Eleito vereador em SP, youtuber e policial civil Felipe Becari quer ampliar trabalho pelos animais

“No dia em que eu for atender um local em que o cachorro apanha e eu voltar para casa sem o animal, velho, eu não me chamo Felipe”. É assim, com um rap de fundo e ao volante segurando um cão no colo, que o policial civil Felipe Becari, 33, dá desfecho a um vídeo no seu perfil do Instagram.

A publicação, que tem mais de 70 mil visualizações, começa com ele repetindo a frase “Como é que é?” para alguém que está fora do quadro, em uma estética típica da rede social Tik Tok, onde as imagens foram originalmente postadas.

Naquele dia, Felipe estava em mais um de seus resgates de animais vítimas de maus-tratos, que o tornaram uma celebridade na internet e que certamente colaboraram para elegê-lo ao posto de vereador da capital paulista pelo PSD, com 98.717 votos.

No Instagram, ele contabiliza mais de um milhão de seguidores.

A grande maioria das mais de mil fotos que Felipe já postou são dele ao lado de cachorros e gatos às vezes ainda machucados, em outras já recuperados após atendimento do seu projeto Eu Luto pelos Animais, mantido com financiamento voluntário.

Entre seus seguidores estão as atrizes Patrícia Pillar e Paula Burlamaqui, que já comentaram entusiasmadas ações do agora vereador. Em um vídeo de 26 de outubro, visto por 226 mil pessoas, Felipe aparece sem camisa, tatuagens e braços fortes à mostra, junto de uma cachorra.

Na legenda, o aviso de que a “postagem política” programada para aquele dia fora substituída. “Saí pra correr um pouco e aí… resgatei uma cadela no cio! Maluco?”, ele pergunta. Quase todos os 2.173 comentários respondem que não.

Formado em educação física e em direito, Felipe é policial civil há nove anos. “Tinha o sonho de contribuir com a polícia, uma vontade de desenvolver isso, a questão de não ter nenhum policial na família, uma vida de classe média.”

Ele diz que “encarou o concurso” quando tinha 23 anos. Passou e, desde então, já circulou por seis delegacias. “Sempre me incomodou o senso de injustiça, a desigualdade social”, completa.

Antes disso, Felipe trabalhou como professor de educação física em escolas particulares, clubes e academias, e também como personal trainer.

O envolvimento com os esportes começou ainda pequeno. “Fui atleta por toda a infância e adolescência, atleta federado. Também fazia maratonas de forma amadora, e algumas travessias aquáticas.”

Jogando futebol em categorias de base, morou nas cidades de Leme, no interior do estado, e São Caetano, no ABC. “Fiquei longe dos meus pais e dos meus amigos. Antes, estudava em colégio particular, e nesses períodos tive que ir para o municipal.”

É da mesma época, lembra Felipe, o início do amor pelos animais, que acabou virando sua principal bandeira. “Antes não tinha como me dedicar a isso, mas aí agora posso ajudar mais. Dois anos atrás comecei a mexer nas redes, e deu no que deu.”

“Comecei a publicar os resgates, a pedir ajuda para pagar tratamento. E o fato de eu ser policial, as denúncias de animais mutilados, mortos, abusados, coisas muito relevantes, isso deu um boom.”

“Publico o antes, o durante e o depois. E sempre anuncio, faço lives dos resgates, as pessoas vão interagindo, sentindo as dores dos animais. A gente cresceu demais na rede”, fala, usando o cacoete de se referir a si mesmo no plural.

Já se vão mais de dez anos desde o primeiro animal resgatado. Felipe acredita que o sucesso deste nicho do seu trabalho venha da transparência com que o apresenta ao público. “Coloco sempre a prestação de contas.”

Ele faz uma conta rápida de cabeça e diz que, atualmente, recebe em média 3.000 denúncias ou pedidos de ajuda diários via redes sociais. Pelos outros meios de contato, como o número de telefone disponibilizado pelo projeto, seriam outros 2.000 chamados. “Esse WhatsApp anda comigo, é um chip no meu celular”.

Felipe dá conta de atender “uma ou duas” requisições por dia.

“As outras 3.998 eu não consigo nem responder. As pessoas acham que a gente tem uma estrutura de estado. Só que eu não sou a polícia, sou o Felipe. Conseguindo esse acesso na Câmara, com assessoria, vou ter como tratar das redes e atender à população.”

Em sua pauta está um projeto de lei que estabeleça uma parceria público-privada com clínicas veterinárias particulares que ajudem a atender à demanda de cidadãos de baixa renda. “Quero desafogar o hospital público e dar um atendimento mais regionalizado para todo mundo que precisa.”

“A gente vai tentar desenvolver um trabalho na Câmara para ter um controle maior, e para que não existam mais tantos animais de rua. Que a gente consiga disseminar o que são maus tratos, e o que não são.”

O policial sabe disso melhor do que ninguém, pelo que relata do seu histórico de atendimentos. Entre os mais chocantes, fala, estão os de zoofilia. “A pessoa faz realmente isso. Por prazer mesmo. Virou motivo de piada zombar de animais.”

Ele relembra casos de animais enterrados vivos, mutilados, mortes em massa por envenenamento. “Já vi bastante coisa pesada.” A maioria dos crimes se dá em “aspecto doméstico”, mas ele explica que atende qualquer tipo de denúncia.

“Semana passada foram animais silvestres. Já resgatei cobra, rato, e há um mês foi uma vaca. Inclusive, eu tenho um cavalo que resgatei, está em um rancho. Adotei e vou sempre visitá-lo. Era um cavalo de carroça”, diz. O nome do animal? “Apolo Becari. Todos os meus bichos tem o meu sobrenome, e são mais famosos do que eu.”

Na casa onde mora sozinho, na Granja Viana, Felipe tem quatro cachorros —eram oito, mas, com o fim de seu último relacionamento, a ex-namorada levou embora quatro.

Paulistano, filho de um advogado e de uma auxiliar odontológica, o recém-eleito vereador nasceu e cresceu no bairro de Moema, na zona sul.

Agora, está à procura de um novo imóvel na região do Planalto Paulista. “Tem que ser casa, precisa ter a graminha dos cachorros. Meu sofá está na madeira há sete meses, eles furam tudo”.

Ele rechaça o rótulo de “influencer”, porque diz que nunca vendeu nem ganhou nada.

“A gente sofre muito julgamento, muita fake news, sempre julgaram a beleza. Que só tem esse crescimento por causa da aparência. Bato de frente com isso desde o começo, para mostrar que tenho estudo, trabalho. A exposição já é muito grande há muito tempo, então agora tem que evitar dar munição para as pessoas”.

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