Eleições nos EUA: Debate entre Trump e Biden foi briga de família no Natal, diz especialista

O primeiro debate entre os candidatos à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, do partido Republicano, e Joe Biden, do partido Democrata, se assemelhou a uma briga entre familiares na ceia de Natal. Ao menos, essa foi a opinião de Carlos Gustavo Poggio, professor da FAAP e PHD em Relações Internacionais. No entendimento do especialista, o embate entre os concorrentes foi um dos mais tumultuados da história americana e pouco agregou para o eleitor indeciso. “Sem dúvida foi um debate dos mais caóticos da história das eleições americanas. A minha impressão é daquelas brigas de família no Natal, que ninguém sai ganhando. Foi o que aconteceu nesse debate. Poucas pessoas devem ter mudado de opinião por causa do debate. Via de regra, esses debates são menos importantes do que nós pensamos. Os debates podemos movimentar um pouco as campanhas. Porém, nesse debate, o Trump que está atrás nas pesquisas, deveria se sobressair, o que não aconteceu”, analisou Poggio, em entrevista exclusiva ao Jornal da Manhã 2ª edição, do Grupo Jovem Pan.

Apesar de não considerar o debate tão relevante para a decisão nas urnas, Poggio considerou que houve um empate no primeiro encontro entre Trump e Biden. A questão, no entanto, é que o atual mandatário deveria se sobressair, já que está atrás nas pesquisas de intenção de voto. “Acho que o Joe Biden não teve nenhum escorregão. Não teve nenhum momento memorável. Isso não aconteceu porque é muito difícil passar uma mensagem clara no meio da confusão de ontem,. Há algumas pesquisas que mostrar que o Biden foi melhor que o Trump, mas dá para admitir que houve um empate. Para quem acompanhou os debates nas primárias, não foi nenhuma surpresa o desempenho de Biden. Biden é mediano e, para eles, ser mediano está bom. Eles estão jogando na defensiva. Para o Trump, que deve mexer na corrida eleitoral, não foi interessante”, opinou.

“Sobre o debate de vices, eu estava examinando que nos EUA temos muitas pesquisas. A melhor forma é fazer uma média ponderada dessas pesquisas. Em primeiro de março, Biden liderava com 5 ou 6 pontos de diferençara. Seis meses depois, após uma série de questões, fui ver essa pesquisa e está praticamente a mesma coisa. Não houve nenhuma alteração, isso com pandemia, questões raciais, etc. Ou seja, a tendência é uma cristalização muito grande na cabeça do eleitor. Muita gente já sabe quem é o Donald Trump e, muita gente que vota no Biden, é para ser contra o Trump. Então, não acredito em nenhuma mudança por causa dos debates. Em geral, debate entre presidenciáveis não tem muito impacto. Debates entre vices, então, menos ainda”, completou.

Ainda assim, o professor da FAAP acredita que a campanha de Trump menosprezou a capacidade de Biden debater. “Sobre a performance do Biden, eu acho que a campanha do Trump cometeu um erro estratégico aqui porque criaram uma expectativa muito baixa sobre a participação do Biden. A expectativa, entre os círculo de Donald Trump, é de que o Biden era um velhinho que não conseguia articular uma frase e que o Trump iria destruí-lo no debate. Então, a performance do Biden ser medíocre já supera a expectativa que a campanha do Trump tinha”, disse. “O Trump tem uma estratégia muito clara de tentar colar no Biden a pecha de que é uma esquerda radical. Ele é um candidato que tem 40 e tantos anos de carreira na política e é conhecido por ser moderado e, inclusive, é criticado pela ala mais esquerda dos democratas. Por isso, o Trump está com dificuldade de colar essa imagem do Biden à esquerda. Uma das razões dos democratas escolherem o Biden é uma razão pragmática. O eleitor democrata viu o Biden com mais chance de derrotar o Trump. Uma evidência é a de que na convenção democrata muitos republicanos participaram”, complementou.

No debate realizado na última segunda-feira, 29, Joe Biden chegou a mencionar o Brasil ao criticar as queimadas na Amazônia e no Pantanal. De acordo com o especialista escutado pela Jovem Pan, o fato foi marcante e pode mostrar com a relação entre os países pode estremecer em caso de vitória do democrata. “Quanto ao Brasil ser mencionado, de fato eu não me lembro na história recente do Brasil ser mencionado. Normalmente, a política externa não aparece. Quando aparece, normalmente não falam de América do Sul. É muito raro falar do Brasil. E apareceu mostrando que os democratas estão de fato com o Brasil na cabeça, não de forma positiva. Significa que Biden e Kamala Harris estão contra Bolsonaro – eles mostram isso nas redes sociais. Isso significa que, se o Biden vencer as eleições, ele deve colocar algumas dificuldades na relação com o Brasil, que tem um governo que apostou muito na relação com os EUA através do Trump. Isso mostra que é uma abordagem de curto prazo. Ainda que o Biden não vença, essa abordagem de achar que dá para se aproximar dos EUA apenas com o Trump é equivocada porque não leva em consideração a composição co congresso dos EUA, que é de maioria democrata. As chances que essa maioria se mantenha são grandes. A gente não consegue, no sistema político americano, aprovar um acordo mais significativo se esse acordo não for aprovado pelo congresso, ou seja, com o apoio dos democratas. E a gente queimou pontes com os democratas. Então, talvez uma vitória do Biden obrigue o governo brasileiro a ser mais pragmático em relação aos EUA”, finalizou Poggio.

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