redes sociais e a procura por cirurgias plásticas publicado pela revista médica JAMA Network aponta que a própria câmera do celular distorce o tamanho do nariz dependendo do posicionamento.

Da mesma forma, o cérebro humano também tem a mesma capacidade de fazer o mesmo com o corpo, o que resulta em uma doença chamada dismorfia corporal.

“O cérebro tem uma percepção diferente da realidade”, explica Wendell Uguetto. “O paciente se olha no espelho e se vê diferente, resultando em um círculo vicioso de procedimentos mal sucedidos e alterações psíquicas.”

Por causa das redes sociais e filtros de app, a dismorfia corporal já foi chamada de “Dismorfia do SnapChat” ou “Efeito Kardashian”, mas ainda se trata do mesmo princípio que faz com que um paciente com distúrbios alimentares enxergue sua aparência distorcida no espelho. Para Henrique Bottura, psiquiatra diretor clínico do Instituto de Psiquiatria Paulista, existem alguns fatores de pré-disposição que podem desencandear o distúrbio.

“Ansiedade, depressão e distúrbios alimentares são exemplos”, explica Bottura. “Mas não necessariamente esses pacientes precisam ter algum distúrbio prévio. Ás vezes, eles podem ser desencandeados pelo procedimento em si.”

Para o psiquiatra, o alerta vermelho para pacientes com dismorfia corporal surge quando eles demonstram uma insatisfação recorrente com a aparência.

Limites éticos da cirurgia plástica

Para ficar com a aparência de um boneco, o ex-Ken Humano, que agora atende pelo nome de Jéssica Alves, passou por mais de 70 procedimentos estéticos. O caso da modelo trans levanta o debate sobre até que ponto os cirurgiões plásticos devem realizar os procedimentos requisitados pelos pacientes, mesmo com sintomas de transtornos psíquicos.

“Na teoria, médico tem obrigação ética e moral de identificar o distúrbio psicológico e se negar a operar o paciente”, é o que explica o cirurgião Wendell Uguetto. “Na prática, esses pacientes procuram profissionais diferentes para continuarem atendidos”, conclui Uguetto.

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