Estátuas no Recife homenageiam personalidades negras e ajudam a refletir sobre representatividade


Especialistas explicam a importância da representação de pessoas negras presentes na história pernambucana, como o percussionista Naná Vasconcelos e o poeta Solano Trindade. Estátuas no Recife representam personalidades negras
No Dia da Consciência Negra, celebrado nesta sexta-feira (20), um olhar para as estátuas espalhadas por pontos da cidade do Recife pode ajudar a resgatar a história da identidade negra (veja vídeo acima). Personalidades como Naná Vasconcelos e Zumbi dos Palmares reforçam a memória do povo negro.
No último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), feito em 2010, Pernambuco contabilizou 62% da população identificada como negra ou parda. Apesar disso, a grande maioria das estátuas e monumentos são dedicados a pessoas brancas.
Segundo o professor de filosofia Salviano Feitoza, uma das maneiras de enxergar de forma crítica a falta de representação nos espaços é conhecer a história da cidade e da população negra. “Só se vai reivindicar que o espaço público seja ocupado por algo com o que me identifico quando eu sei aquilo que tem relação com a minha história, com a minha vida”, afirmou.
Estátua em homenagem ao Maracatu do Elefante, no Forte das Cinco Pontas, no bairro de São José, na área central da cidade
Reprodução/TV Globo
O projeto turístico Olha Recife tem um passeio, temporariamente suspenso durante a pandemia do novo coronavírus, dedicado à história afrodescendente na capital pernambucana, conforme explicou o gerente de projetos turísticos da prefeitura, Bráulio Moura.
“O roteiro ‘Recife Afro’ faz um passeio pela memória negra da cidade, passando por ícones, como a Igreja do Rosário dos Pretos, a estátua de Naná Vasconcelos, a Rua da Moeda, o Pátio do Terço”, contou.
O gerente também disse que alguns locais, como a Rua do Bom Jesus, foram esquecidos ou apagados da memória coletiva, mas têm relação com a história dos negros na cidade.
Salviano Feitoza, professor de filosofia, falou sobre a importância do resgate da história negra do Recife
Reprodução/TV Globo
“Muita gente desconhece o fato de ter funcionado, nessa mesma rua [do Bom Jesus], um mercado de escravos e o primeiro ponto dos africanos escravizados. O primeiro contato que eles tinham com o Recife, onde ficavam de quarentena e depois vendidos como objetos nesse chão, nessas calçadas”, declarou Moura.
De acordo com Marta Almeida, coordenadora do Movimento Negro Unificado de Pernambuco, uma das maneiras de trazer essa história à tona é efetivar a aplicação da lei criada em 2003, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas do Brasil.
“É necessário não só o trabalho focado na população negra, mas na sociedade recifense. Por que digo isso? Porque essa história é a contribuição dos negros e negras na construção da cidade do Recife. Então, quando a gente efetiva a lei de história e cultura africana, nós quebramos o preconceito”, afirmou.
A escritora Lúcia dos Prazeres explica a importância de mais representações negras no Recife
Reprodução/TV Glovo
O incentivo à educação básica deve ser apenas o início de um pensamento antirracista, segundo a escritora Lúcia dos Prazeres. “Associado a isso, que seja publicado em livros, em documentários, esse conhecimento, essa participação. Para que a população se sinta representada e reivindique, junto ao poder público, que sejam erguidas mais estátuas de líderes negros”, contou.
Estátuas de personagens negros no Recife
Estátua de Zumbi dos Palmares, localizada no Pátio do Carmo, no Centro do Recife
Reprodução/TV Globo
O Dia da Consciência Negra é celebrado em 20 de novembro porque foi a data em que Zumbi dos Palmares foi morto, no ano de 1695, e teve sua cabeça exposta na Praça do Carmo, no bairro de Santo Antônio, no Centro do Recife. No mesmo local, foi feita uma estátua em homenagem a ele.
O Quilombo dos Palmares foi o maior refúgio de escravos em todo o continente americano, compreendendo parte do território de Pernambuco e de Alagoas. Ainda na época da escravidão, os negros fugiam para o local para ter liberdade e viver em comunidade.
Estátua do poeta Solano Trindade fica no Pátio de São Pedro, na área central do Recife
Reprodução/TV Globo
No Pátio de São Pedro, no bairro de São José, na área central do Recife, é possível visitar a estátua de Solano Trindade, poeta do povo negro que também foi pintor, ator, teatrólogo, ativista do movimento negro e militante de partidos políticos de esquerda.
Ele faleceu em 1908, e a estátua em sua homenagem fica localizada onde aconteciam as festividades da Terça Negra, temporariamente paralisadas devido à pandemia da Covid-19.
Estátua de Naná Vasconcelos está localizada no Marco Zero, no Bairro do Recife
Reprodução/TV Globo
Outra estátua importante para a história pernambucana é a de Naná Vasconcelos, localizada no Marco Zero, no Bairro do Recife. O percussionista, falecido em 2016, foi um dos maiores nomes musicais do estado, com diversas criações que exaltavam a sonoridade do berimbau, instrumento de origem africana.
Durante 15 anos, ele foi responsável pela abertura do carnaval do Recife, comandando centenas de batuqueiros de nações de maracatu.
Celebrando o mesmo ritmo, o monumento em bronze da rainha do Maracatu Elefante, Maria Júlia do Nascimento, conhecida como Dona Santa, fica localizado no Forte das Cinco Pontas, no bairro de São José, ainda na área central da cidade. O monumento foi vítima de vandalismo, com pichações e peças furtadas, mas segue relembrando a força da figura lendária que faleceu em 1962.
Vídeos mais vistos do G1 nos últimos 7 dias
Tags .Adicionar aos favoritos o Link permanente.